O eterno Cauby, aos 78 anos, diz que poderia ter sido maior que Frank Sinatra e Nat King Cole

criatura Cauby


O CANTOR EXPLICA COMO O MARKETING AJUDOU A DEFINIR SEU ESTILO E SEU REPERTÓRIO E DIZ QUE, SE TIVESSE MORADO NOS EUA, SERIA MAIOR DO QUE FRANK SINATRA E NAT KING COLE

LUIZ FERNANDO VIANNA
EM SÃO PAULO

Amparado por três seguranças da casa, Cauby Peixoto caminha com dificuldade até o palco do salão principal do bar Brahma, que lota há mais de quatro anos nas apresentações semanais do cantor.
Cerca de 200 pessoas se levantam e aplaudem. A fragilidade física de Cauby, 78 inconfessados anos, pode espantar, mas também serve como alerta: ali está, na esquina das avenidas Ipiranga e São João, em carne, osso e maquiagem, um artista que tem muita história. Em quatro letras, um mito.
Ele é um dos últimos grandes representantes da era do rádio, o período entre 1930 e 1950 que consolidou a existência de uma música popular brasileira.
Essa expressão recebeu iniciais maiúsculas e sofisticação nas décadas seguintes, mas suas estrelas prestaram reverência a Cauby, que ganhou canções de Caetano Veloso ("Cauby! Cauby!") e, indiretamente, de Chico Buarque ("Bastidores" não foi feita para ele, mas é como se tivesse sido, tamanha a identificação).
Cauby (nome retirado de "Iracema", de José de Alencar) ainda foi um produto de marketing antes que isso virasse banalidade. Seu empresário Edson Collaço Veras, o Di Veras (morto em 2005, aos 91), criava nos anos 50 uma série de "notícias" para que o cantor ocupasse ao máximo as páginas de jornais e revistas.
As roupas já eram feitas para serem rasgadas pelas fãs, e não importava que ninguém acreditasse em suas várias noivas. O importante era falar de Cauby. Com insuspeita modéstia, ele diz na entrevista abaixo que o marketing lhe valeu mais do que o talento.
Mas, pouco depois, afirma que, se tivesse ficado nos EUA, teria sido maior do que Frank Sinatra e Nat King Cole.

Visual andrógino
E muito se falou sobre sua sexualidade. Antes mesmo de assumir um visual andrógino, nos anos 80, com sua peruca de cachos, ele já embaralhava os gêneros, emoldurando sua voz grave com traços e trejeitos suaves. Além de símbolo sexual para as mulheres, tornou-se ícone para os gays.
E nunca ergueu nenhuma bandeira colorida. Sempre foi escorregadio ao tratar do assunto, ora falando de mulheres que teria amado, ora dizendo que seria capaz de se apaixonar por um homem ou até brincando numa entrevista à Folha, em 1985: "Podem me chamar de bicha!".
Nunca precisou sair de seu armário cheio de "summers", paletós com brasões e, na sua própria classificação, "roupas extravagantes".

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Sou um artista preparado para o sucesso
 

Consegui fazer tudo aquilo que mais desejei

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EM SÃO PAULO

Cauby Peixoto mostra vivacidade e coragem em algumas respostas, repisa antigas frases em outras e parece alheio em curtos momentos. Às vezes faz uma pausa, representada aqui pela separação de parágrafos, e diz algo que não combina com o que acabara de falar. Não vale maquiar nada, pois, afinal, já se trata de Cauby. Por acaso ou não, tudo vira estilo. E é do seu estilo, de cantar e viver, que ele fala nesta entrevista, realizada antes de mais um show seu. (LFV)

 

FOLHA – Em fevereiro de 1949, o sr. deu o primeiro passo da carreira, cantando na rádio Tupi. O que aquele Cauby queria e o que conseguiu nesses 60 anos?
CAUBY PEIXOTO – Eu consegui, num país difícil, diferente de outros países… O americano, principalmente, usa muito a publicidade, o marketing, e aí faz um artista de um dia para o outro. Eu copiei o americano. Nós [ele e seu empresário Di Veras] fizemos diversas notícias: segurei a voz em 3 milhões de cruzeiros; "quando o Cauby canta, as meninas desmaiam". Isso foi crescendo, crescendo cada vez mais. "Cauby está noivo, vai casar com a miss Portugal." E eu cresci por causa dessa publicidade.

FOLHA – Mais do que pelo talento?
CAUBY – [Pensa por cinco segundos] Mais, mais.

