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PROFESSOR SÉRGIO CINTRA: Os “rolezinhos” quanto mais reprimidos mais farão parte do nosso dia a dia. Interessante percebermos que mesmo as pessoas que atendem esses jovens nos shoppings são as primeiras a discriminá-los, como se o dinheiro desses jovens fosse diferente do Real. E eles, cegos pelo sistema, acreditam que, usando “roupas de marca”, serão aceitos ou respeitados pelas elites.

 *Sérgio Cintra é professor de Redação e Literatura há 34 anos em Mato Grosso


*Sérgio Cintra é professor de Redação e Literatura há 34 anos em Mato Grosso

O porquê dos “rolezinhos”

por SÉRGIO CINTRA

Faz anos que se ouve, aqui e acolá, expressões como: “juventude transviada”, “rebeldes sem causa”, “bando de agitadores” e outras, até mais agressivas. A verdade é que a superficialidade como tratamos a juventude e seus movimentos impede que compreendamos os reais motivos que levam, historicamente, milhares de jovens a se manifestarem de alguma forma. Há um hiato cada vez maior entre a juventude e o poder institucional.

Que importa se o jovem vive sob a égide do capitalismo ou do pretenso socialismo, a incompreensão é a mesma. As gerações dos que comandam não conseguem dialogar com o “bando de agitadores”. Mas é óbvio que essa incapacidade de dialogar possui raízes mais profundas e é necessário conhecê-las para que haja uma possibilidade de solução. Para isso, precisa-se de um regaste histórico, mesmo que incompleto e parcial. A abordagem aqui pretendida restringe-se ao pós 2ª Guerra Mundial e à indústria de consumo da sociedade capitalista.

Falar de jovem é falar de cultura diferente da dos adultos. Como se ouve por aí, “jovem é outro papo”, e é mesmo e assim tem sido através dos tempos. Atualmente, esse abismo entre as gerações aprofundou-se com os celulares, a internet e, especialmente, as redes sociais. É importante ressaltar que ocorreu apenas um distanciamento maior, porém ele já existia. E essa existência está ligada ao modelo econômico capitalista, baseado no consumo, cada vez mais restrito a alguns segmentos da sociedade. A cultura jovem é reflexo do pós-guerra e da explosão demográfica nos Estados Unidos e em outros países, como o Brasil.

Falar da cultura da juventude, necessariamente, é falar de televisão, de shopping, de cinema e de música. Para o “Tio Sam”, no final da década de 1940, a melhor maneira de combater o comunismo era com o consumismo. A comunicação de massa propagandeou o “american way of life” (estilo de vida americano). A população dos USA, em duas décadas, aumentou 33% (o “baby boom”), estavam criadas as condições para a indústria de uma cultura jovem, ainda que domesticada pela elite branca.

Em termos de música, os anos 50 deram-nos o “rock’n’roll” (fusão do “rhytm and blues”, negro, e do “country and western”, branco; ambos marginalizados). Não por acaso que o primeiro sucesso do novo estilo musical foi “Rock around the clock” (algo como “Rock em todas as horas”), do branquelo e louro Bill Haley, e, em 1955, surge para o grande público Elvis Presley, branco de voz negra, para dar os contornos dessa música, agora domesticada pela indústria do consumo. A força dos meios de comunicação e a censura ditavam os limites de rebeldia aceitáveis para aquela época. Aliás, a rebeldia do rock nunca foi além de uma dança com rebolado, histórias de colégios, garotas e carrões e “amassos”. O que era muito para o conservadorismo daqueles tempos. Se a música não era engajada, o cinema captou melhor os que negavam ou foram excluídos do jeito de viver americano. Vale a pena rever “O Selvagem” (1953), com Marlon Brando, ou “Juventude Transviada” (1955), com James Dean, ou ainda “Sementes da Violência” (1955), com Glenn Ford, que mostra a dissonância entre jovens e professores.

No Brasil, a influência estadunidense está presente desde os anos 40 até hoje. O hambúrguer, a Coca-Cola, o skate, o surf, a Apple, o jeans etc. Isso por conta da Guerra Fria (era preciso eliminar a “ameaça” comunista) e dá-lhe missões de “cooperação” e filmes enlatados. Do Zé Carioca até Carmen Miranda, passando pela chanchada, nos anos 50, estávamos perdidamente americanizados na versão ianque. Se os governantes e a elite eram subservientes à política de importação, inclusive cultural, houve a resistência do cinema, com Nelson Pereira dos Santos (“Rio, 40 graus” e “Rio, Zona Norte”), criticando o modelo de urbanização da sociedade brasileira. A Bossa Nova, mesmo que influenciada pela música romântica americana, irá agradar o público jovem da classe média urbana. Porém o rock chegava através do cinema e as lambretas e os carros envenenados invadiam a Rua Augusta (SP) e o Arpoador (RJ), no boteco “Mau Cheiro”. Os “rebeldes” não iam além de jaquetas de couro e calças jeans para demonstrar a negação dos valores dominantes.

