PSICANALISTA GILSON IANNINI: O ódio de classes não é uma divisão recente, no Brasil. A sociedade brasileira é construída sobre um mito fundador que tem algumas versões, mas é o mito romântico da miscigenação de europeus, índios e negros. Uma miscigenação bem sucedida, que não teria deixado traumas, feridas ou fraturas. Esse é nosso mito fundador, que, contudo, contrasta com a percepção mais cotidiana de nossa realidade. Gostamos de nos perceber como caridosos, conciliadores, livres de preconceitos: “minha mãe tratava nossa empregada como um membro da família”. Exceto pelo fato de que a empregada comia na cozinha e não na sala, dormia no quartinho sem janelas e não partilhava a herança.

senhores e escravos no brasil

O ódio de classes não é uma invenção recente

Somos uma pátria una, sem divisões de classe ou de raça. Esse é nosso mito fundador, que, contudo, contrasta com a percepção mais cotidiana de nossa realidade
 

 

Gilson Iannini, na revista Cult

Em meados do século 19, o Brasil estava dividido. De um lado, os abolicionistas, imbuídos de ideais iluministas, desejavam a emancipação dos escravos. De outro lado, os anti-abolicionistas não tinham nenhum pudor em decretar que, sem a mão-de-obra escrava, a economia da colônia não sobreviveria. Entre a primeira lei antiescravagista (“Lei Feijó”, de 1831), que inspirou a expressão “para inglês ver” pelo fato de nunca ter sido efetivamente cumprida até a “Lei–Aurea”, de 1888, foram mais de 50 anos em que a sociedade brasileira se viu dividida. Não raro, o homem de bem, o cidadão respeitável, o pai de família encontrava sólidos argumentos contra a abolição da escravidão. Não raro, abolicionistas eram vistos como hipócritas e imorais.

Na conturbada década de 1860, o escritor José de Alencar interviu veementemente no debate sobre a emancipação dos escravos. Membro do Partido Conservador, redigiu uma série de célebres cartas nas quais se opunha à abolição. Alencar, incansável defensor da moralidade na política, via a escravidão como uma necessidade histórica, que naturalmente iria chegar a seu fim. Não caberia ao Estado intervir no curso natural das coisas. Para Alencar, a escravidão objetivava civilizar a barbárie constitutiva da raça africana: “o escravo deve então ser o homem selvagem que se instrui e moraliza pelo trabalho” (ALENCAR: 2008, p. 67). Do outro lado da contenda, o liberal Joaquim Nabuco profetizaria: “não basta acabar com a escravidão, é preciso destruir sua obra”. Quer dizer: o trauma da escravidão deixaria marcas profundas na sociedade brasileira. Ainda iríamos conviver muito tempo com os vestígios daquela violência originária.

Nesse sentido, apenas uma democracia radical, que necessariamente é uma democracia por vir, uma democracia ainda-não-realizada, seria capaz de sublimar, de superar essa violência que retorna, que se repete, sob diversos disfarces, em nossa história. Uma democracia radical é uma democracia que entende igualdade como um conceito não apenas jurídico, não apenas formal, mas também social, econômico e político, em uma palavra, concreto.

Mas como se transmitem as marcas de uma violência assim constituída, se a realidade histórica do século 21 é outra? Se a escravidão é coisa do passado, por que ressuscitar esse defunto neste momento tão decisivo de nossa história? Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que marcas e vestígios da escravidão   estão presentes em nossa sociedade, ainda que atenuadas e/ou disfarçadas e/ou afastadas de nossa percepção cotidiana. Um breve excurso a Freud pode ajudar a aclarar a questão.

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Uma das lições mais importantes de Sigmund Freud diz respeito à maneira como repetimos, de maneira inconsciente, situações traumáticas que nos causam desprazer. Isso vale tanto para o indivíduo, quanto para a sociedade. O indivíduo que não consegue esquecer uma determinada situação angustiante, ou que repete os mesmos erros, mesmo sabendo que são erros, está submetido a uma espécie de compulsão à repetição. Mas isso não vale apenas para o indivíduo. Vale também para a sociedade. Freud dizia que os limites entre a psicologia individual e a psicologia das massas são tênues. No texto que publicou pouco tempo antes de morrer, O homem Moisés e a religião monoteísta (1939), Freud estava interessado em entender por que os judeus atraíram para si tanto ódio. O que havia de tão especial no caráter do povo judeu para que esse fosse alvo de tanto ódio? A argumentação de Freud é complexa e não cabe aqui resumi-la. Mas mesmo se não é possível retomar aqui o conteúdo do argumento, pelo menos lembremos sua lógica interna:

