PAULO MOREIRA LEITE, NA ÉPOCA: Lula deve ser amordaçado?
Por em Plantão - 30/05/2012 15:48Lula deve ser amordaçado?
Paulo Moreira Leite
da revista ÉPOCA
A julgar pela oposição, Luiz Inácio Lula da Silva só tem liberdade para falar de futebol. O ministro Celso de Mello declarou que, se Lula fosse presidente da República, poderia enfrentar um processo de impeachment caso tivesse feito declarações e insinuações semelhantes àquelas que
o ministro Gilmar Mendes afirma que ele fez.
O caso é este. Um presidente da República não tem opinião pessoal. Tudo o que ele pensa e manifesta envolve o cargo que ocupa e pode
ser considerado uma forma de pressão sobre alguém.
Mas Lula é ex-presidente e tem o direito de dizer o que pensa para toda pessoa que tenha disposição de ouvi-lo.
Ex-presidente é assim. Se o Fernando Henrique pode falar a favor da legalização das drogas num pais infernizado pelo crack, embora muitos educadores considerem que essa simples medida pode estimular o consumo da droga, pergunto por que Lula não pode dizer o que pensa sobre a melhor época para o julgamento do mensalão.
Não pode, é claro, chantagear nem sugerir uma barganha, coisa que eu duvido sinceramente que tenha feito.
Mas eu acho que toda pessoa maior de idade e em pleno gozo de sua saúde mental que senta-se para conversar com um ex-presidente e um
ex-ministro do Supremo, do governo Lula e do governo FHC, como Nelson Jobim, sabe que a conversa não vai se limitar a futebol nem a mulher bonita. Vai se falar de política e é claro que, de uma forma ou de outra, vai chegar ao assunto do momento, que é o mensalão.
E é claro que quando Lula, Gilmar Mendes e Nelson Jobim falam desses assuntos, a conversa não é simples tertulia literária. Vem carregada
de duplos, triplos e quádruplos sentidos.
São profissionais da conversa. Muito pouco precisa ser dito porque tudo pode ser entendido.
O esforço para transformar esse triálogo atende a outra agenda. Consiste na tentativa permanente da oposição para criar um clima politizado em torno do julgamento do mensalão.
Essa é a questão. Na medida em que as partes já apresentaram suas armas, as estratégias para o julgamento estão cada vez mais claras.
A oposição aposta que um clima politizado, de denuncia, de indignação, será útil para obter uma condenação. Torce, também, por uma decisão no primeiro semestre, que poderá trazer benefícios nas eleições de outubro. Não é preciso ter diploma de marketing eleitoral para calcular que uma sentença do Supremo terá um valor de prova na visão de muitos eleitores.
O PT se esforça na direção contrária. Acredita que o exame das provas, a exposição serena dos pontos de vista pode ser favorável aos acusados.
Essa é a discussão.
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OUTRA OPINIÃO
Uma trinca do escracho
Elio Gaspari – O GLOBO
Lula, Gilmar Mendes e Jobim produziram uma situação escrachada, constrangedora para o Judiciário
O QUE aconteceu no dia 26 de abril no escritório de Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça, da Defesa, e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal? Certo mesmo, só que lá se encontraram Lula, o ministro Gilmar Mendes e o dono da casa.
Os repórteres Rodrigo Rangel e Otávio Cabral revelaram a lembrança de Mendes. Coisa tenebrosa. Lula recomendou que se adiasse o julgamento do mensalão: “É inconveniente julgar esse processo agora” e contou que estava caitituando votos da corte.
Cármen Lúcia? “Vou falar com o Pertence para cuidar dela.” Referia-se ao ex-ministro Sepúlveda Pertence, por coincidência, presidente da Comissão de Ética Pública da Presidência. Dias Toffoli? “Ele tem de participar do julgamento.” (O ministro, como ex-advogado-geral da União, poderia dar-se por impedido.) Ricardo Lewandowski? “Ele só iria apresentar o relatório no semestre que vem, mas está sofrendo muita pressão.”
Joaquim Barbosa: “Complexado.” Finalmente, Lula prensou Mendes com uma pergunta. “E a viagem a Berlim?” Por trás da curiosidade estava a maledicência de que o ministro fizera uma viagem a Berlim com o senador Demóstenes Torres e parte do paganini por conta de Carlinhos Cachoeira. O ministro rebateu a insinuação e dobrou a aposta: “Vá fundo na CPI”.
O repórter Jorge Bastos Moreno ouviu a narrativa de Jobim: “Não houve nada disso”. Ele contou que o encontro ocorreu por acaso, durou cerca de uma hora, e em nenhum momento os dois estiveram a sós. Dias depois, corrigiu-se e disse que marcou o encontro a pedido de Lula. O ex-presidente, por intermédio de sua assessoria, contestou, indignado, a reconstrução de Gilmar Mendes.
Alguém está mentindo. Ou mente Gilmar ou mentem Lula e Jobim.
Pela narrativa de Gilmar, “fiquei perplexo com o comportamento e as insinuações despropositadas do presidente Lula”. O ministro conta que narrou o episódio ao presidente da corte, Carlos Ayres Britto, na quarta-feira da semana passada, 27 dias depois do ocorrido. Infelizmente, ambos mantiveram-no restrito ao mundo de confidências que alimentam a nobiliarquia de Brasília.
Se a narrativa de Mendes é verdadeira, o escracho começou na própria conversa. Nem Lula poderia ter dito o que disse nem Mendes poderia ter ouvido. Sua perplexidade diante das “insinuações despropositadas” deveria ter sido expressa no ato.
A comunicação do ocorrido ao ministro Ayres Britto deveria ter desencadeado uma imediata iniciativa pública. A essa altura, era Britto quem não poderia ter ouvido o que Mendes lhe contou. O cargo em que está investido recomendava que pedisse ao colega que narrasse o episódio na sala de sessões da corte, ao vivo e a cores, como já fez o ministro Joaquim Barbosa quando julgou impertinente um telefonema que lhe dera um ex-ministro da Casa, advogando um caso milionário.
Nessa ocasião, Barbosa começou a construir sua fama de intratável. Um Supremo Tribunal Federal com 11 juízes intratáveis jamais acabaria metido numa história dessas.
P.S.: A memória exige o registro de que, em 2008, o ministro Gilmar Mendes, presidindo o STF, denunciou um “Estado policialesco” a partir da leitura do que seria a transcrição de conversa que tivera com o senador Demóstenes Torres. Até hoje não apareceu o áudio desse grampo.

