Dedico este artigo ao nosso amigo, saudoso Professor Antônio Gonçalves Vicente – Tati – que nos deixou sem ver realizado o nosso sonho. Tati é um ícone da Universidade Federal de Rondonópolis. Seu nome significa luta incansável e fé na causa. Viva o Tati! A UFR nasceu e você jamais morrerá, porque ela é a sua cara.

A Universidade Federal de Rondonópolis é um projeto coletivo e foi construído pela Sociedade da região sudeste de Mato Grosso.

Assim como todo projeto dessa natureza, todas as pessoas foram e estão sendo importantes na consolidação desta luta de emancipação do Câmpus Universitário de Rondonópolis em relação à sua matriz, a Universidade Federal de Mato Grosso. Cada pessoa que sonhou, lutou ou até mesmo emitiu sentimentos e pensamentos positivos para que a UFR fosse criada representa um alicerce da nova Universidade. Professores, servidores técnico-administrativos, funcionários terceirizados, estudantes, pais, mães e demais familiares de alunos e egressos, políticos locais e regionais, funcionários públicos de todas as esferas, pessoas ligadas às entidades e instituições sociais, meios de comunicação e a população em geral formam um batalhão de guerreiros anônimos que construiu essa Universidade que nasce já bastante madura para desempenhar o seu papel intelectual, científico, social, cultural e ambiental.

Para fins de ordenação histórica, apesar da beleza que é a construção coletiva, faz-se necessário cada personagem dessa história, com suas experiências, colocar alguns marcos do processo percorrido até o momento. Tendo sido um dos precursores deste movimento, desde a década de 1990, diretor do ICHS (Instituto de Ciência Humanas e Sociais) no período de várias conquistas para o Câmpus (2004-2008) e um dos batalhadores desta causa, esta é a minha versão dos fatos. Devido ao espaço reduzido para contar uma história tão rica em fatos e processos, tentei sintetizar ao máximo a breve história aqui narrada.

A pré-história deste movimento teve como marco a criação do CPR (Centro Pedagógico de Rondonópolis), em 1979, e a construção da sede própria, a partir de 1982. Na época, uma Universidade não podia existir sem uma sede própria, um câmpus. Neste particular, temos que reverenciar três figuras que foram fundamentais: Os senhores Áureo Cândido Costa e William Cândido de Moraes, doadores de uma área de sessenta hectares para a instalação do nosso centro de ensino superior. Observem a visão futurista desses dois homens. Na época, o tamanho da área era desproporcional à quantidade de cursos instalados e de projetos previstos para construção. A área tinha o tamanho do sonho deles, da sociedade rondonopolitana da época e do terceiro personagem a quem reverenciamos: o Prof. de Matemática Antônio Gonçalves Vicente – Tati, que intermediou a doação junto aos órgãos institucionais e liderou o movimento de implantação do ensino universitário público, gratuito e de qualidade para todos, em Rondonópolis da década de 1980 e para sempre.

O tratamento desigual em relação à sede e a falta de autonomia para tomar decisões acadêmicas foram os motivos do descontentamento dos profissionais do Centro Universitário de Rondonópolis em relação à UFMT, mas o movimento de emancipação começou a ser organizado de uma forma mais efetiva a partir de 1992.

No início da década de 1990 havia um apelo da sociedade rondonopolitana para a criação de um curso de medicina veterinária no CPR. Nesse sentido, a comunidade universitária trabalhou na elaboração de um projeto acadêmico. O então Deputado Wellington Fagundes (em seu primeiro mandato 1991-1994) apresentou um projeto de criação do curso para Rondonópolis, que foi aprovado e implantado em maio de 1992, mas na sede da UFMT, em Cuiabá. A indignação foi maior quando foram apresentadas as justificativas pela administração superior da universidade: o interior não poderia ter um curso que ainda não existia na Sede. Indignados com tal encaminhamento, um grupo de docentes, apoiado por estudantes e servidores técnico-administrativos, decidiu iniciar o movimento de autonomia e emancipação do Câmpus Universitário de Rondonópolis. A primeira ação estratégica foi eleger representantes, nos órgãos da administração superior e local da UFMT, comprometidos com a causa da autonomia e emancipação do antigo CPR, agora denominado CUR – Câmpus Universitário de Rondonópolis.

O ano de 1992 foi marcado, também, por essa uma importante mudança administrativa. No dia 12 de fevereiro, por meio da Resolução CD 0027/92, o Centro Pedagógico de Rondonópolis foi elevado à categoria de Câmpus Universitário de Rondonópolis. Porém, o reordenamento administrativo não representou mudanças significativas no âmbito acadêmico, porque continuamos sem ter autonomia.

