PREFEITURA SANEAMENTO

Pau come entre Barbosa e Peluso. Ayres faz o “deixa disso”

Presidente do STF intervém em troca de acusações na Corte

Barbosa acusou Peluso de ‘manipular’ decisões do tribunal, mas Ayres Britto diz que isso é ‘impossível’

Em entrevista, Barbosa também havia afirmado que as críticas a ele podem estar ligadas ao fato de ser negro

FELIPE SELIGMAN
FOLHA DE SPAULO,DE BRASÍLIA

A troca de acusações entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) levou o novo presidente da Corte, Carlos Ayres Brito, a intervir para tentar aplacar a crise.

Ayres Britto saiu em defesa de seu colega Cezar Peluso, ao afirmar ser “logicamente impossível” haver manipulação de decisões.

Assim, rebateu crítica feita pelo ministro Joaquim Barbosa ao ex-presidente Peluso, em entrevista a “O Globo”.

“Peluso inúmeras vezes manipulou ou tentou manipular resultados de julgamentos, criando falsas questões processuais ou simplesmente para tumultuar e não proclamar o resultado que era contrário ao seu pensamento”, disse Barbosa.

Ontem, Ayres Britto rebateu: “É impossível manipular o resultado. Se um presidente proferir um resultado em desconformidade com o conteúdo da decisão, ele está desconsiderando o voto de cada um dos ministros”.

“O que aconteceu e tem acontecido, e pode ser confundido com manipulação, é um presidente mais enfático. Entre o voto e a proclamação, ele tenta reverter o quadro, mas isso é natural”, disse.

A declaração de Ayres Britto teve um tom apaziguador: ele é mais afinado com Barbosa, mas optou por medida de defesa institucional.

O ataque de Barbosa a Peluso era, por sua vez, o troco ao colega, que havia dito ao “Consultor Jurídico”que o ministro é “pessoa insegura que reage pela insegurança”.

Barbosa não falou ontem sobre o caso. Na entrevista, citou como suposta manipulação de Peluso o caso em que o tribunal determinou a posse do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), no final de 2011.

Barbosa era o relator do caso, que estava empatado em cinco a cinco, e havia sido contra a posse. Em uma primeira ocasião, Peluso, então presidente, preferiu não utilizar o direito, definido pelo regimento do Supremo, de fazer seu voto -a favor de Jader- contar duas vezes, terminando o impasse.

Pressionado por congressistas, no entanto, e com o apoio unânime dos colegas, mudou de posição e, em sessão no final do ano passado, quando Barbosa estava licenciado, fez valer seu voto duas vezes e desempatou.

Barbosa também disse na entrevista que as críticas que sofreu poderiam estar relacionadas ao fato de ser negro: “Alguns brasileiros não negros se acham no direito de tomar certas liberdades com negros. Você já percebeu que eu não permito isso, né?”.

Ayres Britto novamente se opôs a Barbosa: “Eu nunca vi [racismo]. Nós somos contra o racismo por dever, pois o racismo é criminalizado”.

O ministro Marco Aurélio Mello disse que ficou “perplexo”com o caso: “A autofagia entre ministros é muito ruim para a instituição”.

 

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LEIA AGORA ENTREVISTA DE JOAQUIM BARBOSA COM ATAQUES A CEZAR PELUSO EM O GLOBO

‘Peluso manipulou resultados de julgamentos’, diz Joaquim Barbosa
Para novo vice-presidente do STF, o ex-presidente foi tirânico e incendiou Judiciário

Carolina Brígido
de O GLOBO

BRASÍLIA – Dois dias depois de ser chamado de inseguro e dono de “temperamento difícil” pelo ministro Cezar Peluso, o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa respondeu em tom duro. Em entrevista ao GLOBO, Barbosa chamou o agora ex-presidente do STF de “ridículo”, “brega”, “caipira”, “corporativo”, “desleal”, “tirano” e “pequeno”. Acusou Peluso de manipular resultados de julgamentos de acordo com seus interesses, e de praticar “supreme bullying” contra ele por conta dos problemas de saúde que o levaram a se afastar para tratamento. Barbosa é relator do mensalão e assumirá em sete meses a presidência do STF, sucedendo a Ayres Britto, empossado nesta quinta-feira. Para Barbosa, Peluso não deixa legado ao STF: “As pessoas guardarão a imagem de um presidente conservador e tirânico, que não hesitava em violar as normas quando se tratava de impor à força a sua vontade.”

