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POETA SEBASTIÃO CARLOS: ‘Gracias a la vida’, de Violeta Parra, é uma das músicas latino-americanas mais conhecidas e interpretadas no mundo

 

Violeta Parra

 

A canção que celebra a vida

Sebastião Carlos

 

Produtor dos melhores vinhos da América, o Chile é também fonte das melhores poesias. E não digo apenas por seus dois mais conhecidos, e por isso ganhadores do Nobel de Literatura, Gabriela Mistral [em 1945] e Pablo Neruda [em 1971]. Poderíamos dizer, e eu o digo com prazer por ser desde sempre admirador desse país e de seu povo, tratar-se de uma terra de poemas e de vinhos. Lá estive por algumas vezes, e na última visitei as três casas, hoje museus, em que viveu Pablo Neruda. Foram os poemas de Neruda, ao lado dos brasileiros Thiago de Melo e Ferreira Gullar, que contribuíram para manter em minha juventude a chama viva da resistência política e literária durante o regime militar. Embora Neruda, com seus ‘Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, entre outros, tenha nos inspirado a modos de viver com paixão e tesão.

Esses dois, Neruda e Mistral, pertencem a uma geração que mostrou o melhor do Chile poético. Para só ficarmos a partir das três décadas iniciais do século passado, a eles se somam dois outros grandes poetas, embora muito pouco conhecidos no Brasil. No entanto, Vicente Huidobro [10/01/1893 – 2/01/1948] e Pablo de Rokha [17/10/1895 – 10/12/1968] trouxeram uma contribuição de fundamental importância para a literatura latino-americana, em que mesclaram um estilo inovador e de ruptura com o passado a uma acentuada visão socialista, na qual a militância contestatória esteve presente. A exceção a essa militância foi Gabriela Mistral, que se manteve sempre distante dos embates políticos. No entanto, do ponto de vista estritamente literário esses poetas são considerados “os quatro grandes do Chile”. Mas esse pequeno – grande país, naturalmente, não se resume a uma magnífica plêiade de poetas, novelistas e romancistas.

O que hoje quero aqui falar aqui é sobre outra grande mulher, já que semanas atrás comentei sobre Gabriela Mistral e o verdadeiro culto que lhe fazem nas escolas chilenas. E indaguei, quando isso será possível no Brasil com os nossos poetas maiores? Bem, vamos ver sobre uma poeta e cantante, esta bem mais conhecida. Violeta Parra. Por que falo sobre ela? Entre outras razões, porque há cinquenta anos foi composta e gravada por ela uma das músicas e letras mais marcantes deste nosso tumultuado e áspero tempo. Violeta pertence a uma espécie a que os hispanos denominam de cantautora. Compôs inúmeras canções e poesias marcantes por sua sensibilidade e humanismo. Canções e poemas que tocam a alma e mobilizam a mente.

Violeta del Carmen Parra Sandoval [San Carlos, 4/10/1917 – Santiago do Chile, 5/02/1967] além de poeta, compositora, cantora, foi artista plástica, ceramista e folclorista. Autodidata. A pobreza extrema a forçou, desde os nove anos, com os irmãos, a cantar em bares e circos. A partir de 1961 passou longos períodos fora de seu país, apresentando-se na Argentina e depois na Europa. Em 1965 retorna definitivamente, move-lhe a ambição de criar, com seus filhos e alguns amigos, um centro de estudos e de referência da cultura folclórica chilena. Próximo a Santiago, instala uma grande tenda que denomina de ‘Comuna de la Reina’. Não obteve o apoio que esperava para seu projeto e a iniciativa fracassaria, trazendo-lhes prejuízos financeiros e emocionais. Na sequência, um rompimento amoroso causa-lhe grande trauma. Acha-se abatida e derrotada. Em 5 de fevereiro de 1967 a grande e atormentada cantante comete suicídio. É hoje tida por muitos críticos como a fundadora da atual música popular chilena e inspiradora do movimento estético-musical-político chamado de ‘Nova Canção Chilena’.

Poderia falar mais sobre Violeta e sobre as suas inúmeras canções marcantes e sensíveis. Mas quero me referir [o espaço é pequeno] a uma só canção que por sua grandeza, lucidez e humanismo, baila no peito dos homens e das mulheres que sonham e lutam por um mundo mais justo. Refiro-me a ‘Gracias a la vida’.

Seja na pioneira e conhecidíssima gravação de Mercedes Sosa [1971] ou nas interpretações de Joan Baez [1974], cujo objetivo nas apresentações era denunciar os crimes da ditadura de Pinochet, de Elis Regina [1975] ou até mesmo do pianista Richard Clayderman [1992], além de centenas de outras, inclusive sueco e finlandês. Qualificada como um “hino humanista” e considerada uma obra universal, ‘Gracias a la vida’ é uma das músicas latino-americanas mais conhecidas e interpretadas no mundo.

 

Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida, gracias a la vida.

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  1. Carlos Gomes de Carvalho é professor, escritor e poeta. Publicou, entre outros, ‘Pássaros sonhadores’ e ‘A Arquitetura do Homem’. É membro da Academia Mato-grossense de Letras

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