Portocarrero, o ambientalista tranquilo

A edição impressa do CircuitoMT que circula hoje, divulga o seguinte artigo, de minha autoria:

Portocarrero, o ambientalista tranquilo

Enock Cavalcanti
enockcavalcanti@yahoo.com.br

*** Meus amigos, meus inimigos: lá em Brasília, Lula trocou Marina Silva por Carlos Minc, no Meio Ambiente. Incensada como “musa da Amazônia”, Marina  era, em meu torto entendimento, uma ministra vacilona, muito mais evangélica, no mau sentido, do que ecologista. Tanto que acabou dando um chute na bunda de Gilney Vianna e outros que procuravam fazer da causa com que trabalhavam expressão de sua militância socialista. Enfim, Marina, como Lula, transformou-se em transgênica de si mesma – deveria ter rompido há tempo, quando não fosse para dar substância ao mandato que Siba Machado desperdiçava no Senado. Minc, mais do que um militante histórico e histérico do  ambientalismo, é um dos seus teóricos mais ativos, agitador performático e um dos formuladores do PV no Brasil, só que depois se rendeu ao pragmatismo de atuar em “partido menos utópico”, no caso o PT. Se o agitador conseguir sobrenadar nesta personalidade bipolar, provocará furor. Se quem reinar for o pragmático, teremos nova Marina, fazendo o estilo “me engana que eu gosto”.
*** Mas, falando em ambientalista, o que interessa mesmo, aqui em Cuiabá, é falar de José Afonso Portocarrero. Não sei porque, me lembra o personagem central de  “O americano tranquilo”, de Graham Greene, que não é o americano tranquilo. Fico me perguntando se as pessoas ainda leem Graham Greene – se não leem, não sabem o que estão perdendo. Sua  literatura discute o homem e as complexidades de um universo sem moral. Para ele,  somos uma humanidade enredada num niilismo vazio e solitário. A razão para isso?  Estamos em um mundo que perdeu a fé em Deus e sofre as consequências disso.  "O Americano tranquilo" retrata a Indochina na luta contra o jugo francês.  O personagem central é  o inglês Thomas Fowler. Farto de seus colegas jornalistas, farto da guerra, da politicagem e da hipocrisia diplomática, pretende se manter distante de qualquer envolvimento.  Suas alegrias estão no consumo do ópio e na paixão por Phuong , garota vietnamita. Os dois não podem se casar, pois a esposa inglesa e católica não lhe concede o divórcio. Aí surge o tal americano tranquilo, Pyle. Com uma ingenuidade descomunal e um profundo desconhecimento do Oriente, Pyle representa os Estados Unidos que, no seu atropelo, acaba arrastando a Indochina para o holocausto da guerra do Vietnam.

*** Portocarrero também estava lá na UFMT, sossegado, estudando os seus Bororo, pronto para uma aposentadoria tranquila, quando a professora Enelinda foi desafiá-lo a esta candidatura. É um homem em situação limite. Escolhido pela militância do PT para disputar a prefeitura de Cuiabá, em prévias memoráveis, na qual votaram 948 filiados, acaba portador de uma missão que talvez não queira e não lhe interesse assumir: liderar o próprio ressurgimento do PT, num cenário político em que as suas atuais lideranças ou se omitem, canhestramente, ou se renderam a outras causas, vergonhosamente. Portocarrero pode se firmar como liderança transformadora, um marco na trajetória do PT –  ou ser simplesmente mais um a aprofundar o processo de entropia que alguns já identificam na legenda. Mas este é assunto para muitas e muitas crônicas.

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