– O GLOBO: Ao deixar o cargo, o ex-presidente do STF, ministro Cezar Peluso, deu entrevista na qual citou o senhor. Em um dos momentos, diz que o senhor não recusará a presidência do tribunal em circunstância alguma. É verdade?

JOAQUIM BARBOSA: Para mim, assumir a presidência do STF é uma obrigação. Tenho feito o possível e o impossível para me recuperar consistentemente e chegar bem em dezembro para assumir a presidência da Corte. Mas, para ser sincero, devo dizer que os obstáculos que tive até agora na busca desse objetivo, lamentavelmente, foram quase todos criados pelo senhor… Cezar Peluso. Foi ele quem, em 2010, quando me afastei por dois meses para tratamento intensivo em São Paulo, questionou a minha licença médica e, veja que ridículo, aventou a possibilidade de eu ser aposentado compulsoriamente. Foi ele quem, no segundo semestre do ano passado, após eu me submeter a uma cirurgia dificílima (de quadril), que me deixou vários meses sem poder andar, ignorava o fato e insistia em colocar processos meus na pauta de julgamento para forçar a minha ida ao plenário, pouco importando se a minha condição o permitia ou não.

O senhor tomou alguma providência?

BARBOSA: Um dia eu peguei os laudos descritivos dos meus problemas de saúde, assinados pelos médicos que então me assistiam, Dr. Lin Tse e Dr. Roberto Dantas, ambos de São Paulo, e os entreguei ao Peluso, abrindo mão assim do direito que tenho à confidencialidade no que diz respeito à questão de saúde. Desde então, aquilo que eu qualifiquei jocosamente com os meus assessores como “supreme bullying” vinha cessando. As fofocas sobre a minha condição de saúde desapareceram dos jornais.

Qual a opinião do senhor sobre a entrevista dada por Cezar Peluso?

BARBOSA: Eis que no penúltimo dia da sua desastrosa presidência, o senhor Peluso, numa demonstração de “désinvolture” brega, caipira, volta a expor a jornalistas detalhes constrangedores do meu problema de saúde, ainda por cima envolvendo o nome de médico de largo reconhecimento no campo da neurocirurgia que, infelizmente, não faz parte da equipe de médicos que me assistem. Meu Deus! Isto lá é postura de um presidente do Supremo Tribunal Federal?

O ministro Peluso disse na entrevista que o tribunal se apaziguou na gestão dele. O senhor concorda com essa avaliação?

BARBOSA: Peluso está equivocado. Ele não apaziguou o tribunal. Ao contrário, ele incendiou o Judiciário inteiro com a sua obsessão corporativista.

Na visão do senhor, qual o legado que o ministro Peluso deixa para o STF?

BARBOSA: Nenhum legado positivo. As pessoas guardarão na lembrança a imagem de um presidente do STF conservador, imperial, tirânico, que não hesitava em violar as normas quando se tratava de impor à força a sua vontade. Dou exemplos: Peluso inúmeras vezes manipulou ou tentou manipular resultados de julgamentos, criando falsas questões processuais simplesmente para tumultuar e não proclamar o resultado que era contrário ao seu pensamento. Lembre-se do impasse nos primeiros julgamentos da Ficha Limpa, que levou o tribunal a horas de discussões inúteis; não hesitou em votar duas vezes num mesmo caso, o que é absolutamente inconstitucional, ilegal, inaceitável (o ministro se refere ao julgamento que livrou Jader Barbalho da Lei da Ficha Limpa e garantiu a volta dele ao Senado, no qual o duplo voto de Peluso, garantido no Regimento Interno do STF, foi decisivo. Joaquim discorda desse instrumento); cometeu a barbaridade e a deslealdade de, numa curta viagem que fiz aos Estados Unidos para consulta médica, “invadir” a minha seara (eu era relator do caso), surrupiar-me o processo para poder ceder facilmente a pressões…

Quando o senhor assumir a presidência, pretende conduzir o tribunal de que forma? O senhor acha que terá problemas para lidar com a magistratura e com advogados?

BARBOSA: Nenhum problema. Tratarei todos com urbanidade, com equidade, sem preferências para A, B ou C.

