HÁ VIDA INTELIGENTE NAS SÉRIES DA TELEVISÃO: “Wallander” é a série e Kenneth Branagh, o protagonista. A produção é britânica, falada em inglês, mas a ação se passa na Suécia, mais precisamente na cidade portuária de Ystad, no sul do país. Há uma outra versão, feita pelos próprios suecos, com Rolf Lassgard no papel principal. Kurt Wallander é um policial divorciado e pai de uma filha já adulta. Sua carreira vai muito bem, mas, em contrapartida, sua vida pessoal está um caco. Wallander é inspirada na série de livros do autor sueco Henning Mankell e a série britânica foi produzida pela BBC. São quatro temporadas que foram ao ar em 2008, 2010, 2012 e 2015 (na Alemanha). A Netflix do Brasil, no entanto, já disponibilizou as quatro temporadas de três episódios cada uma

 

Crime em série: E se o Jack Bauer fosse sueco?

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Crédito: Divulgação
Por Etienne Jacintho São Paulo
NO JOTA

Nunca fui muito fã de filmes de ação daqueles recheados de pirotecnia em que o herói está sempre com um corte no supercílio ou uma mão machucada de tanto bater em seus inimigos. Lembro-me até hoje, lá nos anos 1990, de criticar uma dessas superproduções e alguém rebater, em tom de deboche: “Bom mesmo éAtravés das Oliveiras”, em alusão ao filme de Abbas Kiarostami. A verdade é que tenho preguiça do ritmo frenético de grande parte das produções norte-americanas. Isso porque a vida, por mais agitada que seja, nunca é assim, cheia de cortes e sem parada. A gente respira. A gente precisa respirar.

Um detetive, por exemplo, não passa 24 horas por dia e sete dias por semana correndo sem parar, sem comer, sem dormir. Ele pode ter, vez ou outra, um problema de insônia; pode comer uma coxinha no carro de vez em quando; meter-se num tiroteio um dia… Mas tem um momento em que ele pára, afinal, ele é um pobre mortal. Um de nós. Gente que precisa de uma pausa nem que seja para fechar o vidro do carro. Gente que tem de tirar a roupa suja antes de deitar-se na cama para dormir. Raramente nós, espectadores, acompanhamos esses momentos de um protagonista nas séries e filmes policiais. Isso porque consumimos demais a cultura americana. Agora, vai ver uma série da BBC britânica que se passa na Suécia. Vai lá, vai!

Wallander é a série e Kenneth Branagh, o protagonista. A produção é britânica, falada em inglês, mas a ação se passa na Suécia, mais precisamente na cidade portuária de Ystad, no sul do país. Kurt Wallander é um policial divorciado e pai de uma filha já adulta. Sua carreira vai muito bem, mas, em contrapartida, sua vida pessoal está um caco. Filho de um pintor, Kurt se acha incompreendido pelo pai artista. Mesmo sabendo que seu casamento acabou, ele ainda insiste em usar sua aliança. No trabalho, Kurt, se morasse nos Estados Unidos, seria uma espécie de Jack Bauer, afinal, as piores coisas sempre acontecem com ele. Kurt, porém, experimenta sentimentos que o heroi de 24 Horas não parece ter – ou não mostra ao espectador. Culpa é o maior deles.

Em um dos episódios, Kurt mata um suspeito. E ele sofre muito. Confesso que demorei para entender o que estava acontecendo ali na tela. Voltei a cena. O suspeito que o detetive persegue está armado. É, obviamente, uma ameaça. Kurt atira em legítima defesa e mata o cidadão que, vale dizer, é um neonazista. Mesmo assim, Kurt fica mal. Ele nunca, em mais de 30 anos de carreira, havia tirado a vida de alguém. Jack Bauer matava pelo menos um bandido a cada episódio, somando ao menos 24 em um só dia. E torturava muita gente também. Nunca percebi nele alguma culpa. Triste é constatar que o Brasil está colado nos Estados Unidos e muito, mais muito mesmo, distante da Suécia.

Wallander é inspirada na série de livros do autor sueco Henning Mankell e foi produzida pela BBC. São quatro temporadas que foram ao ar em 2008, 2010, 2012 e 2015 (na Alemanha). Os britânicos verão a temporada final somente agora em maio. A Netflix do Brasil, no entanto, já disponibilizou as quatro temporadas de três episódios cada uma. Os capítulos têm cerca de 1h20 de duração.

Além de ótimos roteiros, a atração chama a atenção pela bela fotografia e pelo realismo de seus personagens. Ninguém ali é galã ou mulher de capa de revista. Por mais heroico que Kurt seja, ele não anda pelas ruas bancando o gatão de meia idade. Kurt é um homem de 55 anos que enfrenta questões e limitações físicas condizentes com sua idade e tem relacionamentos com mulheres maduras como ele. Nos últimos capítulos, a gente acompanha outro drama na vida de Kurt, muito além dos crimes que ele precisa solucionar. O fim é duro. Implacável. Kurt, porém, não terá de enfrentar a vida sozinho.

Quem gosta de séries policiais deve assistir a Wallander. É bacana ver uma atração do gênero que traz suspense e ação sem apelar para tiros, explosões e perseguições surreais. O suspense, aliás, está presente mais nas cenas em que não há armas. E há até uma musiquinha para os momentos de tensão, assim como na série How to get away with murder ou no filme Kill Bill, de Quentin Tarantino. E não são poucos os momentos de tensão, pois Kurt insiste em seguir suas pistas sem reforço policial. Sorte que ele quase sempre se dá bem sem disparar sua arma. Na série, não há culto às armas. Ah, como eu gostaria de viver na Suécia (se lá fosse mais quentinho)… Mas, como dizem por aí, não se pode ter tudo!

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