TCE - NOVEMBRO 2

O GLOBO: Silval montou esquema de corrupção com a famíia – e desviou R$ 1 bilhão

Ex-governador do MT montou esquema de corrupção com a família

Delator da ‘Lava-Jato pantaneira’, Silval Barbosa liderou organização que desviou até R$ 1 bi

por Silvia Amorim, O Globo

Silval Barbosa e a ex-primeira-dama Roseli de Fátima Barbosa, quando faziam campanha de doações no Natal – Mayke Toscano / Divulgação

 

CUIABÁ – Inexpressivo politicamente fora de Mato Grosso, o ex-governador Silval Barbosa (PMDB) foi alçado ao cenário nacional na semana passada como delator do maior esquema de corrupção revelado em seu estado, inclusive com a divulgação de políticos locais escondendo maços de dinheiro em bolsas, mochilas e paletós. Acusado de liderar uma organização criminosa que pode ter saqueado até R$ 1 bilhão dos cofres públicos, ele mesmo é acusado de ajudar a engendrar o ambiente favorável à roubalheira no estado. Por quatro anos, o ex-governador pôs toda a família para participar do esquema: mulher, filho e irmão.

É esperada para daqui um mês a primeira sentença do ex-governador na Justiça de Cuiabá. Depois de ter ficado um ano e nove meses preso no Centro de Custódia de Cuiabá, ele conseguiu, em junho passado, ter a prisão transferida para seu apartamento duplex na capital mato-grossense. Enquanto estava na cadeia, viu a mulher e o filho pararem atrás das grades.

A ex-primeira-dama Roseli de Fátima Meira Barbosa e o filho Rodrigo da Cunha Barbosa foram alvos da investigação que está sendo chamada de Lava-Jato pantaneira. Mãe e filho estão soltos, aguardando julgamento. Rodrigo, assim como o pai, usa tornozeleira eletrônica. Roseli é acusada de participar de um desvio de R$ 8 milhões da Secretaria de Trabalho e Assistência Social, da qual era titular na gestão do marido, num escancarado nepotismo. Fraude em licitação, corrupção e lavagem de dinheiro estão entre os crimes a que ela responde na Justiça estadual. Na delação, a mulher de Silval confessou ter usado parte da propina recebida de uma empresa que prestava serviço à pasta para pagar fatura do cartão de crédito.

Rodrigo, de 33 anos, ficou preso por um mês em 2016. Ele é acusado de cobrar propina de empresários que mantinham contratos ou recebiam benefícios fiscais do governo do estado e usar parte do dinheiro para adquirir apartamentos. Antes de se envolver nos esquemas do pai, o rapaz se formou em Medicina em Presidente Prudente (SP). Pouco antes de Silval, então vice-governador, assumir a cadeira de Blairo Maggi, hoje ministro e um dos delatados por ele, Rodrigo voltou para perto da família.

O irmão mais novo de Silval, Antonio da Cunha Barbosa Filho, conhecido como Toninho, é um dos administradores da fortuna dos Barbosa. Sócio de diversas empresas com o irmão, ele é suspeito de lavar o dinheiro desviado do estado pela família. Por enquanto, ele é investigado, bem diferente da situação do irmão, que tem uma ficha corrida extensa. Na delação premiada que Silval assinou em março passado, seis páginas listam as ações e inquéritos a que ele responde. São crimes como corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, fraude e organização criminosa.

Mesmo diante da denúncia de que saqueou o estado em R$ 1 bilhão, os Barbosa conseguiram um ótimo negócio com a delação premiada feita na Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Juntos eles devolverão aos cofres estaduais cerca de R$ 80 milhões, boa parte disso em bens, como um avião e terrenos.

Mesmo diante da série de denúncias contra a família do ex-governador, tímidos foram os protestos na região. Nas redes sociais, especialmente nas páginas de deputados flagrados pegando propina, internautas fizeram desabafos nos últimos dias, mas não passou disso. Nenhuma mobilização de rua aconteceu, mesmo estando entre os flagrados o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB), cujos maços de dinheiro caíam do bolso.

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso ficou esvaziada nos dias seguintes à divulgação dos vídeos. Deputados não apareceram em número suficiente para dar início às sessões. Na quinta-feira, alguns dos delatados por Silval usaram a tribuna para se defender. Nenhum deu explicação para os maços de notas que receberam e criticaram a mídia pela divulgação das imagens.

Investigadores em Mato Grosso acreditam que a família tenha acumulado com as falcatruas muito mais do que o dinheiro que deverá devolver. O patrimônio dos Barbosa é estimado em bilhões de reais, parte dele em nome de laranjas, como o próprio ex-governador assumiu na delação. Um desses bens é uma mansão avaliada em R$ 3 milhões na badalada praia de Jurerê Internacional, em Santa Catarina, além de fazendas e empresas de rádio e TV no Mato Grosso.

Se condenado, Silval não cumprirá um dia da pena na prisão. O acordo determina que o ex-governador permaneça em prisão domiciliar e depois tenha a progressão da pena. Para os demais Barbosa, o cumprimento de pena começará no semiaberto

— Há 33 anos eu saía do Paraná, e o que levava na bagagem era a vontade de vencer e de contribuir para Mato Grosso — disse Silval, em dezembro de 2010, num discurso após ter vencido a eleição para governador.

Acompanhado dos pais, dos irmãos e da mulher, Silval migrou para o Centro-Oeste estimulado pelo governo militar e com planos de fazer riqueza nos garimpos de ouro.

