Racha na Academia Mato-grossense de Letras. Depois da eleição da nova diretoria, “imortais” estão saindo no pau

Sebastião, Sueli, Cristina e Mahon: imortais em guerra em Mato Grosso

Meus amigos, meus inimigos: pintou um clima de guerra dentro da Academia Mato-grossense de Letras. Felizmente, é uma guerra literária. O confronto é resultado da recente eleição para a escolha da nova diretoria da Casa Barão, que consagrou a chapa capitaneada pela jornalista e empresária Sueli Batista, que contou com apoio do atual presidente, o historiador Sebastião Carlos.

Essa foi uma das raras vezes em que houve disputa pelo comando da vetusta AML. Contra Sueli Batista, concorreu a chapa capitaneada pela professora aposentada do IFMT, Cristina Campos, que contou com apoio do advogado Eduardo Mahon, ex-presidente da Academia, e que atuou como o grande marqueteiro da campanha dissidente, caprichando na provocação.

Criativo como ele só, Mahon resolveu transformar a eleição em uma disputa entre imortais que se destacam como poetas e escritores, e que indiretamente se autoproclamavam como as cabeças mais “mudernas” da Casa, enfrentando acadêmicos que eles procuravam carimbar como mais tradicionais e formalistas. Para isso, entre outras iniciativas, Mahon patrocinou panfletagem e colagem de cartazes pela cidade e escreveu artigo, em parceria com o jovem poeta Caio Ribeiro, clamando pela redescoberta e revalorização dos escritores mato-grossenses. (Artigo que publico a seguir.) Na chapa destes “mudernos”, entraram nomes como Ivens Scaff, Marta Cocco, Agnaldo Rodrigues, Aclyse Mattos, Lourembergue Alves, Luciene Carvalho e Marília Beatriz

A disputa, inicialmente encarada como fraterna, chegou a sua ebulição máxima, todavia, e de repente, nesta seg-feira, com a publicação de um “repto” pela atual diretoria da Academia, que, fazendo um balanço do processo de escolha, chega a dizer, entre outras coisas, sem citar nomes, mas é obvio que nem precisava, que componentes da chapa Cristina-Mahon, no processo de campanha, teriam partido para ataques pessoais, e que teriam adotado “comportamento maldoso que atinge a dignidade acadêmica”, notadamente ao resolveram boicotar a eleição, deixando de comparecer às urnas, no sábado passado.

Assinado por Sebastião Carlos, Sueli Batista, José Ferreira de Freitas e José Carrara, o Repto garante que a nova diretoria não permitirá, todavia, “que pseudo intelectuais, distanciados da realidade de seu povo e movidos apenas pelo ressentimento, pelo ódio e pela frustração enodoem a nossa tradição”.

O texto não revela, todavia, o que de maldoso e possivelmente antiético teria sido praticado pela chapa dissidente no processo eleitoral. Pauta para os cadernos culturais e para os jornalistas culturais, se é que a fase de capitalismo selvagem que impera em nossa midia mato-grossense ainda mantém espaço para esses cadernos e esses jornalistas. Se não houver investigação dos jornalistas,  é esperar pelos novos capítulos dessa guerra de retumbantes frases de efeito. (Enock Cavalcanti)

LEIA PRIMEIRAMENTE MANIFESTO LANÇADO PELA  CHAPA DA CRISTINA CAMPOS NA VÉSPERA DA ELEIÇÃO

 

PROCURA-SE

Caio Ribeiro e Eduardo Mahon

 

A capital acordou diferente. Pelos muros da cidade, estão pregados panfletos nos quais escritores são procurados. Por quê? Trata-se de uma provocação estética e semântica, além de se configurar uma intervenção na dura linguagem urbana. Se, de um lado, vivemos sob a égide da perseguição ao humanismo como expressão livre, por outro, escritores são procurados para nos salvar desse opaco período cultural. Procura-se porque os intelectuais estão sendo caçados. Procura-se porque se deseja encontrar. Procura-se também porque se quer conhecer. Esse triplo significado está na nossa paródia das antigas recompensas que se ofereciam pela cabeça dos fora-da-lei. Nós, escritores, estamos nos sentindo perseguidos nesse sentido polifônico: repressão e desejo. Desde quando esses sentimentos deixaram de andar juntos?

Procura-se. Querem nos conhecer. Há gente fazendo literatura de qualidade. O que falta é espaço, circulação, oportunidade. Até mesmo nos ambientes em que seria previsível valorizar escritores, estamos nós arrostados por outras letras. Procura-se. Do poder público, as verbas minguadas formam uma colcha de retalhos tão curta quanto inútil. Incentivos episódicos e politiqueiros, ausência de uma estratégia coordenada com setores da educação. Somos caçados há anos, procurados como baderneiros. Estamos foragidos dos gestores insensíveis e não pretendemos nos entregar sem resistência.

