VINICIUS DE CARVALHO: Cuiabá, cidade quase tricentenária, ficou um pouco perdida neste ciclo político que “descuiabanizou” a política mato-grossense


Cuiabá 300 anos
Por Vinicius de Carvalho

Todo aniversário é um dia como qualquer outro. Numa data redonda não é diferente. Mas a maior parte das culturas celebra aniversários para comemorar o nascimento daquela pessoa ou organização que completa mais um ano. Eles sempre nos oportunizam medir a passagem do tempo com maior clareza, avaliar o ciclo que está se fechando e olhar para o futuro. No caso de uma cidade trata-se de um aniversário coletivo, já que ela nada mais é do que a soma dos seus cidadãos.
Cuiabá está no rol que envolve poucas cidades brasileiras com tempo de fundação próximo ou superior a 300 anos. Somos um país jovem na comparação com nações europeias, asiáticas, africanas ou mesmo os povos indígenas que habitavam este local há milhares de anos.
A ocupação do território pelos colonizadores portugueses começou pelo litoral do Brasil, de modo que a imensa maioria das cidades tri ou quadricentenárias estão nas regiões nordeste e sudeste, com poucas exceções no sul. O que hoje forma o centro-oeste brasileiro era área pertencente à Coroa Espanhola, conforme o Tratado de Tordesilhas (1494), sendo transferido para Portugal por meio do Tratado de Madri (1750).
Os séculos XVI e XVII formam o período chamado de Mato Grosso espanhol, quando houve pouca ou quase nenhuma fixação de europeus ou bandeirantes por estas planícies, pelo papel desempenhado pelas tribos indígenas do Pantanal, como os Guaicuru e Paiaguás. Após incursões para apresamento de nativos houve a prospecção de ouro, que motivou a fundação da Vila Real. Isto faz de nossa capital a cidade mais antiga de todo o centro-oeste. Portanto, ela deve ser olhada não apenas como um município isolado, mas como cidade mãe de todo este espaço que hoje compreende os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.
O desenvolvimento do Estado sempre foi marcado por ciclos econômicos e políticos muito concentrados no tempo e no espaço e que geraram grandes desigualdades, tensionando a convivência entre suas várias regiões e fomentando os movimentos separatistas. Neste contexto, a posição mediterrânea da capital lhe permitiu dar o apoio necessário para o seu crescimento do seu entorno mais próximo, gerando a identidade chamada de Cuiabania. Foi também ponto de apoio para o sul do Estado, hoje MS. E deu as condições necessárias para interiorização para o norte e Araguaia, ajudando a desenvolver mais um polo. Tais porções foram ganhando autonomia ao longo do tempo, prova do trabalho bem feito por Cuiabá. Mas a cidade-mãe acabou ficando um pouco esquecida por seus filhos.
A posição geográfica cuiabana lhe favoreceu para cumprir as funções descritas antes. Mas ela sempre teve dificuldade de “articular por dentro” as áreas emancipadas, que sofreram atração externa de outros centros. Isto acabou resultando num certo sufocamento e desvinculação da capital e sua região metropolitana em relação às outras partes do território estadual.
A cidade quase tricentenária ficou um pouco perdida neste ciclo político iniciado em 2002 e que “descuiabanizou” a política mato-grossense e deslocou o eixo político para interior. Não aprendeu a jogar conforme as novas regras e enfrentar o poderia econômico do agronegócio. Mas já conseguimos ver alguns sinais de virada, com famílias tradicionais recuperando espaços políticos outrora perdidos e trazendo um olhar diferenciado para esta que é a área mais problemática de todo o Estado.
Assim como foi a Copa do Mundo 2014, o tricentenário de Cuiabá oportuniza avaliar o lento acúmulo de ações que nos trouxe até aqui. Isto lança uma outra visão do que falta, para que tenhamos uma cidade cada vez melhor daqui para frente.

Vinicius de Carvalho Araújo é analista político e professor universitário
www.analisepolíticamt.com.br
@vcanalise
@analisepolmt

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