EXTRAÇÃO DE OURO

A família se instalou na região do pequeno município de Matupá, na fronteira de Mato Grosso e Pará, onde Silval fez dinheiro e carreira política. Dona de barrancos, chegou no auge da extração de ouro na região. O negócio no garimpo prosperou e, no final dos anos 1980, Silval já fazia negócios com garimpeiros até no Pará. Um dos fundadores do garimpo Castelo de Sonhos, em Altamira (PA), Leo Heck é uma das testemunhas das andanças de Silval por lá.

— Ele nunca foi garimpeiro aqui. Nunca o vi com ferramenta alguma na mão. Mas ele entrava e saía do garimpo, negociando sei lá o que com os homens de lá — diz Leo, de 82 anos.

Com o dinheiro do garimpo, a família começou a abrir comércio em Matupá e, em 1993, Silval se tornou prefeito. Garimpeiros disseram ao GLOBO que, até hoje, eles têm garimpo na região, além de posto de gasolina, empresa de equipamentos para o garimpo e emissora de TV.

— Eu posso dizer a você que, se ele se candidatar a prefeito, é capaz que ele ganhe aqui em Matupá — afirmou um morador da cidade.

Em Cuiabá, Silval cresceu politicamente pelas mãos do político maior ficha-suja do país, o ex-deputado José Riva, que, especula-se, estaria negociando uma delação. Silval se tornou presidente da Assembleia Legislativa pelas mãos de Riva e vice na chapa de Blairo Maggi, em 2006, pelo mesmo caminho.

Na delação, o ex-governador disse que pagou “mensalinho” a deputados da Assembleia com dinheiro do governo durante sua gestão. Os vídeos da distribuição da propina, divulgado na semana passada, expuseram deputados e prefeitos colocando dinheiro roubado em sacolas, bolsos e caixas. Apesar do patrimônio milionário, os Barbosa mantinham uma vida discreta em Cuiabá. Uma das exceções, entretanto, foi o casamento do filho Rodrigo, em 2012. A festa, para cerca de mil convidados, reuniu políticos de Brasília, a nata da sociedade mato-grossense e muitos dos delatados hoje por Silval. Gravata italiana e caixa de prata cravejada de cristal foram os mimos dados aos padrinhos. O noivo usou terno Ricardo Almeida, e a noiva, vestido bordado com cristais Swarovski.

Ao recordar sua chegada a Mato Grosso e comemorar a vitória na eleição para governador, naquele discurso em 2010, Silval encerrou suas palavras com uma promessa que, hoje, após tudo o que veio à tona, soa piada:

— Agradeço cada um que confiou nesse projeto. Vou retribuir a confiança e a expectativa de cada um de vocês.

Procurado, o advogado da família Barbosa, Délio Lins e Silva não quis dar entrevista. O prefeito Emanuel Pinheiro também tem mantido silêncio.

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VLT de R$ 1 bi é o dano mais visível de corrupção no MT

Obra projetada para a Copa está inacabada e tomada por lixo

por Silvia Amorim

Em Cuiabá, obra inacabada do VLT, que ligaria o aeroporto ao Centro da cidade – Silvia Amorim / Agência O Globo

CUIABÁ – Os efeitos da roubalheira no estado de Mato Grosso podem ser vistos pelas ruas da capital, Cuiabá. O mais visível e revoltante deles é a obra do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) projetado para funcionar na Copa do Mundo de 2014, mas, até hoje, não passa de trechos inacabados de trilhos enferrujados e tomados por lixo. Cerca de R$ 1 bilhão foram gastos na obra e agora, para ser concluída, a empresa responsável quer receber mais R$ 1,2 bilhão, mais que o dobro do custo total orçado inicialmente para o VLT.

Projetado para ligar o aeroporto ao Centro de Cuiabá, o corredor foi alvo, mês passado, de uma operação da Polícia Federal. Ele é um dos símbolos do desperdício e da corrupção que houve em obras para a Copa no país. A Operação Descarrilho apura os crimes de fraude, associação criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de capitais, em tese ocorridos durante a escolha do modal do VLT e sua execução em Cuiabá, na gestão do ex-governador Silval Barbosa.

Em delação premiada, ele confessou ter recebido propina da empresa Mendes Júnior, investigada na Lava-Jato e que construiu o estádio Arena Pantanal. Cerca de 3% do valor do contrato foram para o então governador. Rachaduras nas paredes, infiltrações e piso quebrado são alguns dos problemas do estádio que custou quase R$ 600 milhões. O governo do estado estima que para terminar a obra precisará de mais de R$ 20 milhões.

Na saúde, a falta de dinheiro tem causado um caos no atendimento. Nas redes sociais, pacientes divulgam vídeos de hospitais lotados, macas pelos corredores e armários de medicamentos vazios. Na quinta-feira passada, a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) anunciou que a dívida do governo do estado com as prefeituras na área de saúde é superior a R$ 68 milhões. Repasses de recursos que deveriam ter sido feitos no ano passado ainda não foram honrados.

TAQUES ACUSOU ANTECESSOR

Quando assumiu, o atual governador Pedro Taques (PSDB) acusou o antecessor de não ter deixado em caixa recursos suficientes para cumprir com as despesas de início da gestão.

Por suspeita de fraude, um dos principais programas de recuperação de estradas foi paralisado e agora, aos poucos, recomeça. Um exemplo é a pavimentação da MT-100, uma das principais rodovias para escoamento da produção agrícola do estado. Silval, em seu programa MT Integrado, prometeu pavimentar boa parte da estrada, mas entregou o governo com apenas dois trechos prontos.

FONTE O GLOBO

 

 

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