Maior artilheiro brasileiro, hoje, é Zé Carlos, do Criciúma

Zé Carlos marcou a metade dos gols do Criciúma no atual campeonato. Ele pensa em se aposentar daqui a cinco anos.

O maior artilheiro do Brasil

José Roberto Torero
DA AGENCIA CARTA MAIOR

Caro leitor, caríssima leitora, para o texto de hoje resolvi entrevistar o maior artilheiro dos quatro campeonatos brasileiros (séries A, B, C e D).
Então fui consultar a “tábua de classificação” (como diziam os nobres locutores de antanho) e tive uma surpresa: o nosso principal marcador não era nenhum grande centroavante como Luís Fabiano ou Fred, ou um atacante talentoso, como Lucas ou Neymar.

O maior artilheiro dos quatro campeonatos brasileiros é um quase veterano quase desconhecido. Seu nome é Zé Carlos e ele é o atual centroavante do Criciúma. Zé Carlos, também chamado de Zé do Gol, já fez 11 tentos na Série B. É o mesmo que o segundo e terceiro artilheiros somados.

O talento de Zé Carlos foi aprimorado nos campinhos de Maceió, onde ele nasceu, em 1983. Apesar de sua mãe ser merendeira numa escola, ele não era muito amigo do estudo. E muitas vezes bolou aula para jogar futebol.

Seus ídolos na infância eram Ronaldo e Romário. Mas acabou se espelhando em Serginho Baiano, que atuava no Corinthians de Alagoas, onde Zé Carlos começou sua carreira.

Neste tempo morava na casa da avó, com mais vinte pessoas. Ele fez um bom campeonato em 2001, quando tinha 18 anos, e foi vendido para o Porto, de Portugal. Mas ficou jogando no time B, uma espécie de chocadeira para novos valores. Ficou lá por 3 anos e meio, até ser negociado com o Vizela, da segunda divisão portuguesa.

Não fez muito sucesso na terra de Camões e voltou para a de Graciliano Ramos. Mas desta vez jogaria num dos grandes do estado, o CRB. Estava sendo o artilheiro do estadual, atraiu a atenção dos empresários e foi parar na Coreia, mais especificamente no Ulsan Hyundai, onde estavam outros brasileiros, como Dodô, ex-São Paulo e Santos.

Zé Carlos ficou um ano e voltou ao CRB. Mais uma vez foi bem em casa e acabou chamado pela Ponte Preta. De lá voltou para a Coreia, onde ficou três anos. E chegou longe: o Ulsan venceu a copa da Ásia e ele chegou a disputar o mundial de clubes em 2006.

Mas, quando estava no auge da carreira, veio o grande golpe: sua mãe morreu. Zé Carlos era muito ligado a ela: “Era mãe e pai ao mesmo tempo. Me apoiava muito”.

O irmão mais velho de Zé Carlos até parou de jogar e abriu uma empresa de mesas e cadeiras para festas. Ele pensou em seguir o mesmo caminho. “Minha família ficou desgastada. Eu não queria mais jogar”. Seu futebol caiu e ele voltou para o Brasil.

Aqui, os amigos deram uma força e ele conseguiu recuperar seu futebol. “Às vezes a gente fala que no futebol só tem gente interesseira, mas tem muito amigo também.”

Foi contratado pelo Paulista de Jundiaí, onde fez dez gols em dezessete jogos. Seu desempenho foi tão convincente que ele acabou no Cruzeiro.
Seria o grande salto na carreira. Finalmente ele jogaria num dos grandes times do Brasil. Mas não deu sorte. O Cruzeiro tinha vários atacantes na época, como Kléber, o gladiador, e Wellington Paulista. Assim, Zé Carlos ficou na reserva e só entrava em campo quando o clube poupava os titulares. Foram oito jogos e um único gol.

Voltou aos times médios, sendo emprestado para a Portuguesa. Mais uma vez, em sua carreira de altos e baixos, estava no alto. Foi novamente vendido para o oriente. Desta vez para o Japão. Mas não se adaptou e logo voltava à Lusa. Participou da boa e frustrante campanha de 2010, quando o time não voltou à Série A por um mísero ponto.

Acabou vendido para o Criciúma, seu décimo-segundo clube, e lá no sul atingiu a melhor fase de sua carreira. Zé Carlos marcou a metade dos gols do clube no atual campeonato. O time está em segundo lugar.

Zé Carlos pensa em se aposentar daqui a cinco anos. Então vai aposentar as malas de viagens. Seu sonho é ter uma roça e criar galinhas. E vai exigir que seu filhos (Karen, de 7 anos, Mateus, de 2, e os gêmeos Karlos e Kiara, de apenas 4 meses) estudem bastante.

“E se eles fizerem que nem você e fugirem da escola para jogar bola?”, perguntei.

“Não vou deixar. Tem que priorizar o colégio. O colégio é tudo”, respondeu o antigo gazeteiro.

 

 

 

 

José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.

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