O ministro Peluso também chamou o senhor de inseguro, e disse que, por conta disso, se ofenderia com qualquer coisa. Afirmou, inclusive, que o senhor tem reações violentas. O senhor concorda com essa avaliação?

BARBOSA: Ao dizer que sou inseguro, o ministro Peluso se esqueceu de notar algo muito importante. Pertencemos a mundos diferentes. O que às vezes ele pensa ser insegurança minha, na verdade é simplesmente ausência ou inapetência para conversar, por falta de assunto. Basta comparar nossos currículos, percursos de vida pessoal e profissional. Eu aposto o seguinte: Peluso nunca curtiu nem ouviu falar de The Ink Spots (grupo norte-americano de rock e blues da década de 1930/40)! Isso aí já diz tudo do mundo que existe a nos separar…

O senhor já protagonizou algumas discussões mais acaloradas em plenário, inclusive com o ministro Gilmar Mendes. Acha que isso ocorreu devido ao seu temperamento ou a outro fator?

BARBOSA: Alguns brasileiros não negros se acham no direito de tomar certas liberdades com negros. Você já percebeu que eu não permito isso, né? Foi o que aconteceu naquela ocasião.

O senhor tem medo de ser qualificado como arrogante, como o ministro Peluso disse? Tem receio de ser qualificado como alguém que foi para o STF não por méritos, mas pela cor, também conforme a declaração do ministro?

BARBOSA: Ao chegar ao STF, eu tinha uma escolaridade jurídica que pouquíssimos na história do tribunal tiveram o privilégio de ter. As pessoas racistas, em geral, fazem questão de esquecer esse detalhezinho do meu currículo. Insistem a todo momento na cor da minha pele. Peluso não seria uma exceção, não é mesmo? Aliás, permita-me relatar um episódio recente, que é bem ilustrativo da pequenez do Peluso: uma universidade francesa me convidou a participar de uma banca de doutorado em que se defenderia uma excelente tese sobre o Supremo Tribunal Federal e o seu papel na democracia brasileira. Peluso vetou que me fossem pagas diárias durante os três dias de afastamento, ao passo que me parecia evidente o interesse da Corte em se projetar internacionalmente, pois, afinal, era a sua obra que estava em discussão. Inseguro, eu?

O senhor considera que Peluso tratou seu problema de saúde de forma desrespeitosa?

BARBOSA: Sim.

O senhor sofre preconceito de cor por parte de seus colegas do STF? E por parte de outras pessoas?

BARBOSA: Tire as suas próprias conclusões. Tenho quase 40 anos de vida pública. Em todos os lugares em que trabalhei sempre houve um ou outro engraçadinho a tomar certas liberdades comigo, achando que a cor da minha pele o autorizava a tanto. Sempre a minha resposta veio na hora, dura. Mas isso não me impediu de ter centenas de amigos nos quatro cantos do mundo.

FONTE O GLOBO

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OPINIÃO

Joaquim Barbosa x Peluso, uma questão pessoal
Por Merval Pereira, O Globo

Não é a primeira vez nem será a última que ministros do Supremo Tribunal Federal baterão boca em público, embora nunca seja dignificante para a mais alta instância do Poder Judiciário que seus membros se digladiem em público.

Mas o importante, sempre que há um desentendimento deste tipo, é saber se ele foi deflagrado por uma questão de fundo ou se tem origem em questões puramente pessoais. Nada indica que o ambiente do Supremo esteja conflagrado, e muito menos por razões de cunho político.

O que ocorreu foi um desabafo fora de hora do ministro Cezar Peluso, que se antecipou à aposentadoria, que só ocorrerá em setembro, e passou a falar como um não membro do STF, e uma resposta um tom acima do ministro Joaquim Barbosa, um ministro propenso a confrontos, especialmente atingido pela referência a supostos problemas com sua cor de pele.

Diferentemente de um bate-boca anterior, este apresentado ao vivo e em cores pela TV Senado, entre Barbosa e o então presidente Gilmar Mendes, desta vez não havia nenhum debate doutrinário, apenas maneiras diversas de encarar a vida.

Tanto que a única crítica aos procedimentos do STF feita por Peluso em sua entrevista ao Consultor Jurídico, a de que os ministros tendiam a votar de acordo com a opinião pública, não foi rebatida por Barbosa.

