Oitenta anos não é brincadeira, não. Dalva de Barros, porém, parece que está brincando… Brincando com as cores, com os pincéis, portanto, tornando a vida mais bela. Na terça-feira (27), foram celebrados os 80 anos de vida de Dalva e – como um presente de aniversário, veja só – nesta quarta-feira (28), será inaugurada a Galeria Lava-pés, com uma exposição da nossa oitentona, que acaba sendo um presente, não só para a artista, mas para a cidade de Cuiabá

Dalva de Barros, em foto de José Medeiros

Dalva de Barros, em foto de José Medeiros

PERSONALIDADE

Os oitent’anos de Dalva de Barros

Exposição das obras da festejada artista marca também inauguração de nova Galeria de Artes, a Lava-pés

 

JOÃO BOSQUO

DC ilustrado – DIARIO  DE CUIABÁ

 

Oitenta anos não é brincadeira não. Dalva de Barros, porém, parece que está brincando… Brincando com as cores, com os pincéis, portanto, tornando a vida mais bela. Na terça-feira, ontem, foram celebrados os 80 anos de vida de Dalva e – como um presente de aniversário, veja só – HOJE, quarta-feira, será inaugurada a Galeria Lava-pés, no bairro Goiabeiras, com uma exposição da nossa oitentona, que acaba sendo um presente, não só para artista, mas para a cidade de Cuiabá, ‘véspera’ de completar 300 anos de fundação.

Dalva de Barros é uma artista singularíssima. Quem diz isso não é este repórter. Os que dizem são seus admiradores, que não são poucos, pois muitos deles – saiba – passaram sob sua tutela quando era instrutora nos primeiros ateliês públicos de Mato Grosso: o Ateliê Livre da Fundação Cultural de Mato Grosso, entre 1976 e 1980, e o Ateliê Livre do Museu de Arte e de Cultura Popular (MACP) da Universidade Federal de Mato Grosso. Aprendizes de Dalva que seguem pontificando no universo das artes plásticas regional, nacional e internacional.

Uma que não economiza elogios a Dalva de Barros é a crítica de artes Aline Figueiredo. Aliás, vamos esclarecer. Aline Figueiredo para elogiar alguém, por menor que seja o elogio, o artista tem de ter qualidades, senão não sai uma vírgula apesar de ser animadora. Pois bem, Aline não apenas analisa a obra da artista, como também faz um belíssimo apanhado biográfico no livro “Dalva de Barros – Garimpos da Memória”, e lá na abertura nos noticia que as artes plásticas mato-grossenses hoje tem uma representatividade no cenário nacional e que esse cenário cultural por qual Mato Grosso vem vivenciando desde os anos 60 deve muito a Dalva de Barros.

Lá atrás escrevi “brincando com as cores”. Não. Dalva de Barros não brinca ela trabalha de forma consciente fazendo um retrato de toda a sociedade, em particular de nossas gentes. Quem observa isso muito bem é a crítica de arte. Poderia aqui escrever um jornal inteiro com base no livro de Aline. Mas não vamos fazer isso, embora tendo como referência maior para as informações que nos chegam de todos os lados, com um clique da internet.

Dalva de Barros nasce em Cuiabá, começa a pintar no início da década de 60, em 1966 participa da 1ª Exposição de Pintura dos Artistas Mato-grossenses, em Campo Grande, uma realização de Aline Figueiredo, que já contamos aqui nas páginas deste DC Ilustrado; entre 1968 e 1970 faz estágio na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, quando tem oportunidade de participar do Salão Nacional de Belas Artes e daí pra frente vem numa sucesso de exposições, mostras, salões e bienais, para  em 1976 assumir como instrutora do Ateliê Livre.

No ano seguinte, 1977, chega a Cuiabá Adir Sodré, atualmente um dos mais conceituados artistas. E ele mesmo quem conta que, naqueles anos, “já brincava com as cores e pinceis, mas sem nenhuma pretensão”. Certo dia, precisando fazer uma pesquisa para escola, foi até a Biblioteca Pública Estevão de Mendonça, que estava instalada no Palácio da Instrução, onde também funcionava o Ateliê Livre. “Foi aí que conheci Dalva de Barros, que, dona de uma delicadeza impar, como professora e orientadora me acolheu”. Adir lembra ainda que no ateliê conheceu outro ícone das nossas artes plásticas: Gervane de Paula e os três formaram um trio que pintaram nas ruas e becos cuiabanos.

