gonçalves cordeiro

PAULO BOMFIM: Chegou a era da supremacia da ignorância e da mediocridade. Querem instalar no país o “império dos canalhas”

Parmenides, Bomfim e Kundera

A insustentável leveza do Ser na negação da história como arma política

 

por PAULO BOMFIM

 

A problemática da leveza e do peso tem protagonismo na filosofia de Parmênides, considerado por muitos filósofos e filólogos como o fundador da metafísica.

Parmênides filósofo pré-socrático, nascido na Grécia Antiga (cerca de 530 a.C. – 460 a.C.), alinhou sua problemática em torno das dualidades ontológicas do Ser.

A filosofia de Parmênides sustenta-se no contraste entre a verdade e a aparência. A aparência é percebida pelos sentidos que nos mostram o Ser e o não Ser e nos levam a diversos erros. Já a verdade somente pode ser buscada pela razão o que, para Parmênides, demonstra que não podemos pensar o não Ser pois não podemos pensar sem que esse pensar seja sobre algo. Pensar sobre nada é não pensar, da mesma forma que dizer nada é não dizer. Somente podemos pensar e expressar o que pensamos através de um objeto e esse objeto já é algo, já é um Ser. Ele conclui que o Ser é e não pode não ser. Através dessa ideia ele expressa sua principal tese filosófica que vai dirigir toda sua investigação racional. Ele cria assim os principais fundamentos da ontologia que é vista como metafísica pois, o Ser não é somente o ser da natureza, mas também o Ser do homem e das suas ações, e mais ainda, é o Ser de qualquer coisa que possa ser pensada.

A dualidade, porém, por força de sua perspectiva unitária do Ser, surge da presença e da ausência de uma entidade. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, o não-calor. As trevas são a ausência de luz. Nesta comparação entre a luz e a escuridão, a escuridão é a negação da luz. Segundo Parmênides, entretanto, ao contrário do que o pensamento lógico-formal com o qual estamos habituados nos faria supor, a problemática da dualidade leveza/peso revela o peso como ausência de leveza.

Grande parte de seu pensamento está reunida na obra poética denominada “Sobre a Natureza”. Em seu poema, Parmênides nos apresenta que há dois caminhos de compreensão da realidade: o caminho da opinião e o caminho da verdade.

O “caminho da opinião” estaria baseado na aparência, e, portanto, levaria ao engano e as incertezas; sendo sua descrição falsa e enganosa pois é simplesmente o resultado de uma ordenação de palavras. Porquanto, o denominado de “caminho da verdade” é conduzido pelo pensamento lógico baseado na razão e na essência, nos conduzindo à sabedoria do Ser, discernindo que, “o que é, é – e não pode deixar de ser”.

Nas palavras do próprio filósofo:

“É preciso que tu aprendas: / o sólido coração da bem redonda Verdade / e as opiniões dos mortais, nas quais não há verdadeira certeza. / E, no entanto, também isso aprenderás: como as coisas que parecem deviam verdadeiramente ser, sendo todas em todos os sentidos”.

A verdade é, pois, o caminho do pensamento, já que o ser, o que existe é tudo aquilo que pode ser pensado. Dessa forma, o que não é, o não ser – o que não existe, não pode ser pensado nem, portanto, dito, sendo este um caminho da ilusão e da mentira.

Em nossa contemporaneidade, Milan Kundera – escritor nascido na antiga Checoslováquia, naturalizado francês, crítico sarcástico da condição humana, autor da consagrada obra A Insustentável Leveza do Ser, desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima à problemática do existencialismo. Com uma narrativa onisciente que, provoca reflexões existenciais, religiosas e políticas, sobre comportamentos estabelecidos na sociedade do século XX, em suas diferentes formas, fundamentado na dicotomia da filosofia de Parmênides, no que concerne à leveza e ao peso das escolhas humanas.

