PABLO VILLAÇA: A Porto Alegre vista no filme Tinta Bruta é uma cidade de pesadelo

Shico Menegat em Tinta Bruta

Tinta Bruta – Dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Márcio Reolon. Com: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Larissa Sanguiné, Áurea Baptista e Zé Adão Barbosa.

A Porto Alegre vista em Tinta Bruta é uma cidade de pesadelo. Escura, fria e repleta de silhuetas nas janelas de prédios velhos e feios, ela parece sempre ter alguém observando de algum lugar e disposto a julgar, mas não a ajudar. Por outro lado, a violência pode chegar a qualquer momento e de forma inesperada – seja por preconceito ou por um golpe que se aproveita da carência da vítima.

Escrito e dirigido por Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, o filme gira em torno de Pedro (Menegat), um jovem retraído que, em função de um ato impulsivo cometido no passado recente, foi expulso da faculdade e corre o risco de ser condenado à prisão. Morando com sua irmã Luiza (Peixoto) em um pequeno apartamento, ele ganha algum dinheiro – cada vez menos – fazendo shows pela webcam, quando se pinta com tintas neon e dança sob luz negra para espectadores anônimos que ocasionalmente lhe oferecem algum dinheiro para performances particulares (também pela câmera). Quando descobre que outro rapaz, Leo (Bruno Fernandes), está copiando seu estilo, Pedro o convida para um encontro, o que dá início a uma série de mudanças em sua rotina.

Introduzido ao público com o rosto escondido pelos cabelos, Pedro é vivido por Shico Menegat como um sujeito introspectivo que não parece se sentir à vontade nem mesmo quando sozinho em seu quarto. Caminhando com os braços estendidos ao lado do corpo e com a cabeça levemente projetada para frente, ele mantém a voz sempre baixa e evita ao máximo sair de casa – e quando se encontra em público, inquieta-se ao perceber os olhares de todos sobre si (algo que os diretores retratam através da câmera subjetiva encarada pelas pessoas que passam à sua frente, ilustrando para o espectador o estado mental do protagonista).

Mas não haveria como Pedro se sentir de maneira diferente depois de passar quase toda a vida conhecendo apenas o preconceito e o julgamento (real ou imaginado; geralmente a primeira opção) de colegas de escola e faculdade. Aliás, como Leo comenta em certo ponto, para que este tipo de opressão ocorra basta que duas ou três pessoas façam algo cruel e as demais não façam nada. Assim, como os competentes cineastas constroem a narrativa a partir do ponto de vista do rapaz, é perfeito que Tinta Bruta deixe o espectador ansioso com os sons do tráfego constante que entram pela janela de Pedro, com a tempestade que o encharca num momento já tenebroso e a sensação de abandono por parte daqueles que são importantes em sua vida (os nomes dos capítulos do filme seguem esta lógica – e o derradeiro é soberbo em seu simbolismo).

Estudo de personagem amparado pelas belas performances dos estreantes Menegat, Bruno Fernandes e Guega Peixoto, o longa usa os frequentes primeiros planos para nos aproximar daqueles indivíduos, mantendo-se perto inclusive nas cenas de sexo, que combinam carinho e tesão em medidas iguais, ressaltando a ligação que Pedro experimenta com Leo (compare estas passagens com aquela na qual o jovem transa com um estranho e a diferença será clara).

Demonstrando sensibilidade também em pequenos momentos como aquele no qual a avó (Deni) pergunta a Pedro se este “tem se sentido mais feliz ou mais triste” (uma indagação tão simples e tão difícil), Tinta Bruta ainda se encerra de forma perfeita, concluindo a trajetória do protagonista num plano que é, desde já, um dos melhores que o Cinema produzirá em 2018.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2018.

Pablo Villaça é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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