Ainda buscando o cumprimento do primeiro desafio (representatividade comprometida com a causa, nos órgãos colegiados), a etapa concomitante foi a luta pela ampliação de cursos no CPR. Em duas décadas, a UFMT/Rondonópolis conseguiu a instalação de apenas sete cursos, sendo seis na área de licenciatura (Educação, História, Geografia, Letras, Biologia, Matemática) e um bacharelado na área econômica (Ciências Contábeis).

Em 1999, tivemos a primeira ampliação importante: a criação do curso de Biblioteconomia, mas com condições precárias de funcionamento em se tratando de espaço físico e corpo docente suficiente.

A eleição do Reitor Prof. Dr. Paulo Speller (2000-2008) foi uma injeção de ânimo e um avanço para o nosso projeto de emancipação.

Cinco Pró-Reitoras contribuíram muito para a expansão de cursos e, sobretudo, para a recuperação dos já existentes. A Pró-Reitora mais proativa para as nossas pretensões foi a Profa. Dra. Matilde Araki Crudo, mas não menos importantes foram das doutoras Adriana Rigon Weska, Elizabeth Aparecida Furtado de Mendonça, Myrian Thereza de Moura Serra e Marilda Calhao Esteves Matsubara. Além delas e do Reitor, não se pode subestimar o papel positivo e solidário do Conselho Universitário da UFMT (gestão 2004-2008), que foi sensível às demandas e necessidades do Câmpus de Rondonópolis.

Outro fator preponderante na época foi a nova política do Ministério da Educação (MEC), que lançou o Programa de Expansão do Sistema Federal de Educação (2003-2012). Nós, do Câmpus Universitário de Rondonópolis, vimos nele a oportunidade de resolvermos os graves problemas dos cursos existentes e a criação de novos cursos. Graças ao então Reitor, no primeiro semestre de 2004, o Câmpus de Rondonópolis recebeu a visita do Diretor do Departamento de Desenvolvimento de Educação Superior do MEC, Prof. Manuel Fernando Palácios da Cunha e Melo. O objetivo da visita foi discutir a implantação de novos cursos e a consolidação dos já existentes; e, para nós que objetivávamos a emancipação do Câmpus, a reunião com o Secretário foi estratégica. Enquanto Diretor do Instituto de Ciências Humanas e Sociais, tive o privilégio de mostrar pessoalmente ao Dr. Manuel Palácios a situação física, as necessidades e demandas acadêmicas da unidade da UFMT de Rondonópolis e expor para ele o nosso propósito de emancipação. Durante a nossa visita à Biblioteca que dispúnhamos, ele nos orientou que realizássemos um plano estratégico ousado para ser incluído no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFMT. Tratava-se de um planejamento quinquenal, com previsão de extensão para dez anos. Iniciou-se aí uma importante e decisiva fase para a criação da UFR.

A vinda do representante do MEC ao Mato Grosso se tornou histórica para as universidades brasileiras. Por influência do Reitor Prof. Dr. Paulo Speller e devido ao que fora demonstrado ao Prof. Manuel Palácios em sua visita, o Programa de Expansão do Sistema Federal de Educação passou a ser denominado Programa de Expansão e Consolidação do Sistema Federal de Educação. Tratava-se da criação de novos cursos e da consolidação dos já existentes, visto que eles estavam sucateados pela política do MEC, na gestão do então Presidente Fernando Henrique Cardoso. No caso de Rondonópolis, em nosso planejamento estratégico, os cursos já existentes serviram de matriz para os novos, oferecendo-lhes docentes e estruturas físicas iniciais. Ademais, tínhamos cursos implantados recentemente com grandes carências: em 2002 foi criado o Curso de Zootecnia e, em 2003, os de Psicologia e Enfermagem (primeiramente como uma turma especial de Cuiabá).

Naquele ano de 2004, decidimos unir forças – os dois Institutos (ICEN e ICHS), ADUFMT, SINTUF e DCE – e mobilizar todos os segmentos da Comunidade Universitária para construir um PDI que demonstrasse os nossos objetivos, ações estratégicas e capacidade coletiva de gestão, de modo a evidenciar a nossa competência para nos transformarmos em uma universidade autônoma. E assim foi feito. Todos os departamentos, cursos, laboratórios, biblioteca e demais órgãos, entidades representativas dos segmentos do Câmpus foram mobilizados sob as coordenações do então Pró-Reitor do Câmpus e Diretor do ICEN Prof. Manoel Benedito Nirdo da Silva Campos, do Diretor do ICHS Prof. Paulo A. M. Isaac e do Presidente da ADUFMAT Prof. Antônio Gonçalves Vicente Tati. O PDI do Câmpus também contemplou a vontade da sociedade rondonopolitana: uma pesquisa foi realizada junto aos estudantes do Ensino Médio, entidades de classe e setores empresarias para conhecer as suas aspirações em termos de cursos e serviços que eles desejavam da futura universidade. Foram meses de intenso trabalho por parte de todos os profissionais do Câmpus.