Eis o seu depoimento: “Dalva foi o meu eixo norteador do meu caminho. Com sua liberdade me ensinou muito com seus atos. Ela é um caso único na arte brasileira. Nessa globalização, a arte feita em Cuiabá ou na África ou em qualquer ponto do planeta é universal, toda arte pra ser universal primeiro ela foi regional. Dalva é isso. Sem considerações naifs, nem rótulos, Dalva é minha mestra! Salve seus 80 anos de dedicação e ensinamento pros artistas que ela orientou”, proclama.

A mostra sobre Dalva de Barros que será aberta nesta quarta-feira na Galeria Lava Pés contará com a participação especial de alguns dos discípulos da artista plástica como Adir Sodré, Benedito Nunes, Dirce Nestor, Márcio Aurélio e Regina Pena que apresentarão cerca de 40 obras. A exposição inclui ainda um vídeo-documentário produzido para a ocasião, além de fotos, catálogos, croquis, objetos pessoais e de arquivo da artista. A curadoria é de Gervane de Paula, que também foi discípulo de Dalva na década de 70.

O gestor cultural Mário Olímpio diz que conheceu Dalva de Barros em meados de 1982 quando tomou contato com todo o universo da animação cultural empreendida por Aline Figueiredo e Humberto Espíndola, na UFMT. “Conheci por meio do Adir Sodré, que era meu colega de cursinho comecei a frequentar os atelieres livres do MACP, que funcionava no prédio das Ciências Tecnológicas da UFMT e no centro, no Palácio da Instrução. Dalva e João Sebastião eram espécies de braços criativos de Aline e Humberto, que se ampliavam como tentáculos buscando popularizar as artes plásticas no Mato Grosso recém-dividido”, conta.

O teatrólogo e escritor Luiz Carlos Ribeiro lembra que conheceu Dalva de Barros no ateliê da antiga Fundação Cultural de Mato Grosso, “ministrando oficina de pintura para uma moçada nova, hoje todos pintores consagrados”, entre os citados lembra os nomes de Benedito Nunes, Regina Pena, Dirce Nestor. “Dalva além de ser uma artista singular com forte influencia do Mestre Portinari, sabe como ninguém registrar em suas obras o cotidiano da sua comunidade sem, contudo, perder de vista a universalização dos seus temas. Tenho o maior carinho pela pessoa de Dalva, uma amiga de longos janeiros e pela sua obra pictórica. Viva Dalva de Barros, uma Mestra do nosso pictórico”.

Vitória Basaia, artista plástica e jornalista, lembra que conheceu Dalva de Barros ainda como repórter quando teve que fazer uma matéria na década de 80. “Conheci Dalva e Adir Sodré em meados da década de 80 e no começo dos anos noventa estreitamos laços ao participarmos juntos de exposições. Dalva pra mim é pura poesia de luz. Onde ela está tudo se ilumina seja através de sua obra, ou da presença física. Sinto-me grata sempre quando tenho à oportunidade de um dedo de prosa com ela pela simplicidade, gentileza sabedoria e doçura. Esse conjunto nos faz afirmar: Isso sim que é nobreza”.

João Sebastião da Costa, um dos poucos que não passou pela mão de professora Dalva de Barros, mas que andaram juntos nessa trajetória de construção e afirmação das artes plásticas do Centro-Oeste, diz que “Dalva de Barros, com excelência, retratou a  memória do povo  da cidade de Cuiabá e brasileira. Amo a sua bela pintura”.

É isso. A estrela Dalva desponta aos 80 para eternizar no cenário das artes mato-grossense. Viva, viva, vivíssima Dalva Maria de Oliveira.

A mostra Dalva de Barros 80 anos! permanece em cartaz até 26 de fevereiro de 2016. A Galeria de Artes Lava Pés estará aberta para visitação do público de segunda a sexta, das 8h às 18h, com entrada gratuita. Ela está instalada na sede da Secretaria Estadual de Cultura,  na avenida José Monteiro de Figueiredo (Lava Pés), 510, bairro Duque de Caxias, próximo ao Shopping Goiabeiras.

 

 

 

 

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