TCE - OUTUBRO

O historiador Sebastião Carlos escreve sobre “Número Zero”, o novo livro do consagrado escritor italiano Umberto Eco. “A paródia que Eco faz da política italiana é perfeita como uma luva para a brasileira. A lição de como se montar um dossiê contra um inimigo, ou mesmo amigo, para chantageá-lo é um retrato do que a gente já viu, ou vê, por aí”

Umberto Eco, escritor italiano, virou bestseller  com o romance "O nome da Rosa", adaptado pelo  cinema em filme estrelado por Sean Connery

Umberto Eco, escritor italiano, virou bestseller com o romance “O nome da Rosa”, adaptado pelo cinema em filme estrelado por Sean Connery

Zero e as lições da política

Sebastião Carlos

Tenho por hábito ler simultaneamente de dois a três livros de gêneros distintos e que tratem de temas diferentes. Costumo também, na medida do possível, dedicar igual tempo de leitura a eles. Às vezes, porém, não consigo tão interessante e fascinante se torna a leitura. Não apenas pelo tema, como igualmente pela habilidade do narrador. É o que acaba de acontecer com o último livro de Umberto Eco, o respeitado semiólogo, filósofo e ficcionista italiano, dos mais referendados da intelligentsia contemporânea. Seu romance Número Zero, recém-publicado no Brasil, cuja leitura cheguei ao fim duas madrugadas atrás, é um fantástico exercício literário em que mescla ficção com fatos reais. Nele, trata com sarcasmo e ironia os acontecimentos históricos contemporâneos, a partir de supostas e fabulosas conspirações. Em determinados momentos o leitor não sabe se se trata de fatos verdadeiros ou se são apenas elucubrações dos personagens.

Estes vivem a aventura da criação de um jornal, feito para nunca ser publicado, mas que todas as manhãs, como se fosse um jornal de verdade, a redação se reúne para traçar a pauta – reportagens, artigos, noticias, horóscopos etc. – da edição do dia seguinte, embora saibam que nunca será publicada. Daí o número zero. Para que o jornal? Qual a sua finalidade? Quem está por trás? Quais os interesses que movem essa engrenagem, que chega a envolver grandes riscos? A estória tem começo em 1992, avança pelos vinte anos seguintes, mas retroage ao fim da Segunda Guerra. A rocambolesca aventura já vale pela leitura em si. Deixando de lado a faceta estritamente literária da novela, Eco fere alguns aspectos importantes da vida contemporânea, que passa despercebido para a imensa maioria. Faz-nos percorrer os bastidores da imprensa, mostrando um autentico manual do mau jornalismo, e o cenário da política. Prometo não tirar a surpresa do futuro leitor do romance, mas darei uma breve mostra do retrato ferino que ele faz da política e da imprensa. Você verá, meu caro leitor, que nem tudo é ficção, ou que nem tudo é mera coincidência, e também poderá deduzir que algumas vezes a realidade supera a ficção.

A paródia que Eco faz da política italiana é perfeita como uma luva para a brasileira. Em determinado momento, em que o descalabro administrativo e moral tomam conta de todos os escalões do Estado, judiciário, executivo, legislativo, um grupo de pessoas, constituído por cidadãos honestos, cumpridores de seus deveres, a que ele denomina de o ‘Homem Comum”, escandalizados com o avanço da corrupção decidem formar um partido constituído só de gente comprovadamente honesta. Formam então a “Liga dos Honestos”. Mas surge um drama inesperado. Conta um personagem: “Falava dessa sagrada união de gente correta que precisava se infiltrar entre os desonestos para desmascará-los e, em ultima analise, convertê-los à honestidade. Mas para poderem ser aceitos pelos desonestos os integrantes da liga precisavam se comportar de modo desonesto. Podem imaginar a continuação, a liga dos honestos aos poucos se transformou numa liga de desonestos.”.

A lição de como se montar um dossiê contra um inimigo, ou mesmo amigo, para chantagea-lo é um retrato do que a gente já viu, ou vê, por aí: “Um dossiê contém recortes, artigos de jornais, onde se diz aquilo que é sabido por todos, menos pelo ministro ou pelo líder da oposição, que nunca tiveram tempo de ler jornais. Os dossiês contêm noticias esparsas que a pessoa interessada deve elaborar de tal modo que consiga fazer brotar suspeitas e alusões.” Veja como se monta um dossiê: Fulano há muitos anos, foi multado por excesso de velocidade; em tal época noticiou-se que ele visitou um acampamento de escoteiros, e em alguma uma coluna social publica que ele foi visto numa danceteria. Pois bem, como é que fica então o dossiê que será usado como arma? Nele será dito que o sujeito é imprudente que não respeita o código de trânsito para ir a lugares onde enche a cara e que, provavelmente (mas claro que é evidente) o individuo gosta de rapazinhos. Assim. “A força do dossiê está no fato de que ele nem precisa ser mostrado: basta espalhar o boato de que ele existe e contém noticias, digamos, interessantes. O Fulano acaba sabendo que você tem noticias sobre ele, não sabe quais, mas todo mundo tem algum esqueleto no armário e cai na armadilha: experimente pedir alguma coisa a ele, e ele vai estar bem mais maneiro.”

 

Um pouco antes já mostrara que para denegrir alguém basta fazer insinuações: “A insinuação eficaz é a que relata fatos sem valor em si, mas que não podem ser desmentidos porque são verdadeiros.” Então você mistura esses fatos verdadeiros desimportantes com as mentiras que você quer. Ele vai ao cerne de um problema que se tornou imensamente usual no Brasil atual. Você quer ser defender? Não se defenda, ataque quem te acusou: “… para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador.”.

Agora o retrato do leitor comum, aquele que não se deixou levar pelas ondas do nem sempre correto “politicamente correto” os que maciçamente lerão o jornal. Diz o editor: – “Eu sei, eu sei, queridinha, mas os nossos leitores ainda dizem bicha, ou pelo menos pensam bicha porque para ele faz sentido usar essa palavra. Eu sei que agora não se diz preto, mas negro, não se diz cego, mas deficiente visual. Mas negro é sempre negro, e um deficiente visual não enxerga um palmo à frente do nariz, coitadinho. Não tenho nada contra os bichas, é como os pretos, adoro todos, desde que fiquem em suas casas.”.

E, para encerrar, esta boutade que pode ser aplicada a tanta gente que conhecemos. Um regente dizia sobre um músico: “No seu gênero é um Deus. O gênero é que é uma merda.”.

Enfim, um romance que diverte e que ensina.

sebastião-carlos-advogado-e-professor-mt-na pagina do E

 

Sebastião Carlos é historiador e poeta, em Mato Grosso

 

Numero-Zero-de umberto eco na pagina do E

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

dois × 1 =