Pedro Casaldáliga, junto com Tomás Balduíno, dois bispos engajados na luta pela dignidade no campo, serão homenageados, nesta segunda (17), na entrega do Prêmio Direitos Humanos 2012, em Brasília

Casaldaliga, que tem 84 anos e sofre de Mal de Parkinson, é conhecido pelo trabalho em comunidades indígenas na região de São Félix do Araguaia (MT). Dom Tomás Balduíno também será homenageado por sua atuação pelos direitos indígenas

Um outro Brasil é possivel. Através do exemplo de suas vidas, os bispos Pedro Casaldáliga e Tomás Balduino nos revelam fortemente esta possibilidade. São pessoas de muita sensibilidade para com as dores dos excluidos deste nosso Brasil. Confira o noticiário. (EC)

Bispos que defendem índios recebem Prêmio Direitos Humanos

Dom Pedro Casaldaliga e Dom Tomás Balduíno receberão o prêmio da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), pela atuação em defesa dos direitos indígenas

MARIANA JUNGMANN /AGÊNCIA BRASIL

A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) vai entregar nesta segunda-feira (17) o Prêmio Direitos Humanos a pessoas e entidades que tenham trabalho relacionado a causa em todo o país, entre elas, os bispos Dom Pedro Casaldaliga e Dom Tomás Balduíno..

Serão premiados trabalhos em diversas categorias, como assistência a pessoas em situação de rua e a crianças e adolescentes, erradicação do trabalho escravo, enfrentamento à violência e à tortura, entre outros.

Casaldaliga, que tem 84 anos e sofre de Mal de Parkinson, é conhecido pelo trabalho em comunidades indígenas na região de São Félix do Araguaia (MT). Ele já recebeu diversas ameaças de morte por atuar em defesa dos índios da região e teve que ser retirado de sua casa para local desconhecido depois que uma decisão judicial a favor dos índios Xavante tornou o clima mais tenso no município matogrossense.

Dom Tomás Balduíno também será homenageado por sua atuação pelos direitos indígenas. É fundador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e atualmente é bispo emérito de Goiás, onde continua o trabalho com os índios. Dom Tomás também é conselheiro da Comissão Pastoral da Terra.

As homenagens e os prêmios serão entregues no Itamaraty, em Brasília. A solenidade contará com a presença da ministra da SDH, Maria do Rosário. O Prêmio Direito Humanos está na 18ª edição.

——————-

OPINIÃO

Casaldáliga deveria ser papa, mas – de novo – está ameaçado de morte
POR LEONARDO SAKAMOTO

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia e um dos maiores defensores dos direitos humanos no país, mais uma vez está marcado para morrer Aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso – ação que sempre foi defendida por ele.

Incentivados por fazendeiros e políticos locais, alguns grupos de invasores decidiram resistir à decisão judicial de sair e forçaram conflitos com as tropas, além de ameaçar lideranças.

Casaldáliga, junto com Tomás Balduíno, dois bispos engajados na luta pela dignidade no campo, serão homenageados, nesta segunda (17), na entrega do Prêmio Direitos Humanos 2012, em Brasília.

Joseph Ratzinger, em um discurso a bispos brasileiros na época da nossa última eleição presidencial, afirmou que “os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas”. Ou seja, Bento 16 pediu para que os representantes de sua igreja orientassem politicamente os fiéis. E seguiu o script esperado, condenando o aborto e a eutanásia e, implicitamente, a pesquisa com embriões para obtenção de células-tronco.

Todas as igrejas e suas chefias são livres para elencar seus assuntos mais importantes. Mas fico imaginando a pauta de preocupações se, ao invés de Joseph Ratzinger, fosse Pedro Casaldáliga o papa. E, ao se dirigir a bispos brasileiros, fizesse outro tipo de “juízo moral” em “matérias políticas”, retomando palavras que ele proferiu há tempos:

“Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos.”

