PAULO VILLAÇA: Parasita, filme de humor sombrio sobre desigualdade endêmica do capitalismo desregulado

Kang-ho Song, Hye-jin Jang, Woo-sik Choi, and So-dam Park in Gisaengchung (2019)

 

Parasita
Gisaengchung ou Parasite

Dirigido por Bong Joon-ho. Roteiro de Bong Joon-ho e Jin Won Han. Com: Song Kang-ho, Lee Sun-kyun, Jo Yeo-jeong, Choi Woo-sik, Jang Hye-jin, Park So-dam, Lee Jeong-eun, Jung Hyun-jun, Jung Ji-so.

Se os filmes de Ken Loach e os dos Coen tivessem um filho, este seria Parasita. Dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Jin Won Han (e, por sua vez, inspirado no mangá de Hitoshi Iwaaki), o longa é uma denúncia da desigualdade social endêmica do capitalismo desregulado que faria o britânico orgulhoso, mas feita através de um viés de humor sombrio com personagens absurdos que poderiam estar numa história dos irmãos norte-americanos.

A primeira metade da projeção é, também a mais leve e divertida, apresentando-nos à família Kim, formada pelo patriarca Ki-taek (Song Kang-ho, colaborador habitual do diretor), sua esposa Chung-sook (Jang Hye-jin), o filho Ki-woo (Choi Woo-sik) e a filha Ki-jung (Park So-dam), a mais esperta do clã e responsável por boa parte dos esquemas por eles colocados em prática. Pobres e vivendo no porão frio de um prédio num bairro miserável, eles sugam wi-fi dos vizinhos, aproveitam a fumigação das ruas para dedetizar o apartamento e fazem (mal) trabalhos ocasionais para uma pizzaria minúscula da região. Tudo muda, no entanto, quando um amigo de Ki-woo pede que este assuma a tutoria em inglês da filha de um rico empresário, o Sr. Park (Lee Sun-kyun) – e aos poucos, através de estratégias nada éticas, todos os integrantes da família Kim passam a trabalhar para os Park depois de causarem a demissão de seus antigos funcionários.

Bem-humorado ao retratar estes pequenos golpes que levam o espectador a simpatizar com a família Kim em função de sua criatividade – mesmo que esta se volte para objetivos suspeitos -, Parasita assume tons bem mais sombrios em sua segunda parte, quando uma série de revelações, conflitos e incidentes violentos dominam a trama (e não os revelarei, claro, pois um dos prazeres do longa é descobri-los). O que é possível apontar sem entregar detalhes específicos é que o roteiro exibe uma carpintaria dramática notável, já que, em retrospecto, cada elemento se apresenta importante, mesmo os comentários mais triviais (como aquele sobre o apetite da governanta).

Ressaltando o contraste entre os mundos frequentados pelas duas famílias, o design de produção de Lee Ha-jun concebe o apartamento dos Kim como uma caixinha de cimento fria e claustrofóbica com um banheiro tão pequeno que o vaso sanitário é colocado numa plataforma de concreto e azulejo que força qualquer um ali sentado a se dobrar ao meio, ao passo que o lar dos Park é um monumento à arquitetura moderna, trazendo amplos espaços, portas de vidro que percorrem toda a parede, inundando tudo de sol, e móveis que, por si só, valem mais do que todas as posses dos empregados. Já a simetria entre as duas famílias (pai, mãe e um casal de filhos) força o público a comparar ainda mais suas realidades e dificuldades.

Igualmente fundamental é o fato de Bong Joon-ho jamais tentar retratar os Park como pessoas ruins, o que seria uma simplificação lamentável: ao contrário, temos mais simpatia pela ingênua Sra. Park (Jo Yeo-jeong) do que pela rabugenta Sra. Kim – e mesmo o marido desta última concede gostar bastante do patrão, que vê como alguém gentil. Ainda assim, aos poucos os preconceitos velados e sutis do sr. Park se tornam difíceis de ignorar, como seus elogios a funcionários que “não cruzem a linha” ou seus comentários sobre o cheiro de quem usa o metrô. Além disso, o cineasta, mesmo enxergando a humanidade de todos os personagens, não deixa de apontar a discrepância cruel e inaceitável entre os que têm tudo e os que nada têm – como no instante em que corta de um amontoado de roupas doadas para os desabrigados em um ginásio para o colossal guarda-roupas com os vestidos e sapatos da Sra. Park (uma passagem que pode não ser sutil, mas é brilhante ainda assim). Do mesmo modo, o filme lamenta a tendência – nada acidental – de que tragédias como enchentes, incêndios e deslizamentos afetem com mais frequência justamente aqueles que menos condições exibem de superá-las.

Neste sentido, Parasita é uma obra tão obcecada pela luta de classes quanto Expresso do Amanhã, que abordava a questão de modo bem mais aberto – e seu título, que inicialmente pode levar o espectador a relacioná-lo com a família Kim, logo evidencia sua complexidade ao demonstrar algo óbvio que muitos teimam em negar: que não são os mais pobres que tendem a viver e explorar o suor dos mais ricos.

Se Bong Joon-ho já não fosse o responsável por um de meus filmes favoritos, o magistral Memórias de um Assassino, este seu novo trabalho assumiria o posto de predileto entre seus trabalhos. Mas chega perto.

Pablo Villaça é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil.

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