Quando Gilmar Mendes o acusou de fazer “populismo judicial”, argumentando que “esse negócio de classe não cola”, Barbosa retrucou que levava em conta “as consequências” de suas decisões.

Ali estava revelado que também no Supremo há um debate entre os “consequencialistas”, que interpretam a lei atentos ao resultado da decisão, contra os “formalistas”, que se atêm à letra da lei — um debate doutrinário sério, que ocorre em vários lugares do mundo.

Mas, no caso presente, nem mesmo esse debate aconteceu, ficando os ataques recíprocos mais no campo pessoal, o que mostra que desta vez não há nenhuma questão de fundo subjacente.

Há quem atribua os constantes atritos entre os juízes do Supremo ao fato de que, nos últimos anos, houve uma renovação de seus membros, fazendo com que hoje haja mais ministros sintonizados com o espírito da Constituição de 1988.

Há também a midiatização dos debates, deflagrada pelo televisionamento direto das reuniões, uma tendência irreversível que dá transparência às decisões, mas transformou os ministros do Supremo em celebridades.

Mas a partidarização do Supremo, no entanto, não parece ser a tônica de sua composição, fenômeno que seria mais tipicamente dos Estados Unidos, onde há o bipartidarismo, do que no Brasil, onde Lula tanto é capaz de nomear o ministro Carlos Alberto Direito, um conservador católico, como Eros Grau, que se diz marxista.

Nomeado por Fernando Henrique Cardoso, Gilmar Mendes mantém um retrato do ex-presidente em sua mesa de trabalho. Já Joaquim Barbosa, escolhido por indicação de Frei Betto, ex-assessor especial de Lula, não pode ser identificado explicitamente com Lula, no máximo com uma ala do PT, tanto que aceitou a denúncia contra os 40 do mensalão.

E o ministro Cezar Peluso também foi nomeado por Lula e também é dado como um voto contra os mensaleiros, tanto que sua aposentadoria, em setembro, entra na conta dos réus como um fator de retardo do julgamento, e sua substituição, como um voto contrário a menos.

Nesse raciocínio que beneficia os réus, se até lá a questão não estiver julgada, o processo seria sustado até que a presidente Dilma indicasse o substituto, o que poderia demorar, ajudando na contagem de tempo para a prescrição.

Há quem aposte, por sinal, que se os dois ministros que se aposentarão este ano — Peluso, em setembro, e Ayres Britto, em novembro — tendessem a votar a favor dos mensaleiros, o PT e a base aliada trabalhariam no Congresso para aprovar a chamada “PEC da Bengala”, passando a idade de aposentadoria para 75 anos.

No entanto, há uma forte tendência entre os estudiosos de identificar um grande teor de personalismo nos julgamentos do Supremo, fazendo com que o tribunal funcione mais como o resultado de posições individuais do que como um colegiado, o que retiraria da série de nomeações de governos ideologicamente alinhados — os governos petistas de Lula e Dilma nomearam 8 dos 11 ministros atuais — a formação de um tribunal à sua imagem e semelhança. Além do mais, o fato de o mandato ser intocável até a aposentadoria, aos 70 anos, dá ao ministro nomeado independência em relação a quem o nomeou.

O que preocupou mais o novo presidente do Supremo, ministro Ayres Britto, foi a declaração de Joaquim Barbosa de que, quando presidente, o ministro Cezar Peluso manipulou sentenças do Supremo.

A acusação é grave, mais ainda porque destituída de qualquer base na realidade. Quando termina um julgamento, o presidente da Corte resume o voto vencedor em voz alta, diante de seus pares e das câmeras de televisão.

Qualquer desvio do resultado, por incompreensão ou erro de interpretação, é imediatamente rebatido pela maioria.

Além disso, quando é feita pelo relator a ementa com a decisão oficial, todos os ministros a recebem antes de ser divulgada, ainda a tempo de corrigir algum eventual erro.

O ministro Joaquim Barbosa referiu-se diretamente ao episódio do voto de minerva proferido por Peluso a favor de Jader Barbalho na decisão sobre se a Lei da Ficha Limpa o impedia de assumir uma vaga no Senado, quando Peluso se recusara a votar duas vezes em outra ocasião.

Na ocasião, porém, explicou que, na primeira sessão de julgamento sobre a chamada “Ficha Limpa”, quando se recusou a desempatar o julgamento, o fez simplesmente porque a maioria dos ministros presentes não concordou com a aplicação da regra regimental.