Em 2006, o nosso PDI começou a surtir os primeiros efeitos dentro do Programa de Expansão e Consolidação das Universidades: foram criados em Rondonópolis os cursos de Engenharia Mecânica e Engenharia Ambiental, bem como a efetivação do Curso de Enfermagem.

Foi o PDI que serviu de alicerce para que elaborássemos coletivamente o “Projeto Acadêmico de Autonomia do Câmpus Universitário de Rondonópolis da Universidade Federal de Mato Grosso”. Ele foi entregue pela “Comissão Pró-Autonomia do Câmpus” ao então Governador do Estado do Mato Grosso Blairo Maggi, ao Prefeito Adilton Sachetti, ao Presidente da Câmara Municipal Ananias Filho e ao Deputado Federal Carlos Abicalil, no dia 24 de maio de 2007. Esses políticos foram decisivos naquele momento e contribuíram com dedicação para que o Projeto fosse entregue em mãos ao então Ministro da Educação Fernando Haddad, no dia 31 de julho de 2008.

O ano que antecedeu a entrega do Projeto ao Ministro foi marcado por uma intensa articulação política e mobilização social, tanto em nível da Universidade, quanto da classe política e da sociedade da região sudeste do Estado. O envolvimento de entidades, instituições políticas, religiosas, empresariais e de trabalhadores, incluindo as representações políticas do Estado, da região sudeste e de Rondonópolis em particular, garantiu uma das maiores mobilizações de massa da história de nosso município. No dia 30 de junho de 2008 (um mês antes da entrega do Projeto, em Brasília) um público estimado em vinte mil pessoas participou do Ato Público em Defesa da Criação da UFR. O evento aconteceu na Praça Brasil e culminou com a apresentação da Orquestra Sinfônica da UFMT.

A reunião de entrega do Projeto, ocorrida no dia 31 de julho de 2008, em Brasília, contou com as presenças do Governador Blairo Maggi, Prefeito Adilton Sachetti, Reitor Paulo Speller, deputados federais Carlos Abicalil e Wellington Fagundes, Senadora Serys Marli Slhessarenko e cerca de vinte docentes e servidores técnicos administrativos do Campus Universitário de Rondonópolis. Apesar do apoio político e popular, em seu gabinete o Ministro Fernando Haddad comunicou a todos a sua negativa e adiou a aprovação do nosso pleito. Não nos sentimos frustrados porque fomos informados de que precisávamos apenas “ajustar as condições estruturais para que a nova universidade fosse criada”.

Precisávamos criar três cursos de mestrado e um de doutorado e melhorar as condições físicas para o funcionamento dos cursos existentes. Houve um sentimento de indignação porque outras universidades haviam sido criadas no Brasil sem as condições do Câmpus Universitário de Rondonópolis. Era o caso da Unidade Acadêmica de Garanhuns (UAG), da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Sem nenhum tijolo, no chão, ela foi criada no ano de 2005, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o intuito, segundo ele, de interiorizar o ensino superior. A mesma regra não valeu para Rondonópolis. Foi quando percebemos que o problema não era exatamente estrutural e sim político. Quando a UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) foi criada, em agosto de 2005, as suas condições acadêmicas eram semelhantes as do CUR. Percebemos que o empenho e a força política dos representantes de Mato Grosso não eram equivalentes à de outros estados. Isso ficou claro na reunião com o Ministro, onde compareceram apenas dois dos oito Deputados Federais do Estado (Wellington Fagundes e Carlos Abicalil) e a então senadora Serys Marly Slhessarenko (uma dentre os três representantes do Senado), além do Governador e do Prefeito de Rondonópolis.