(1) um acontecimento traumático, violento ocorre a um determinado povo;

(2) a lembrança desse acontecimento é reprimida para o inconsciente e/ou desmentida;

(3) segue-se um período de latência;

(4) um novo acontecimento faz emergir aquilo que havia sido recalcado/reprimido ou desmentido. Esse retorno, evidentemente, é marcado pela distorção e pelo deslocamento. O que retorna não retorna do mesmo jeito, mas retorna disfarçado, sob novas roupagens. Este retorno vem acompanhado de culpa e de ódio, uma vez que a ideia e o afeto se desligaram.

Transmitimos essa herança através de nossos valores, de nosso discurso, do nosso modo de lidar com o outro. No caso em pauta, o esquecimento da violência traumática da escravidão deixa traços e vestígios, que, desmentidos e recalcados, retornam depois de algum período de latência, justamente quando uma massa de excluídos passa a contar politicamente, passa a ser incluída na sociedade e não mais em sua margem apenas. Escolhi aqui o episódio da escravidão. Mas poderia ter tomado diversos outros caminhos em que uma violência original é desmentida, mas retorna sob outros disfarces.

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A sociedade brasileira é construída sobre um mito fundador. Nosso mito tem algumas versões, mas em linhas gerais é o mito romântico da miscigenação de europeus, índios e negros. Uma miscigenação bem sucedida, que não teria deixado traumas, feridas ou fraturas. Isso culmina na ideia do homem cordial. De certa forma, José de Alencar é um dos artífices desse mito fundador. Num discurso ao Parlamento em 1871, ele declara que nossa escravidão, comparada à escravidão norte-americana é branda: “nossos costumes, a índole generosa de nossa raça, impregnam essa instituição [a escravidão] de uma brandura e solicitude que a transformam em quase servidão”. Somos uma pátria una, sem divisões de classe ou de raça. Esse é nosso mito fundador, que, contudo, contrasta com a percepção mais cotidiana de nossa realidade. Do alto do meu apartamento na zona sul, vejo mendigos na praça ou a favela no morro um pouco mais acima; no semáforo, fecho os vidros pretos do meu carro para o menino que vende balas.

Gostamos de nos perceber como caridosos, conciliadores, livres de preconceitos: “minha mãe tratava nossa empregada como um membro da família”. Exceto pelo fato de que ela comia na cozinha e não na sala, dormia no quartinho sem janelas e não partilhava a herança. Referimos-nos a bares e baladas dizendo se são “bem frequentados” ou “caídos”. O conteúdo semântico dessa segregação não é desconhecido de ninguém. Um amigo francês, certa vez me confessou que uma das coisas que ele achava mais curiosa no Brasil era que todo apartamento tinha duas portas para o exterior, a porta social e a de serviços. A verdade por trás dessa denominação bizarra é que percebemos uma exclusão mútua entre “trabalho”e “social”. Quem entra por uma porta, não sai pela outra. Aliás, vale lembrar, como dizia Lacan, que o fundamento da fraternidade é, paradoxalmente, a segregação. Os laços que nos unem a nossos iguais retiram sua força da capacidade de segregar aqueles que não fazem parte da unidade. Nossa partilha do Mesmo e do Outro pertence a essa lógica. Se pertenço à determinada torcida organizada é porque me vejo como radicalmente outro daquele membro da torcida organizada rival. Mas basta encontrarmos um inimigo comum, por exemplo, o outro time, para que nosso narcisismo das pequenas diferenças sucumba diante do inimigo maior. E mesmo os torcedores dos times antagonistas podem unir-se para torcer pela seleção” canarinha “ contra um inimigo ainda mais externo, a seleção de outro país. Tão logo essas unidades imaginárias se desfazem, os grupos recuperam seu caráter segregador inicial e se reconstituem a partir dos traços identificatórios que partilham. Algo dessa lógica explica a união de segmentos tão distintos nesse ódio imaginário ao PT.

