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PROFESSOR GLAUCO PERES: “Não dá para dizer que Bolsonaro mereça isso. Dizer que ele pediu por isso é bobagem. Se ele está errado em acirrar o discurso, ele simplesmente está errado”

Bolsonaro na Santa Casa de Juiz de Fora

O atentado a Bolsonaro. E o clima de violência na política

João Paulo Charleaux
do Nexo
O candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, foi atacado com uma facada na barriga quando participava de um ato de campanha em Juiz de Fora, na tarde desta quinta-feira (6). O capitão da reserva foi levado à Santa Casa da cidade mineira e passou por uma cirurgia. Segundo informações do início da noite, seu estado de saúde era estável.
O homem suspeito de ter atacado Bolsonaro foi detido na hora pela polícia. Ele foi identificado como Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, morador da cidade Montes Claros, também em Minas. No boletim de ocorrência, feito pela Polícia Civil, Oliveira aparece dizendo que realizou o ataque a facadas contra Bolsonaro “a mando de Deus”.
O candidato à Presidência pelo PSL é deputado federal e lidera as pesquisas, com 22% de intenção de voto, segundo o Ibope mais recente, divulgado na quarta-feira (5).
O levantamento não trouxe cenários com Luiz Inácio Lula da Silva — o ex-presidente foi barrado pela Lei da Ficha Limpa. A organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch publicou uma manifestação sobre o atentado, na qual condenou “fortemente o ataque criminoso”. No texto, a organização disse também que “diferenças políticas ou ideológicas devem ser resolvidas por meio de diálogo e nunca da violência”.
Os adversários de Bolsonaro na corrida presidencial também divulgaram comunicados condenando o atentado e pedindo uma rápida apuração dos fatos.

Outros crimes recentes contra políticos

Ainda na pré-campanha presidencial, a caravana do então pré-candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, foi atacada a tiros, no dia 27 de março, quando passava por um trecho da rodovia PR-473 entre as cidades de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras, no Paraná.
“Se foi uma só pessoa que fez [os disparos], a pessoa planejou o ataque, direcionou o tiro”, disse à época o delegado responsável pelas investigações, Hélder Lauria. A perícia encontrou um fragmento de projétil de chumbo nu, de calibre .32, na lataria de um dos veículos. Até agora, o caso não foi concluído.
No caso mais grave, a vereadora Marielle Franco (PSOL) foi morta a tiros no dia 27 de março, junto com seu motorista, Anderson Silva, no Rio de Janeiro. A suspeita é de execução motivada por questões políticas. A vereadora era militante negra e defensora dos direitos humanos. Ela vinha denunciando crimes atribuídos a membros da Polícia Militar no Rio.
Passados seis meses, as investigações ainda não produziram nenhum resultado. O crime contra Marielle ocorreu quando o estado estava sob intervenção federal, decretada pelo presidente Michel Temer, numa tentativa de melhorar a segurança pública no Rio de Janeiro.

‘Clima de violência já vem de algum tempo’

Para entender o contexto em que esse crime acontece e as consequências que ele pode ter para o clima da disputa política no Brasil, o Nexo entrevistou o professor de ciência política na USP Glauco Peres da Silva.
O candidato Jair Bolsonaro foi atingido por uma facada num ato de campanha. A que se deve esse clima de violência na política?
Glauco Peres da Silva Esse clima de violência na política brasileira vem se arrastando há algum tempo. Não é de agora que presenciamos uma grande indisposição para o diálogo no país. Perceba que o Bolsonaro se aproveita politicamente desse discurso em sua campanha, mas ele não é exatamente o promotor disso. Isso é algo que antecede a projeção de Bolsonaro na cena política, é um clima que vem desde a disputa entre o PT e o PSDB, com aquele discurso de petralha, de coxinha e afins. Em grande medida é também consequência da nossa incapacidade de punir, além de uma certa tendência que temos que nos leva a linchar as pessoas pelos crimes que cometem mais do que de fazer justiça.
Como o sr. compara o momento atual com outros momentos da história política e de disputas eleitorais no Brasil? Na pré-campanha, por exemplo, a caravana de Lula foi atacada com arma de fogo.
Glauco Peres da Silva Tudo isso é muito triste. É como se nós não entendêssemos que a disputa eleitoral fosse uma disputa legítima. As pessoas parecem não entender que existe um outro grupo, de pensamento distinto, que defende uma posição distinta da minha. Então, partem para uma postura de deslegitimar completamente o outro. De repente, pensam que já não é mais a urna que decide, ou que não é só a urna que decide que grupo vai chegar ao poder. As pessoas estão esgarçando de algum jeito a confiança, como se já não estivessem aceitando mais o jogo democrático convencional. Esse é o momento agora. Mas acho perigoso, um tanto quanto leviano e até fútil comparar com outros episódios históricos.
Quais podem ser as consequências políticas desse atentado contra Bolsonaro?
Glauco Peres da Silva A consequência imediata é aumentar ainda mais o clima de tensão. Mas esse momento traz consigo também mais uma oportunidade de toda a classe política se unir para dizer que isso é inaceitável, que não é legítimo. É uma tremenda oportunidade para todos os candidatos pedirem calma e dizerem que ninguém vai ganhar nada com violência. Mesmo os que disputam votos com Bolsonaro precisam ir às ruas, ou precisam se manifestar, dando uma resposta muito dura contra esse tipo de comportamento. Isso não é aceitável num jogo democrático, independentemente da posição política que você adote. Não é saudável para o país que, no momento de uma disputa política intensa, as pessoas recorram a esse tipo de alternativa, a esse tipo de ação. Agora, politicamente, como candidato, Bolsonaro ganha com esse atentado. Ele é a vítima nessa história. Ele é a pessoa que está sendo atacada.
Como responder às pessoas que dizem que Bolsonaro fez por merecer o ataque porque ele mesmo tem um discurso violento?
Glauco Peres da Silva Dizer algo assim não faz sentido nenhum. Não faltam exemplos de que não se pode combater violência com mais violência. Mesmo que ele diga coisas violentas, mesmo que ele promova esse tipo de coisa, não se pode entrar nos termos violentos dele. Dizer que ele pediu por isso é bobagem. Se ele está errado em acirrar o discurso, ele simplesmente está errado. Não dá para dizer que ele mereça isso. No passado, João Doria e Geraldo Alckmin disseram que a caravana do Lula fez por merecer o ataque sofrido. Ninguém faz por merecer ser atacado. Isso não existe.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/09/06/O-atentado-a-Bolsonaro.-E-o-clima-de-viol%C3%AAncia-na-pol%C3%ADtica

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