No caso de Jader, porém, todos os ministros presentes, inclusive os que tinham votado em sentido contrário, decidiram aplicar a regra regimental.

Outro caso polêmico refere-se ao julgamento de Cesare Battisti, quando, logo depois da votação, Peluso, que era o relator e foi voto vencido, disse que não tinha condições intelectuais de redigir a ementa com a decisão do Supremo, ressaltando, com ironia, o que considerava incongruência da decisão de extraditar o italiano, mas permitir que o presidente da República não cumprisse os acordos internacionais firmados pelo país.

O ministro Peluso certamente estava reagindo ao voto da maioria, mas não tentando manipulá-lo.

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OPINIÃO

Nível (ou falta de…)
Não é a primeira vez que ministros do STF quase se esmurram

por EDUARDO MAHON

A propósito do duelo particular entre os Ministros Joaquim Barbosa e Cézar Peluso, onde um acusa o outro de inseguro, populista, tirânico, caipira entre outros adjetivos desairosos, o advogado Sérgio Niemeyer relembrou episódio ocorrido na Suprema Corte entre 1909 e 1910. As escaramuças, no entanto, embora ainda mais viscerais, atingiam outro patamar do vernáculo. Em português claro, até o barraco era mais bonito, embora expusesse o Judiciário da mesma forma.

O Ministro Pessoa dispara contra Pedro Lessa de “iminente cavalgadura”, conclamando a sociedade a perceber “o critério jurídico dessa besta”. E prossegue ferino: “Às tontas, não sabendo como justificar a tolice, que a sua imensa falácia não permite confessar, agarra-se com unhas e dentes a um decreto de 1831, de que só ultimamente teve notícia e que não compreendeu bem, como prova a tradução falsificada que anteontem nos forneceu”.

E ainda: “Este ministro, cujo brio pessoal, como se vê, existe ou não, conforme a opinião alheia, e que tão esquisita noção tem da lealdade paracom os colegas, precisamos apontá-lo de modo mais positivo ao leitor: é um pardavasco alto e corpanzudo, pernóstico e gabola, ex-professor da Faculdade de São Paulo, que fala grosso para disfarçar a ignorância como o mesmo desastrado ardil com que raspa a cabeça para dissimular a carapinha”.

Arremata o Ministro Pessoa: “Desta vez, a ‘eminente’ cavalgadura chegou ao auge do furor. Não podendo responder a estas fulminantes razões — pesada cangalha que lhe atiramos ao lombo —, desembestou para os ‘a pedidos’ e de lá, de bem longe por causa do rebenque, murchou as orelhas e atirou repetidas vezes as patas traseiras na direção do autor do voto vencido. Que fazer? Não podemos estar a correr atrás do bruto. Deixemo-lo, pois, dar desafogo ao seu impotente desespero. À baia…”.

Não é, portanto, a primeira vez que os Ministros do Supremo Tribunal Federal descem do tablado olímpico para quase esmurrarem-se publicamente. No mesmo diapasão, episódio recente com o Ministro Marco Aurélio chamando o colega Joaquim Barbosa para resolver o mútuo desentendimento fora do plenário e deste último vituperando contra Gilmar Mendes, acusando-o de ter capangas mato-grossenses, ilustra a propensão baixa para o conflito pessoal. Nessas ocasiões, lamentavelmente a personalidade dos homens coloca a majestade dos cargos no rés-do-chão.

As faíscas que pululam nos conflitos republicanos remetem à incapacidade pessoal de alguns servidores públicos de entenderem a representatividade do cargo. Pretendem usá-lo para pressionar, mandar recado e minar a força dos adversários de ocasião, demolindo a relação institucional que deveria pautar a vivência entre os ocupantes de funções essenciais. Nada pior do que tornar um cargo público refém do próprio voluntarismo de seu ocupante, dominadas as atribuições constitucionais por uma personalidade expansiva, caprichosa, letal. É o egocentrismo apequenando o governo.

O baixo nível de alguns em aspergir acusações ao vento, plantar notícias maledicentes, desestabilizar os poderes republicanos, compromete não só a governabilidade executiva, como a imparcialidade judicial e a harmonia legislativa. No entanto, a história demonstra que quem faz uso dessas baixezas, comportando-se de forma rasteira e desleal, nunca será lembrado pela grandeza de eventuais realizações e sim pela desqualificada verborragia, inata vulgaridade e visível arrogância. E a memória é o acusador mais implacável da humanidade.