A despeito de todo o descaso com a literatura produzida em Mato Grosso, somos desejados. A Unemat adota escritores mato-grossenses no exame vestibular, uma vitória para a categoria e uma distinção para ela mesma. As escolas particulares fazem encomendas às editoras e agendam visitas de escritores a turmas interessadas em conversar sobre literatura. Editoras nunca tiveram tanta demanda, escritores iniciantes e veteranos, unidos no fazer literário. Procura-se. Procuram-nos. Recentemente, o município de Juína abriu procedimento para a aquisição de obras literárias para abastecer a biblioteca municipal que recebeu premiação internacional. Tangará e Cáceres, Sinop e Barra do Bugres, Santo Antônio do Leverger e Lucas do Rio Verde, são cidades onde o público lota os auditórios quando há lançamento de livros.

É na capital que devemos anunciar essa procura, onde está mais próximo o poder que nos procura para limitar não nos procura para conhecer. Como criar uma sensação no universo simbólico da cidade? Essa é uma das provocações do trabalho Procura-se. A repetição é uma ferramenta eficaz. Milhares de lambe-lambes com rostos de mais vários escritores de Mato Grosso tomaram o espaço púbico. A grande escala repete estes rostos com a mesma frase. Rostos com a mesma frase. Mesma frase. Estamos todos foragidos. O muro vai ser página. A cidade vai ser livro. Procura-se. Busca-se conhecer. Quem somos nós? Somos escritores. Fazemos literatura. Queremos espaço. O espaço que é furtado aos escritores dentro de muitos espaços criamos fora. Viramos do avesso, expomos as entranhas. O que não se quer noticiar vira manifesto.

Literatura é mais do que o receituário do médico, a sentença do juiz, a reportagem do jornalista. É mais do que o manual de autoajuda, mais do que teses de doutorado e enciclopédias. Literatura é sonho em prosa ou poesia, é invenção e reflexão, é retrato e criação. Literatura é arte. É a arte que constrói a nossa identidade e não nos deixa esquecer de que somos humanos. Reduzir literatura ao utilitarismo é uma violência. É dizer: a poesia e a ficção não prestam para nada. As mentes mais obtusas interpretam a autonomia da arte como falta de serventia. Quanta pobreza intelectual, quanta aridez estamos vivenciando atualmente, uma mentalidade típica de fanáticos e ditadores.

Procura-se. Procuram-nos. Procuramos também. Pretendemos que nos procurem, que nos interpelem, que nos avaliem, que nos provoquem, mas que nos leiam principalmente. Sejamos nós procurados nas livrarias, nas bibliotecas, nas salas de aula, nos debates e nos lançamentos. Procurados nos jornais, nas revistas, nos sites e nos livros. Procurando bem, estamos formando uma nova tradição literária em Mato Grosso. Queremos ser encontrados por todo o povo mato-grossense. Mas tem gente que prefere não ver. E não ler. Esses não nos encontrarão, ainda que nos procurem para sempre. Para eles, ficaremos foragidos.

 

Caio Ribeiro, escritor, é um dos fundadores do Grupo Coma A Fronteira.

Eduardo Mahon, escritor, é editor-geral da Revista Literária Pixé.

 

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LEIA AGORA REPTO LANÇADO PELA ATUAL DIRETORIA DA ACADEMIA, FALANDO EM RACHA NA AML

 

REPTO EM NOME DA DIGNIDADE ACADEMICA

Diretoria da AML – Academia Mato-grossense de Letras

Nas ultimas semanas vimos pela imprensa e mídias sociais anunciar-se uma suposta “guerra entre imortais”. Todo o alarido surgiu em razão da disputa entre duas chapas pela Diretoria da Academia Mato-Grossense de Letras. Disputa legitima, natural e, de certa forma, bem vinda à medida que isso poderia representar um diálogo construtivo em torno do futuro de uma entidade que é a mais antiga das instituições culturais de Mato Grosso. No entanto, o que deveria ser um saudável e democrático debate interno, injustificadamente transbordou, levado que foi ao conhecimento de toda a sociedade mato-grossense. Ainda assim poderia ter sido positivo se, ao invés de questiúnculas, miudezas e idiossincrasias pessoais, tivesse sido colocado em discussão os problemas maiores ligados à cultura, ao conhecimento e, particularmente, a uma forma eficaz de procurar fazer aportar à instituição recursos financeiros que venham a contribuir para melhor dinamizar suas atividades. Lamentavelmente isso não foi, e não é, o que testemunhamos. 