Há mais de uma maneira de pertencermos a uma classe. Tanto Alencar, quanto Nabuco são filhos de senadores do Império. Pertencem, pois, à mesma classe social e puderam, cada um à sua maneira, desfrutar dos privilégios de classe, como estudar, viajar e seguir carreiras literárias e políticas. No entanto, há maneiras e maneiras de fazer parte de uma classe. Há aqueles que efetivamente creem na universalidade dos valores defendidos por sua classe social. Eles não são hipócritas, apenas não percebem a particularidade dos valores que defendem. Neste sentido, um liberal do século 19 não tinha nenhuma dificuldade em defender valores liberais e, ao mesmo tempo, defender a escravidão, até porque a Primeira Constituição brasileira era também liberal e tolerava a escravidão. Estes são capazes de defender valores como liberdade e igualdade, sem contudo perceberem as restrições intrínsecas que limitam o acesso a esses mesmo valores a apenas uma parte da população. Mas há também aqueles para quem a pretensa universalidade desses valores escondem, no fundo, interesses particulares. Para estes, vale a célebre frase de Groucho Marx: “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”. Alencar pertence ao primeiro tipo; Nabuco ao segundo. Na Brasil de hoje, todos são democratas. Mas os primeiros entendem a igualdade na chave da meritocracia e a desigualdade como uma decorrência “natural” dos processos sociais; os segundos, defendem a igualdade como um resultado de políticas públicas de diminuição da desigualdade.

Recentemente, e particularmente nessas eleições de 2014, a sociedade brasileira viu-se diante de uma grande divisão. Um dos fatos mais curiosos é a percepção de que o PT teria inventado e alimentado o ódio de classe. Nada mais falso. Essa inversão pode ser explicada de várias maneiras. Claro que pode ser vista como uma estratégia eleitoral da propaganda anti-petista (oficial e oficiosa). Mas ela também está enraizada no sentimento de muitos brasileiros no ódio ao PT estampado nos adesivos dos carros e nos neologismos cuidadosamente plantados por alguns colunistas conservadores no imaginário social: “petralhas”, “corruptos”, etc. Mas a verdade é que o PT não inventou o ódio de classe ou sua divisão. Nem mesmo o alimentou. Uma prova simples disso é que não foi cunhada nenhuma equivalente a “petralha” para se referir a um tucano, embora escândalos de corrupção do PSDB sejam sabidos de todos.

Contudo, alguma coisa que realmente estava adormecida, em latência, acordou. A exuberante ascensão de milhões de pessoas ao mercado consumidor deu uma visibilidade maior a atores que estávamos acostumados a ver como invisíveis. Para um professor universitário, é comum ver como às vezes é difícil para alunos cotistas serem respeitados como iguais, principalmente no início. É que essa movimentação social acaba por aguçar o “narcisismo das pequenas diferenças”. Cada vez mais, preciso de coisas mais exclusivas para não ser “confundido” com a massa. Quantas vezes a publicidade vende a ideia de “exclusivo” (banco, restaurante, carro, roupa)?

Para finalizar, gostaria de retomar o episódio da simbólica divisão social que marcou o Brasil do século 19 e de mostrar como, sob novos disfarces, a mesma lógica se apresenta  hoje.  A violência de abolir a escravidão mas não criar mecanismos sociais capazes de integrar o ex escravo na sociedade é apenas uma das figuras daquilo que Nabuco chamava a atenção: “não basta acabar com a escravidão, é preciso destruir sua obra”. Esse mesmo mecanismo de desmentir e de recalcar essa violência fundadora está presente em diversos episódios e em diversos graus em nossa história. A história dos doze anos de governo petista é a história da tentativa de redimir os restos daquela violência. Essa violência ressurge de tempos em tempos, não apenas no preconceito de classe, mas muitas vezes ressurge com verniz teórico de ciência exata. Quando um eminente economista, candidato a Ministro da Fazenda, afirma que “o salário mínimo está muito alto” e que isso não foi seguido de um “aumento de produtividade”, não estamos diante da mesma lógica? Por que em nenhum momento se perguntou se as margens de lucro das empresas são compatíveis com suas congêneres estrangeiras ou se seus dirigentes estariam dispostos a cortar salários e pro labores dos altos cargos executivos? Ou seja, quando é preciso cortar, é a base da pirâmide que deve ser sacrificada, não o topo. Travestido de diagnóstico científico, temos um mero interesse de classe.

Tenho uma convicção. Para alguns, Lula e Dilma nunca serão perdoados. Mas não por seus erros. O PT costuma pagar mais caro por seus acertos do que por seus erros.

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Gilson Iannini é psicanalista, Doutor em Filosofia e Professor da  Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)

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