Kundera demonstra que quanto mais leve a vida, quanto menos envolvimento as pessoas estabelecem, menos real ela se torna, e, por consequência torna-se recheada por mentiras, insustentável em si mesma. Por outro lado, quanto mais a pessoa se engaja em um ideal ou se aprofunda em um relacionamento, seja amoroso, familiar, político ou social, mais pesada se torna a existência. Maior é o fardo que se deve carregar, mas, em contrapartida, torna-se muito mais real e cheia de sentido. Assim, o que deveria ser positivo segundo a concepção de Parmênides, ou seja, a leveza, termina por se tonar negativo, impossível de ser suportado.

Para Kundera, a leveza decorre de uma vida levada sob o teto da liberdade descompromissada. A leveza segue-se de um não-engajamento, um não-comprometimento com situações quaisquer. A leveza, porém, despe a vida de seu sentido. O peso do comprometimento é uma âncora que finca a vida a uma razão de ser, qualquer, que se constrói – sob uma perspectiva existencialista.

Tendo transcorrido mais de dez anos de pausa literária, Kundera publicou um novo romance em 2014 – A festa da insignificância. Em 01 de abril, passado, completou 90 anos. Em seus livros  Kundera fala de pessoas, suas convicções, sentimentos e intenções.

Vivemos em tempos muito sombrios, um período histórico muito específico.  As polêmicas em torno das políticas públicas que dizem respeito à reforma da Previdência, que afetará de forma imediata  desumana o trabalhador mais pobre e vulnerável, precisam ser centradas na Justiça Social e não nos interesses do “deus mercado”.

……”O Art. 6º. da Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Previdência seja um Direito Social dos brasileiros e brasileiras. Não é uma concessão governamental ou um privilégio. Os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio.

Abrangendo atualmente mais de 2/3 da população economicamente ativa, diante de um aumento da sua faixa etária e da diminuição do ingresso no mercado de trabalho, pode-se dizer que o sistema da Previdência precisa ser avaliado e, se necessário, posteriormente adequado à Seguridade Social.

Os números do Governo Federal que apresentam um déficit previdenciário são diversos dos números apresentados por outras instituições, inclusive ligadas ao próprio governo. Não é possível encaminhar solução de assunto tão complexo com informações inseguras, desencontradas e contraditórias. É preciso conhecer a real situação da Previdência Social no Brasil. Iniciativas que visem ao conhecimento dessa realidade devem ser valorizadas e adotadas, particularmente pelo Congresso Nacional, com o total envolvimento da sociedade.

O sistema da Previdência Social possui uma intrínseca matriz ética. Ele é criado para a proteção social de pessoas que, por vários motivos, ficam expostas à vulnerabilidade social (idade, enfermidades, acidentes, maternidade…), particularmente as mais pobres. Nenhuma solução para equilibrar um possível déficit pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários. Na justificativa da PEC 287/2016 não existe nenhuma referência a esses valores, reduzindo a Previdência a uma questão econômica……”Fonte: Nota da CNBB: http://www.cnbb.org.br/para-cnbb-reforma-da-previdencia-escolhe-o-caminho-da-exclusao-social/

A tecnologia está mudando a forma como vivemos e trabalhamos. Muitos empregos não existirão daqui uma década. No Brasil estima-se uma perda de 50% dos postos de trabalho. O desemprego é crescente e muito grave. “Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, às condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego” (Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

De acordo com os dados oficiais do IBGE o número de desempregados já passou da marca de 13 milhões de brasileiros/as. Número ilusório porque, estas 4,9 milhões de pessoas que desistiram de procurar trabalho, saíram das estatísticas. 900 mil brasileiros/as passaram a fazer parte da população desempregada. O total de trabalhadores/as subutilizados fechou em 27,9 milhões de pessoas. Diante das filas quilométricas em busca de emprego, o presidente questiona e culpa a metodologia cientifica de aferição utilizada pelo instituto de pesquisa. A culpa é atribuída aos critérios do IBGE. Além da contumaz boçalidade, é uma zombaria insana contra os trabalhadores do Brasil.

Nestes momentos de grande crise em que país vive um momento extremamente crítico, dramático para os trabalhadores, como o que atravessamos, somos desafiados/as a pensar de novo sobre as coisas que fazem parte de nossa vida cotidiana. A mentira é uma delas e a partir dela se impõe outra reflexão, uma reflexão sobre a verdade.

