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Otavio Frias Filho, João Roberto Marinho, Giancarlo Civita, os chefões da “Folha de S. Paulo”, de “O Globo”, da “Veja”, sempre privatistas e defensores da entrada do capital estrangeiro nos mais diversos setores, agora querem barrar a entrada do jornal espanhol “El País” no Brasil. Noutras palavras, nos demais setores, a liberação deve ser geral, mas, na imprensa, querem a reserva de mercado que preserve seus altos lucros

Jornais querem barrar entrada do El País. Ora, cadê o sentimento liberal de proprietários e editores

Imprensa

Euler de França Belém 
jornal OPÇÃO, de Goiânia
Otavio Frias Filho, João Roberto Marinho e Giancarlo Civita: os chefões da “Folha de S. Paulo”, de “O Globo” e da “Veja” deveriam arriscar mais e lançar produtos noutros países. Vetar “El País” não é uma ação pró-liberalismo

Durante o processo de privatização das estatais, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, em conversas reservadas — uma delas gravada —, reclamava que os jornais estavam defendendo de maneira excessiva o agressivo liberalismo patropi. “Menos” — é o que sugeria o sociólogo, em flagrante contradição com o gestor. Os principais jornais, revistas e redes de televisão defenderam a privatização como se fossem fanáticos da Al-Qaeda. Aqueles que criticavam as desestatizações, mesmo se estivessem fazendo apenas ressalvas à forma (por exemplo, ao fato de o governo “emprestar” dinheiro aos compradores de estatais) — ou, digamos assim, à privataria —, logo eram apresentados como “dinossauros”, o que contribuía para evitar ou travar o debate. Pois as mesmas publicações, encasteladas na Associação Nacional de Jornais (ANJ), sempre privatistas e defensoras da entrada do capital estrangeiro, querem barrar a entrada do jornal espanhol “El País” no Brasil. Ah, estão respeitando a lei. Sim, a Constituição limita a 30% a participação estrangeira em empresas de comunicação do país.

Noutras palavras, nos demais setores, a liberação deve ser geral, ou quase, mas, na imprensa, há uma reserva de mercado. Ora, em que publicações estrangeiras vão prejudicar os interesses nacionais? É provável que, menos atreladas a governos, contribuam para tornar o jornalismo patropi mais crítico e, quem sabe, mais plural.

O diretor-executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, ataca o ponto apropriado (tanto que nem aborda a questão da soberania nacional ou coisa semelhante): “Eles [dirigentes do “El País”] também vão disputar a publicidade, sinal de que atuam como veículo de comunicação no país. Estamos examinando”.  Pedreira representa os interesses dos proprietários da “Folha de S. Paulo” (família Frias), de “O Globo” (família Marinho), de “O Estado de S. Paulo” (família Mesquita e bancos), “Correio Braziliense” (Diários Associados), “Zero Hora” (família Sirotsky), entre outros. Os defensores intransigentes do livre mercado, do capitalismo liberal, sugerem que, quando seus interesses são feridos, se tornam tão protecionistas quanto o governo dos Estados Unidos. Mais uma contradição entre o que se diz nas páginas liberais dos jornais e o que se pratica nos bastidores — e nem tão nos bastidores — da vida real.

Notícia publicada no site Adnews (http://www.adnews.com.br/), citando a “Folha de S. Paulo”, colhe a opinião do presidente do Prisa (que edita “El País”), Juan Luis Cebrián: “Somos uma agência on-line e, nesse caso, não há restrições ao capital estrangeiro”. Na verdade, o argumento parece bom, talvez seja a tese jurídica defensável, mas, na prática, “El País” está chegando mesmo como jornal, ainda que digital, e está concorrendo com os demais jornais, com reportagens de qualidade e contratações de peso, como a repórter Eliane Brum, ex-“Época”. (O grupo já tem editora de livros no país e estaria de olho na publicação de livros didáticos — uma mina de ouro.)

Se há uma questão jurídica a discutir, e o debate vai longe — embora tão improdutivo quanto as ideias de Policarpo Quaresma, o notável personagem de Lima Barreto —, há a, digamos, discussão filosófica, explicitada nos dois primeiros parágrafos deste texto. É hora de a imprensa patropi escancarar seu liberalismo, de dizer à sociedade que não é de araque — que é diferente do liberalismo fora do lugar do século 19, quando se tinha escravidão numa sociedade que se queria como de “iguais” — e que há espaço para todos, desde que os veículos locais sejam competentes, e alguns de fato são. Quanto às demais empresas, como as estatais e algumas privadas, os jornais liberais sempre disseram que a concorrência seria (é) fundamental para estabelecer quem de fato deve e merece sobreviver. Portanto, deve-se sugerir o mesmo: quem não tiver competência ficará fora do mercado. “El País” é mesmo muito bom — ao menos a edição em espanhol —, mas não montou no Brasil uma estrutura capaz de competir com jornais e portais locais. Trata-se de um começo e os espanhóis estão de olho nos 200 milhões de brasileiros — o que é perfeitamente normal. Assim como a China está de olho neste contingente e os produtores de commodities brasileiros — e, claro, o governo Dilma Rousseff, dada a necessidade de superávit comercial — estão de olho grande no imenso mercado chinês (1,3 bilhão de seres humanos).

O que os jornais brasileiros devem fazer? Melhorar seu conteúdo. Não só. Seus proprietários deveriam acreditar mais na globalização — que tanto defendem nos editoriais e artigos — e lançar suas edições em inglês e espanhol em vários países. Os capitalistas brasileiros donos de jornais cobram arrojo dos empresários de outras áreas, mas, quando se trata deles mesmos, são tímidos e temerosos de correr riscos.

Em julho deste ano, o Congresso Nacional explicitou o que é “uma empresa jornalística”. São, diz o texto do projeto de lei aprovado, “aquelas que têm a seu cargo a edição de jornais, revistas, boletins e periódicos, ou a distribuição de noticiário por qualquer plataforma, inclusive em portais de conteúdo da internet”. Porém, os parlamentares não deixaram claro como deve ser a participação majoritária de empresas estrangeiras.

Que tal, em nome do liberalismo, que todos professam em tese, soltar de vez o grito de “liberou geral”? Empresa de telefonia e editoras de livros da Espanha já entraram livremente no Brasil, sempre saudadas com entusiasmo pelos jornais. É hora, portanto, de louvar a entrada do “El País” — não de execrá-la. É hora de fundirmos Oswald de Andrade e Roberto Campos. A antropofagia não faz mal a ninguém, diria “Oswald de Campos”.

 

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http://brasil.elpais.com/

Categorias:Imprensa em debate

4 Comentários

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  1. - Responder

    O “El País” é um jornal excelente. Conheci quando estudava espanhol. É outro nível, as matérias são interessantes e aprofundadas. Esses jornaizinhos brasileiros, Folha, Globo – cheios de pose-, são uma lástima se comparados a ele.

  2. - Responder

    RESERVA DE MERCADO? SIM, IGUAL AO EXAME DE ORDEM DA OAB, CONTRA OS BACHARÉIS EM DIREITO!
    ISSO PODERÁ SER UMA EXCELENTE REPORTAGEM, POIS MATERIAL COM PROVAS TEM, INCLUSIVE NO BRASIL, UMA PROVA DA FALCATRUA DO EXAME VEM DE MT.

  3. - Responder

    Todos os países sérios do mundo tem prova para exercício da Advocacia, só pesquisar. É uma proteção aos futuros clientes, já ta feio com, imagina sem!

  4. - Responder

    no lugar de Giancarlo Frias leia-se Giancarlo Civita

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