Imediatamente após o retorno de Brasília, iniciamos o planejamento estabelecendo as ações estratégicas para cumprir as exigências do MEC. Todos os cursos foram orientados a contratarem apenas doutores em seus concursos públicos e os cursos que atendiam os critérios para implantação de pós-graduação deveriam acelerar seus projetos de criação. Em 2008 a Comissão Pró-Autonomia do Câmpus Universitário de Rondonópolis (que desenvolveu o Projeto para criação da UFR e conduziu a luta até aquele momento) passou a denominar-se Comitê Pró-UFR. Não foi apenas uma mudança de nome. Tratava-se de outro momento, de uma nova etapa que se iniciava no processo histórico. O Comitê, inicialmente, assumiu três tarefas fundamentais: 1. manter a política de participação decisória no âmbito da UFMT; 2. reestruturar o Projeto inicial, incorporando a ele os resultados das novas ações estratégicas implementadas (novos cursos de graduação e pós-graduação, aumento do número de estudantes e profissionais da educação superior, ampliações de espaços físicos acadêmicos e assistência estudantil, etc.) e 3. Assumir um papel político de maior aproximação com os nossos representantes governamentais de todas as instâncias de Poder e com entidades e instituições não governamentais. Neste processo foram fundamentais: (a) o engajamento dos novos docentes, técnicos e estudantes que foram chegando ao Câmpus; (b) o papel dos meios de comunicação na divulgação das ações do referido Comitê; (c) a eleição de Welington Fagundes para o Senado e o comprometimento da Bancada Federal no Congresso para com a nossa causa; (d) o volume de articulação do Comitê com a comunidade interna do Câmpus, com os políticos, representantes da sociedade civil organizada e com a mídia.

Entre 2008 e 2017, o projeto original de nº 021/2007 foi atualizado três vezes: em 2011, 2014 e 2017. Várias mobilizações foram realizadas pelo Comitê que teve em sua liderança importantes entusiastas e batalhadores pela causa, como o Técnico Administrativo Abraão da Silva Pereira, Dr. Agnaldo Soares de Oliveira, Dra. Andréa Luciana dos Santos, Ms. Jofran Luiz de Oliveira, Profa. Dra. Lindalva Maria Novaes Garske, Dr. Luís Fernando Barnetche Barth, Prof. Valterson Marques dos Santos, Técnico Administrativo Vinicius Hipólito Lopes de Resende e a Pró-Reitora do Câmpus, Dra. Analy Castilho Polizel. Tendo como principal característica a mobilização política, o Comitê Pró-UFR teve a participação de representantes da sociedade civil organizada, tais como os senhores Valdir Andreatto, Gastão de Matos, Ivaldir Nascimento e Miguel Mendes. É evidente que temos que registrar a participação ativa e de apoio logístico em várias situações da Câmara de Vereadores de Rondonópolis, desde as gestões de seus ex-presidentes Mohamed Zaher e Ananias Filho, até os membros da sua composição atual. Faz-se justo que enalteçamos o papel dos meios de comunicação impressos, televisionados, radiofônicos e da mídia eletrônica de Rondonópolis que deram visibilidade ao pleito e assumiram a luta da sociedade com responsabilidade e entusiasmo.

Todo o esforço e dedicação da sociedade organizada culminou com sanção presidencial ao Projeto de Criação da UFR, no dia 21 de março de 2018.

Apesar da nossa alegria em ver o sonho de três décadas tendo sido realizado, a criação da UFR não se encerrou com o ato do Presidente Michel Temer. A comunidade universitária tem novos e urgentes desafios. O Câmpus cresceu muito entre 2008 (visita ao Ministro Fernando Haddad no Ministério da Educação) e 21 de março de 2018 (ato de criação da UFR). A principal tarefa, agora, é construir um planejamento estratégico para os próximos cinco anos e orçamento para a implantação da nova Universidade. Faz-se necessário superar os corporativismos, as disputas políticas por poderes, as vaidades e unir esforços na construção de uma instituição sólida, que seja a representação intelectual, acadêmica e produtiva viva da região onde ela se insere. Para isso, o planejamento e o orçamento precisam ser participativos, não só com os agentes do Câmpus, mas também com representantes da sociedade civil organizada na região sudeste de Mato Grosso. Precisamos realizar um projeto que atenda as demandas e aspirações sociais, econômicas, culturais e ambientais regionais. Um árduo trabalho que exige o envolvimento de todos os que acreditaram, acreditam e desejam o sucesso da tão sonhada Universidade Federal de Rondonópolis.

Parabéns a todos que deram a sua contribuição. Somos todos UFR!

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Paulo Augusto Mário Isaac Doutor em Ciências Sociais/Antropologia, professor aposentado da UFMT/Campus Universitário de Rondonópolis e militante do movimento em prol da criação da UFR. Artigo publicado, originalmente no saite www.boamidia.com.br