A Teologia da Libertação tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que a Santa Sé não consegue colocar em prática. Pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers, Erwin Klautler e Xavier Plassat que estão junto ao povo, no meio da Amazônia, defendendo o direito à terra e à liberdade, combatendo o trabalho escravo e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.

Bento 16, no mesmo discurso, defendeu a solidariedade aos pobres e desamparados. Como ex-coroinha, fico pensando em que tipo de solidariedade ele estava falando? Da caridade? Uma ação pouco útil, que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe?

Ou da solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela libertação da alma e do corpo de ambos? Se for a primeira, ele está pregando a continuidade de uma igreja que ainda não consegue entender as palavras revolucionárias que estão no alicerce de sua própria fundação.

Se falou da segunda, a solidariedade como redenção do corpo e da alma, ele se referiu claramente à Teologia da Libertação.

Prefiro acreditar que ele estava falando da primeira, pois seria irônico a atual administração do Vaticano pregar algo que o catolicismo vem combatendo há tempos.

Enquanto isso, nossa realidade continua lembrando muito daqueles microcosmos de poder do Brasil profundo, presentes nas obras de Dias Gomes: o padre, o delegado e o coronel, amigos de primeira hora, tomando uma cachacinha na (ainda) Casa-grande, gargalhando da vida e discutindo sobre os desígnios do mundo, que – para eles – deveria ter a cara de seu vilarejo.

FONTE BLOG DO SAKAMOTO

————–

MAIS INFORMAÇÃO

Encontro celebra os 90 anos de Dom Tomás e a sua luta em defesa dos povos do campo

Entre os dias 8 e 9 de dezembro foi realizado na cidade de Goiás (GO), o Encontro de Companheiras e Companheiros da Caminhada – Dom Tomás Balduino 90 anos. O evento reuniu centenas de pessoas de várias partes do país, que fizeram parte desses anos de caminhada e de luta de Dom Tomás, em defesa dos povos tradicionais e dos camponeses e camponesas. Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, também participou do Encontro.

Dom Tomás foi saudado com apresentações e histórias de cada participante, que lembraram o período difícil da ditadura militar, das expulsões da terra por grandes fazendeiros e do trabalho do bispo na organização do povo em resistência.

“Com dom Tomás aprendemos que devemos deixar de ser indiferentes”, frisou Carlos Rodrigues Brandão. Antropólogo, psicólogo e pesquisador, que desde a chegada de Dom Tomás à Diocese de Goiás, o acompanhou. Uma grande e completa pesquisa que fez sobre a realidade da Diocese serviram de base para o planejamento pastoral posterior. Ele relembrou histórias que passaram juntos, e situações complicadas também, como uma vez quando estavam a caminho da aldeia dos Tapirapé, no extremo nordeste do Mato Grosso, Dom Tomás pilotando seu aviãozinho vermelho, após o ter abastecido, teve um pneu furado ao pousar, o que quase fez com que o avião explodisse. Segundo Carlos, a habilidade do piloto Dom Tomás salvou os dois nesse momento.

Atuação da diocese de Goiás junto aos camponeses e a influência de Dom Tomás

Dom Tomás assumiu a diocese de Goiás em 1967, em plena ditadura. Animado pelo sopro de esperança provocado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, fez de tudo para adequar a diocese a esse novo modelo. Ele reafirmou, dessa forma, a sua opção pelos pobres e pelo povo de Deus, o que marcou profundamente uma diocese que vivia em meio a latifundiários e à opressão do coronelismo no centro oeste brasileiro.

Irmã Nadir, dominicana e que trabalhou junto a Dom Tomás em projetos de educação na diocese, lembrou muito emocionada dos anos de dedicação dele e das pessoas que acompanharam o seu trabalho e que já não estão mais entre nós, como a também dominicana, irmã Revi.