    Se não procedia a informação de que seria esta a primeira vez em que duas chapas estavam disputando a Diretoria é certo, porém, que esta é a primeira vez em nossa história quase centenária que um assunto que dizia respeito única e exclusivamente aos acadêmicos foi levado a público de modo tão desairoso, tão afrontoso, atingindo não somente os atuais acadêmicos mas todo o nosso passado de convivência respeitosa. E é por esta razão que estamos vindo a público repudiar o comportamento nefasto, pernicioso e deletério de uma minoria de ressentidos. A pirotecnia verbal criada por uns poucos, unicamente para satisfazer o próprio egocentrismo, levou deliberadamente à distorção da verdade. Daí à ignomínia dos assaques pessoais foi um passo apenas. Este informe tem o objetivo de esclarecer aos interessados e aos desavisados que a mentira, embora repetida várias e seguidas vezes, não pode jamais se sobrepor à verdade. Vamos então aos fatos.

    Uma acadêmica, antes mesmo da publicação do Edital de eleição, açodadamente lançou-se candidata e deu início à sua campanha. Após a publicação oficial, outra chapa se inscreveu. A partir desse momento, pessoas da chapa prematura deram início a uma série de atitudes pueris, desafiadoras e provocativas que resultou em grave e inédita desavença na família acadêmica. 

    Tal comportamento solerte, desconhecido em nossa história, que em absoluto se coaduna com a vida acadêmica, teve efeito contrário ao pretendido, pois serviu para unir ainda mais todos os membros mais antigos e sóbrios da instituição. Em decorrência, de antemão sabendo-se derrotado, e embora tendo participado do processo eleitoral até a ultima hora, esse grupo deixou de cumprir a obrigação estatutária de votar. Ao ausentar-se da votação de forma inglória, demonstrou um comportamento indigno àqueles que devem dar o exemplo de respeito à instituição a que pertence e de reverência à Democracia. As esfarrapadas justificativas, que depois da derrota passaram a apresentar, não encontram o mínimo amparo no Estatuto, qualquer respaldo na história da Academia, tampouco sustentação ética. Deste modo é que salta aos olhos que a derrota sofrida não foi apenas pelo voto. O bom senso, a seriedade e a serenidade do espírito acadêmico prevaleceram. As pseudos justificativas apresentadas não passam de esperneios de derrotados, embora seja deplorável que entre estes se encontram pessoas que participaram da elaboração do Estatuto o que significa, no mínimo, que deveriam conhecê-lo e respeitá-lo. 

    Vale dizer que o inócuo boicote não é o primeiro que essa minoria realiza. Já há algum tempo seus componentes não comparecem nem às reuniões mensais e extraordinárias relativas aos eventos promovidos pela instituição, tampouco às sessões solenes de posse de eleitos e mesmo à Sessão Magna da Saudade, criada para homenagear acadêmicos falecidos. Com tal comportamento maldoso não atingem colegas seus, mas sim a própria dignidade acadêmica. Tais ações desagregadoras nunca foram vistas em nosso meio acadêmico. 

    Como encenadores do desdém, do desrespeito e da intolerância assumem, com falso orgulho, o deplorável comportamento que espalha falsas notícias, que tenta torpedear as iniciativas da instituição e que visa a criar a cizânia. Ora, essas são as características dos autoritários e daqueles que lhes são servis. E, o que nos deixa abismados, é como alguns se dispõem a ser subordinados, numa deplorável servidão voluntária. A estes últimos, recomendamos a que leiam La Boétie que escreveu sobre A servidão voluntária, no qual recomendava como o caminho do verdadeiro cidadão: “Tomai a resolução de não mais servides e sereis livres”. 

    Sob a pretensa fala de “defenderem” a literatura, como se dela fossem os donos, causam a divisão em um campo já frágil e desprotegido. Por vias transversas estão na realidade combatendo uma instituição – a Academia Mato-Grossense de Letras – que, a duras penas, vem se mantendo impávida, por empenho quase que exclusivo de seus membros, ao longo dos últimos noventa e oito anos. 

    Mas, daqui da Casa Barão de Melgaço, símbolo majestoso da tradição mato-grossense, lançamos um repto aos protagonistas da desavença e do desdém: não conseguirão destruir a nossa instituição. Atitudes demagógicas, estimuladas por um pedantismo, que é fruto da arrogância e da soberba, em nada contribuem para o verdadeiro conhecimento e o autêntico labor em favor da cultura. Não permitiremos que pseudo intelectuais, distanciados da realidade de seu povo e movidos apenas pelo ressentimento, pelo ódio e pela frustração enodoem a nossa tradição. A Academia mantém-se renovada e, sendo fiel ao seu passado, olha para o futuro.

Casa Barão de Melgaço, 24 de setembro de 2019.

A DIRETORIA

Sebastião Carlos Gomes de CarvalhoPresidente

José Cidalino CarraraPrimeiro Secretário

Sueli Batista dos SantosSegundo Secretário

José Ferreira de Freitas – Decano

1 Comentário

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  1. - IP 179.150.187.113 - Responder

    Um patrocínio da famiglia Nadaf?

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