A função da mentira parece particularmente relevante neste momento da vida política do País. Os tipos de mentiras descaradas que se colocam podem se tornar tão comuns quanto banais. Podemos começar a pensar que são um espetáculo irrelevante. Isso, sugere-se, e será um erro acreditar.

Levantam-se um conjunto de questões fundamentais sobre como a tirania pode surgir, a partir de uma mentira, e as formas perigosas de desumanidade às quais ela pode levar.

Navegando sobre a atual discussão, estéril, sobre o absurdo argumento de que nazismo/fascismo é de esquerda, é como a fantasiosa sugestão da Maldição de Frankenstein; afirmar que o Holocausto foi criado pela esquerda é a vergonhosa tentativa de falsificação da história e estão sendo usadas como discurso oficial, para efeitos de manipulação da realidade. É surreal, e como o surrealismo tende a ser produzido, fabricado. Sendo a afirmativa fantasiosa, é compreensível que mentiras e manipulação sejam fundamentais para sua manutenção.

Com o nazismo/fascismo de esquerda: há uma guerra declarada contra a Inteligência do país. O absurdo virou discurso oficial em Brasília. Tentam modificar o Perfil da Diplomacia Brasileira, de não interferências em conflitos entre outras nações com a posição firme e neutra, pelas soluções pacificas de diálogo e respeito às soberanias.

O Brasil virou motivo de chacota internacional.

Chegou a era da supremacia da ignorância e da mediocridade. Querem instalar no país o “império dos canalhas”.

Existe uma lógica aí. É perversa, mas é uma lógica. É a negação da própria lógica.

Observamos que importantes Agentes Públicos, mentirosos, estão tentando impor-nos um revisionismo histórico como arma política, cuja a consistência e base é unicamente a deturpação de fatos, com a deslegitimação chegando a questionar os próprios métodos científicos ou a ciência, como um paradigma de explicação da sociedade.

Apresentam-se na condição de “insuspeita autoridade legítima”, de negacionista oficial da História. Chegam ao cúmulo ao culpar os africanos pelo tráfico negreiro. Estas manifestações vão inexoravelmente contra as pesquisas historiográficas produzidas sobre o tema nas últimas décadas, simplesmente ignorando a responsabilidade de portugueses no tráfico negreiro ocorrido entre os séculos XVI e XIX, omitindo que o modelo de escravidão comercial, que promoveu a colonização das Américas, foi criado pelos europeus.

Promovem outras discussões estéreis como se a Terra é plana ou redonda e propagam que não houve golpe militar em 1964, são alguns exemplos.

Neste mundo de grande complexidade tecnológica e em constante mutação, as “coisas” mudam mais depressa que os indivíduos. Novas tecnologias se instalam, instantâneamente, mas não conseguimos o ajustamento necessário a estas nossas emoções e valores, visando a respeitosa convivência comum.

As pessoas chegaram ao ponto em que, ao mesmo tempo, acreditam em tudo e em nada. Acha-se que tudo é possível e nada pode ser verdade. Os líderes mentirosos, por sua “superior inteligência e sagacidade”, estão “nadando de braçada”, baseando-se na premissa de que sua propaganda, sob tais condições, podem fazer as pessoas acreditarem nas suas afirmações, as mais fantásticas e absurdas possíveis em um dia e que, no dia seguinte, caso sejam oferecidas provas irrefutáveis ​​de sua falsidade, estas mesmas pessoas irão refugiar-se no cinismo da fé cega e, antes de quaisquer reflexão sobre a conveniência de abandonarem estes líderes mentirosos, estas mesmas pessoas, pelo contrário, estarão negando e protestando, manifestando-lhes admiração.

Como se não bastasse, comunica-se a ONU que no Brasil “não houve o golpe” em março de 1964.

A canalhice torna-se um investimento rentável.

Na próxima oportunidade trarei uma reflexão sobre estes aspectos, do caminho da mentira e verdade, no contexto político social de nossa cidade.

“Cada possibilidade nova que tem a existência, até a menos provável, transforma a existência inteira.”

Milan Kundera

 

Paulo Bomfim é Cidadão e Eleitor de Chapada dos Guimarães

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