Doutor Antônio, médico que assumiu o hospital Pio X, na cidade de Ceres, em Goiás, na década de 1970, a convite de Dom Tomás, emocionou a todos e todas presentes ao relatar sua experiência de trabalho na área de saúde junto ao visitar aos Tapirapé, para onde era levado por Dom Tomás em sua aviãozinho. “Aquilo era uma sociedade perfeita… isso me influenciou muito, ver aquele povo vivendo em harmonia e sem os grandes problemas que enfrentamos em nossa sociedade, como o egoísmo e o individualismo”. Dr. Antônio também relatou sua chegada ao hospital de Ceres, que, até então, possuía uma clara divisão entre a “ala dos pobres” e a “ala dos ricos”. Extremamente revoltado com essa realidade, Dom Tomás convidou um casal de médicos que ele conhecia e sabia de seus posicionamentos ideológicos, Gil e Albinéia Plaza, que convidaram, também, o amigo Antônio, e os três foram trabalhar no hospital, com o objetivo de mudar essa estrutura. Enfrentaram a ira dos fazendeiros ricos, mas conseguiram desenvolver um grande trabalho na região.

Dom Tomás, a CPT e o registro dos conflitos

Dom Tomás foi figura importante na criação de duas pastorais focadas no trabalho com os indígenas e com os trabalhadores rurais. São elas o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A história da atuação de Dom Tomás e dessas duas pastorais se confundem. A CPT, desde o seu nascimento, tinha como objetivo dar voz àqueles que nunca eram ouvidos, denunciando a violência empreendida no campo brasileiro e assessorando os trabalhadores e trabalhadoras na luta por seus direitos. Dessa forma, em seus primeiros anos de atuação, a CPT começou a registrar os diversos conflitos que aconteciam e as violências que os trabalhadores, indígenas, sindicalistas e demais lutadores e lutadoras sofriam.

Dom Tomás sempre acompanhou os conflitos e esteve junto à CPT nos momentos de denúncia e de cobrança do governo por ações que garantissem os direitos do povo do campo. Esse trabalho da Pastoral resultou no relatório anual Conflitos no Campo Brasil, produzido há 27 anos e cujos dados são referência nacional e internacional, no que tange a conflitos agrários e violências no meio rural brasileiro.

Antônio Canuto, secretário da coordenação nacional da CPT e membro fundador da Pastoral, entregou a Dom Tomás a homenagem da CPT, que deu o seu nome ao Setor de Documentação da organização. A partir desse momento, o setor de Documentação da CPT passou a se chamar “Centro de Documentação Dom Tomás Balduino”. Extremamente emocionado, Canuto falou que não haveria homenagem e presente mais justo a oferecer a Dom Tomás nesse momento.

O presente maior: a esperança e o exemplo de Dom Pedro Casaldáliga

Dom Tomás foi presenteado, também, com a presença de seu amigo e companheiro de luta por anos, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, Mato Grosso. “Não quero desmerecer os demais presentes que recebi, mas meu maior presente foi ter o Pedro aqui nesse momento”, assim Dom Tomás resumiu a sua emoção ao encontrar seu grande amigo, que o chama carinhosamente de padrinho.

Em um momento difícil, em que Dom Pedro está convivendo com ameaças de morte por causa de sua atuação junto ao Xavante, de Marãiwatsédé, no Mato Grosso, sua presença profética anima e inspira a todos e todas para continuarem na luta. “Tomás, padrinho, sua atuação superou a dicotomia que não sabe juntar a vida com a fé… A luta continua meu amigo, e não podemos nunca perder a esperança”, disse dom Pedro.

Os participantes do Encontro e demais pessoas da comunidade, presentes nas homenagens, aprovaram uma Carta de Solidariedade a Dom Pedro e à prelazia de São Félix, e recolheram centenas de assinaturas em apoio à causa indígena e à atuação de Dom Pedro.

O Encontro foi encerrado com uma celebração eucarística no Mosteiro Nossa Senhora da Assunção e com um grande almoço no Centro Diocesano de Pastoral.

fonte Comissão Pastoral da Terra – CPT

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

três × 2 =