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DESAFIOS DO MUNDO MODERNO: Maior encontro do setor progressista da igreja católica começa nesta terça, em Londrina, com 3 mil delegados do Brasil, e representantes da Argentina, Paraguai, França, Itália e Alemanha

13ª Intereclesial ocorrida em Crato, no Ceará, em 2014

CEBs e Teologia da Libertação

Três mil lideranças participam de evento católico progressista em Curitiba a partir de hoje

Evento ocorre em Londrina (PR), discute desafios do mundo urbano e também conta com presença de Argentina, Paraguai, França, Alemanha e Itália

GIBRAN LACHOWISKI
ESPECIAL PARA A PAGINA DO E

O maior encontro do setor progressista da igreja católica do Brasil começa hoje (terça, 23) em Londrina-PR, com a participação de cerca de três mil delegados de todo o Brasil, além de representantes da Argentina, Paraguai, França, Itália e Alemanha e na pauta “Os desafios do mundo urbano”. O tema leva em conta que 84% da população brasileira estão nas cidades, segundo dados do IBGE, e também o fenômeno global de inchaço das zonas urbanas.

Violência, saúde, mobilidade, educação, moradia, organização popular, direito à comunicação, ecologia e juventudes são alguns dos assuntos das plenárias do encontro, que ocorre a cada quatro anos. As reformas Trabalhista e da Previdência do governo Temer e o julgamento do ex-presidente Lula amanhã (quarta, 24) pelo Tribunal Regional Federal-4, em Porto Alegre, também serão debatidos.

Dom Pedro Casaldáliga e agentes do Conselho Indigenista Missionário (CIMI)

Concílio Vaticano II e Teologia da Libertação
Os participantes são lideranças pastorais, freiras, padres, bispos, indígenas, quilombolas e militantes de movimentos sociais. Pessoas engajadas em trabalhos voltados às minorias sociais e que atuam a partir de uma igreja que valoriza a participação do leigo. Lembra-se que em 2018 o Brasil comemora o Ano do Laicato, que objetiva fortalecer a participação das pessoas que atuam nas comunidades religiosas de base e diminuir a força da hierarquia clerical dentro da igreja.

Esses aspectos correspondem a um modelo pastoral baseado na espiritualidade do Concílio Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965 e revolucionou a atuação pastoral, sobretudo na América Latina. As CEBs iniciam neste período, alimentam-se da religiosidade popular e fundamentos teóricos da Teologia da Libertação.

Entre seus ícones estão o seringalista Chico Mendes, o bispo emérito de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, o teólogo Leonardo Boff e a sindicalista paraibana Margarida Alves.

 

Maria Cleuza Feriani, coordenadora do Regional Oeste 2

Críticas ao agronegócio
Para a coordenadora da CEBs de Mato Grosso, Maria Cleuza Feriani, de 60 anos, os desafios do mundo urbano que mais repercutem no estado são moradia, educação e agronegócio. Quanto ao primeiro, destaque negativo para o crescimento de periferias nas cidades mato-grossenses de grande, médio e pequeno porte, como a capital Cuiabá (com 590 mil habitantes), a vizinha Várzea Grande (274 mil) e Carlinda (10 mil), conforme dados do IBGE/2017.

“São lugares sem rede de esgoto, água, luz e asfalto. Até as casas populares são construídas nos locais mais distantes, discriminando mais ainda o povo”, comentou Maria Cleuza, que mora em Alta Floresta (extremo norte do estado). A situação se associa a uma realidade vivida no campo, pois 82% da população de Mato Grosso estão na área urbana, mas 116 de seus 141 municípios dependem da agropecuária e extrativismo, segundo dados do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A colonização implementada pela ditadura nos anos 70 gerou problemas que ecoam até hoje, como o assassinato de nove agricultores por capangas de fazendeiros no assentamento Taquaruçu do Norte, em Colniza (a 1.065 km de Cuiabá), em abril de 2017.

“Na educação, o governo paga muito pouco aos professores e assim desvaloriza os profissionais. Desse jeito, quem serão os futuros padres, mães, pais, prefeitos, vereadores?”. “E o agronegócio é questão unânime, porque está destruindo a natureza, desmatando e espalhando veneno”, completou.

Francisco Crisóstomo (Thiesco)

A explosão das juventudes
Os desafios das juventudes, com suas múltiplas expressões simbólicas, animam a participação de jovens lideranças no Intereclesial, como Francisco Crisóstomo de Oliveira, de 31 anos, que mora em Marabá (PA) e é o coordenador de Pastorais da diocese da região. Segundo Thiesco, como é mais conhecido, a juventude não pode ser vista só como problema social ou política pública.