EDUARDO MAHON é advogado em Mato Grosso

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OPINIÃO

Guerra no Supremo
Hélio Schwartsman

SÃO PAULO – É verdade que os ministros poderiam ser um pouco mais cordatos, mas a chamada guerra no Supremo não apenas está longe de ser um problema como ainda é sinal de que o tribunal máximo anda saudável. Em termos institucionais, é bom que os magistrados discordem, compitam e até se odeiem.

O propósito de uma corte colegiada é oferecer aos casos que a ela chegam uma apreciação mais cuidadosa e multifacetada, escapando ao unilateralismo do juiz singular. Cada ser humano, afinal, é prisioneiro de seus próprios preconceitos.

Só que colocar um grupo para decidir não é um processo sem riscos. Sabe-se desde os anos 50, com os experimentos de Solomon Asch sobre a conformidade, que basta pôr um ator para “puxar” respostas absurdas a uma questão óbvia que 75% das pessoas o acompanharão. Pior, reunir gente que pensa igual para conversar frequentemente resulta numa radicalização das ideias.

Nem tudo, porém, está perdido. Como mostram Ori e Rom Brafman, a existência de pessoas “do contra” (“dissenters”, em inglês) é importante para evitar que caiamos nas armadilhas do pensamento de grupo. A figura do “dissenter”, embora possa produzir fricções de alto custo emocional, também costuma levar a maioria a reformular seus argumentos, de modo a responder a objeções percebidas como relevantes.

Essa dinâmica é especialmente valiosa em tribunais colegiados. O “do contra” aqui, mesmo que não leve a uma mudança na decisão e ainda que provoque brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho.

Assim, em vez de tentar suprimir o dissenso, o ideal seria que o STF o colocasse para trabalhar a seu favor. Ampliar as rotinas pelas quais os ministros possam conhecer melhor as opiniões divergentes de seus pares antes de elaborar seus votos seria uma medida inteligente. É o que fazem muitas das cortes coletivas.

helio@uol.com.br

FONTE FOLHA DE S PAULO

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Entidades e ex-ministros do Supremo criticam briga

AMB aponta estresse por excesso de trabalho como razão para conflitos

Sobre Barbosa ter dito que Peluso manipulou julgamentos, dirigentes e ex-ministros defendem ex-presidente da Corte

RODRIGO VIZEU
FOLHA DE SÃO PAULO

Dirigentes de entidades jurídicas e ministros aposentados do STF (Supremo Tribunal Federal) criticaram as trocas de ataques entre Cezar Peluso e Joaquim Barbosa.

O presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), Nelson Calandra, disse que os ataques mútuos pela imprensa foram “totalmente inadequados”. Ele atribuiu o caso ao estresse dos ministros.

“O Supremo tem trabalhado no limite de seus integrantes, discutindo temas extremamente polêmicos, com divisões políticas e religiosas. O estresse bate em todas as portas”, afirmou.

Calandra disse não ter fundamento a afirmação de Barbosa de que Peluso manipulou julgamentos.

Para o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante, essa “é uma acusação muito séria” e disse considerar Peluso “honrado e de bem”.

“Não tenho elementos para avaliar, mas nunca ouvi falar disso e custa a crer que tenha acontecido”, disse.

Cavalcante chamou de chocante e “lamentável em todos os aspectos” a briga entre os ministros.

“A OAB conclama que sejam baixadas as armas. Ninguém precisa ser amigo de ninguém, mas divergências não devem ser tratadas na imprensa”, afirmou.

O ex-ministro do STF Carlos Velloso afirmou que Peluso nunca manipulou julgamentos nem violou o regimento. “O Joaquim se excedeu muito”, afirmou.

Velloso disse que é preciso encontrar na corte “um bombeiro conciliador” para esfriar os ânimos dos magistrados. “Alguém tem que pacificá-los. Ambos são juízes testados, homens honestos, não há razão para arroubos.”

O ministro aposentado Ilmar Galvão disse que “está havendo uma desavença muito desagradável e desgastante” na corte.

Outro ex-membro do STF, Nelson Jobim disse que preferiria não opinar, afirmando apenas que espera que o caso seja resolvido.

Categorias:Jogo do Poder

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