Veio a década de 1960 e com ela a politização da juventude norte-americana por causa da Guerra do Vietnã e pela luta pela igualdade dos direitos entre brancos e negros de Martin Luther King. Embora o Rock renascesse em toda a sua irreverência e descontração com os ingleses Beatles e Rolling Stones, nos Estados Unidos surge a “folk song”, música comprometida com a conscientização política, que teve em Joan Baez e Bob Dylan seus expoentes. Nessa esteira veio a música de protesto como “Blowin’in the Wind” (Soprando ao vento) e aqui na “Pindorama” falou alto, nas classes mais abastadas, o rock inglês, a versão tupiniquim da música de protesto e a Jovem Guarda, além do Tropicalismo formando uma “Geleia Geral”; todavia os historicamente oprimidos eram mais oprimidos do que a opressão imposta pela Ditadura Militar impunha à juventude de classe média.

Estamos no final dos anos 60 e nem subimos o morro, não chegamos aos guetos, onde rolava outro som, outra linguagem e uma tensão crescente. O Brasil dos anos 1970 era o Brasil grande, do “Ame-o ou deixe-o” e do início da hegemonia do capitalismo e do consumismo. Há, nas décadas seguintes, inúmeros movimentos culturais ligados aos jovens e à contracultura, como o movimento Punk, o Reggae, o Rap e o Hip Hop que foram mais ou menos incorporados pela indústria do consumo.

Saímos da Ditadura de maneira conciliatória, quase pedindo desculpas. E sob os ventos da democracia burguesa e sua globalização econômica e tecnológica, continuamos a construir ilhas de prosperidade, espaços de lazer para a classe média cooptada e sua juventude: os shoppings. Adotamos o modelo “desenvolvimentista” do consumo desenfreado e doentio, insuflado pela mídia, especialmente a televisão. A propaganda deu a todos o direito de sonhar com marcas e grifes. Isso fez com que jovens excluídos desejassem ter os mesmos produtos usados pela elite econômica e quisessem ocupar os mesmos espaços. Interessante percebermos que mesmo as pessoas que atendem esses jovens nos shoppings são as primeiras a discriminá-los, como se o dinheiro desses jovens fosse diferente do Real. E eles, cegos pelo sistema, acreditam que, usando “roupas de marca”, serão aceitos ou respeitados pelas elites. O preconceito alimentado durante séculos não será banido pelo simples fato de se ocupar o mesmo espaço.

Assim os “rolezinhos” (talvez derivados das manifestações de junho, feitas pela classe média), quanto mais reprimidos mais farão parte do nosso dia a dia. Se não como uma forma consciente de protesto pela democratização do uso do espaço e do direito constitucional de ir e vir; ou antes, como um mero reflexo de um mundo globalizado através das redes sociais e da possibilidade de “curtir com os mano e pegá umas mina”.

FONTE REVISTA MT AQUI
sergiocintra@terra.com.br

5 Comentários

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  1. - IP 177.64.247.183 - Responder

    BÃO MESMO PROFESSOR É O ROLÉZINHO NO POSTO DE GASOLINA PRA ABASTECER COM TICKTE DA SECRETÁRIA DE CULTURA, OUTRO ROLEZINHO BÃO É UMA REFORMINHA NA CHACARÁ COM O DINHEIRINHO DA CULTURA.

  2. - IP 189.59.33.47 - Responder

    Proferssor Sergio Cintra!? Tenho informações que esse cidadão é insolvente. Contumaz devedor. Seus credores não conseguem executá-lo, o nome SÉRGIO CINTRA é fictício, no máximo um apelido. Existe o rosto e o apelido, más não existe o sujeito.
    É UM FANTASMA!!!

  3. - IP 189.74.160.1 - Responder

    O rolezinho é apenas um ajuntamento de marginais ou de futuros marginais . Pronto.
    Curioso é ler os dois elogios acima , direcionados ao dono do artigo.
    Seria bom ele se defender.

  4. - IP 177.64.247.183 - Responder

    ESSE AI VIROU ESPECIALISTA EM BACHULAR RICO, FICA SÓ PUXANDO SACO DO DEPUTADO MALUF E DO MÉDICO ARAY, CHEGAR DAR VERGONHA!

  5. - IP 200.96.143.231 - Responder

    Roberto Ruas deve ser da elite predadora né_ _ _ _ _ _ _ acertei seu verdadeiro nome?
    O rolézinho é uma manifestação livre popular. Agora eu duvido que a turma dos “black Blocks” vão entrar mascarados no Shoping, não vão entrar, porque esses mascarados pago pela Dilma ou Gilberto Carvalho e outros…para desmoralizar o movimento verdadeiro, não entrarão no shopping, porque lá é de grandes empresários colaboradores com todos os partidos políticos do Brasil.
    RESUMO DA ÓPERA: na rua pública pode e vale tudo, até mascarados Black Bloks, no Shopping não pode entrar mascarado.Quem vai sair ganhando nessa, serão os rolezinhos pacíficos, já aqueles infiltrados no meio, dando uma de violentos, provocando corre corre e quebradeira, fixa bem o rosto e depois vamos apurar quem está por trás disso.Resposta a turma dos governos federal e estadual de cada estado, para desmoralizar o movimento popular, SÃO UNS TIRANOS DITADORES POLÍTICOS, TRAVESTIDOS PELO VOTO DEMOCRÁTICO.
    PRONTO FALEI….

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