“Queremos participar, ser protagonistas e ajudar a pensar a construção da sociedade”. Uma das pistas para ampliar o olhar sobre a juventude é perceber sua característica transgressora, evidente não apenas no discurso verbal, mas nos cabelos coloridos, linguajares, roupas, padrões de comportamento e novos modos de protestar. “Exemplos disso são o movimento secundarista que ocupou as escolas em 2016 e 2017 e o movimento LGBT, ainda pouco compreendidos pelas comunidades”, explicou Thiesco, que é estudante de Ciências Sociais.

 

Ir. Mercedes de Budallés

Feminismo na bíblia
A questão feminista é outro aspecto dos desafios do mundo urbano, pontuou a irmã Mercedes de Budalles, de 73 anos. Ela é coordenadora regional das CEBs em Goiânia e trabalha com grupos de lideranças, movimentos sociais e moradores de bairro a reinterpretação do Evangelho. “Tratamos da questão feminista nas dimensões de gênero, classe social, etnia, geração e religião”, detalhou Mercedes, que por vários anos atuou na prelazia de São Félix do Araguaia ao lado de dom Pedro Casaldáliga.
Famílias vão acolher participantes em suas casas
Grande parte das pessoas que participar do Intereclesial vai ficar hospedada nas casas de 1,8 mil famílias de Londrina e das vizinhas Cambé e Ibiporã, colocando em prática o sentido de ser comunidade. Cerca de mil voluntários ajudam na preparação do encontro em diversas equipes, como transporte, alimentação e cadastramento.

Também há parcerias com o poder público, para viabilizar espaços físicos, e cooperativas, acampamentos e assentamentos, para garantir alimentos, informou o coord

Dom Juventino Kestering, bispo da diocese de Rondonópolis-Guiratinga. mt

enador de equipes de trabalho, padre Dirceu Luiz Fumagalli, de 57 anos.

 

 

Candidatura de Rondonópolis: para acirrar discussão sobre agronegócio
Rondonópolis (MT) pleiteia sediar o 15º Intereclesial e tem entre suas questões centrais os prejuízos causados pelo modelo exportador do agronegócio, que contribui com a balança comercial, mas concentra renda, polui rios, plantações e afeta a saúde da população com intenso uso de agrotóxico. É bom lembrar que Mato Grosso é lembrado pejorativamente em nível mundial pela exportação de soja e seu ex-governador e agora ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

Parte dessa discussão está incorporada na proposta de candidatura de Rondonópolis para sediar o 15º Intereclesial, de acordo com a carta de apresentação da cidade, que será lida em Londrina.

“A história de Mato Grosso é marcada por sangue de milhares de soldados por ocasião da guerra contra o Paraguai, milhares de garimpeiros em busca de pedras preciosas, pela escravidão negra e indígena, as migrações nordestinas, em especial da Bahia, as migrações sulistas. Tudo isso faz do estado um mapa de destruição e de progresso, de alta riqueza e de pobreza”.

É o que diz trecho do documento assinado pelo bispo da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga, dom Juventino Kestering, de 72 anos.

As CEBs de Mato Grosso estão presentes em outras seis dioceses (Primavera do Leste-Paranatinga, Cuiabá, Barra do Garças, Cáceres, Juína e Sinop) e uma prelazia (São Félix). Cada unidade reúne várias cidades. ´

A decisão sobre a próxima sede do Intereclesial será definida no sábado (27). Toda a programação do encontro está baseada na metodologia “ver-julgar-agir”, que contempla a doutrina social da igreja católica. O Intereclesial terá grandes plenárias, com explanações gerais sobre o tema central, miniplenárias, para aprofundar as discussões, “filas do povo”, com perguntas e comentários, exposição de artistas populares, celebração em honra a mártires e defensores da vida, missas e espaço para moções.

Histórico
O Intereclesial teve início em 1975, em Vitória-ES, com o tema “Uma igreja que nasce do povo pelo Espírito de Deus”, e até hoje já passou pela Paraíba, São Paulo, Ceará, Goiás, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Maranhão, Bahia, Minas Gerais e Rondônia. Cada Intereclesial é precedido de encontros de formação para amadurecer as temáticas que serão tratadas no evento nacional.

Gibran Luis Lachowski, jornalista e professor universitario, da assessoria de comunicação das CEBs/Mato Grosso

1 Comentário

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  1. - Responder

    Lá vem os padres comunistas disfarçados de cristãos encher a cabeça do povo bobo e ignorante.

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