FOLHA – Mas, se não tivesse talento, o sr. teria crescido?
CAUBY – Não sei te dizer. Porque há muita gente que não tem talento e tem sucesso. É uma coisa relativa. Mas, graças a Deus, a voz, a maneira de cantar ajudou muito.

FOLHA – O sr. disse em 1970: "Existem dois tipos de cantor. O que faz sucesso e o que é querido. Eu quero ser querido. Querido é o que fica". O sr. é mais querido do que um artista de sucesso?
CAUBY – Mais querido. Em outro dia, a Nancy [Lara, "personal manager" do cantor] estava falando comigo deste sucesso em todo o Brasil, do porquê deste sucesso. É o talento, são as músicas e o estilo. Muito importante é o estilo.

FOLHA – Sabe definir o seu estilo?
CAUBY – Sei. Eu sou um artista preparado para o sucesso, aprendi muita coisa para o sucesso e acho que o artista, quando é bem orientado, consegue fazer sucesso. É o meu caso. Eu fui muito bem orientado, inclusive perante as meninas. Sou uma pessoa que sai na rua com muita simplicidade, cumprimentando as pessoas, isso vai passando de uma para outra e vou me tornando popular.

FOLHA – O sr. não se sentia manipulado por Di Veras, como um objeto de marketing?
CAUBY – Não. E ele não me dizia por quê [inventava coisas]. E eu também não queria saber por quê. Eu embarcava. É o tal negócio do bom aluno. O Altemar Dutra, por exemplo, não queria cantar canções [do repertório] de outros cantores. Quando o Di Veras falou para mim "você canta Nelson Gonçalves, Dick Farney?", eu disse: "Canto". "Então, canta aí." Eu cantei. Ficaria mais fácil para ele fazer [o marketing]. E eu segui os conselhos dele.

FOLHA – O fato de Di Veras arrumar noivas para o sr. e promover fotos suas lutando jiu-jítsu acabavam reforçando a curiosidade da imprensa da época sobre sua sexualidade? Isso o incomodava?
CAUBY – Di Veras era marqueteiro. Produzia coisas para dar matéria. Mas, mesmo que essa curiosidade existisse, não me incomodava.

FOLHA – Com o tempo, além das muitas fãs, o sr. também se tornou um ídolo dos gays. Como recebe esse carinho?
CAUBY – Estou sabendo agora que sou ídolo dos gays. Claro que recebo com carinho. Fã é fã, independentemente de qualquer coisa, sexualidade, cor, nacionalidade etc.

FOLHA – O sr. acredita que, com sua postura no palco, tenha libertado o lado feminino de muitos homens?
CAUBY – Não, isso não aconteceu e não acontece.

FOLHA – O que seria Cauby sem Di Veras?
CAUBY – Ah, eu acho que não seria nada. Eu não saberia cantar do jeito que ele quis. Ele também colocou [criou] a voz.

FOLHA – E o que seria Di Veras sem Cauby?
CAUBY – [Ri] Nada.

FOLHA – O que o sr. não conseguiu fazer?
CAUBY – Acho que consegui tudo aquilo que mais desejei. Também fui para fora do Brasil, gravei lá [nos EUA], fiz um filme ["Jamboree", 1957, como Ron Coby]… Eu fiz muita coisa, aproveitei muito essa carreira. Não tenho frustração.

FOLHA – Se o sr. tivesse ficado nos EUA, quem seria Ron Coby ou Coby Dijon [outro codinome]?
CAUBY – California, I go…" [cantarola a versão em inglês de "Maracangalha", de Dorival Caymmi, que lançou em 1958].

FOLHA – Por que voltou? Por causa das fãs? CAUBY – Voltei de burrice, grande burrice. Voltei de saudade, muita coisa que eu tinha deixado aqui. Uma forçação de barra do Di Veras para eu voltar. E caí na burrice de voltar.

FOLHA – Di Veras dizia que o sr. era do mesmo nível que Frank Sinatra e Nat King Cole ou até melhor. O sr. concorda?
CAUBY – Concordo.

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Usei algumas músicas cafonas para fazer sucesso
 

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Voltei [dos EUA] por burrice; voltei por saudade
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FOLHA – Melhor até?
CAUBY – Melhor até. Poderia ter provado isso. Era só terem me deixado gravar o romântico. Porque "Maracangalha" era um samba.

FOLHA – O sr. já se disse capaz de gravar qualquer coisa: "Eu não tenho critério". Isso não atrapalhou a sua carreira?
CAUBY – De certa forma, sim. O Di Veras é que não deixava: "Não, isso aqui não é para você". Não era para o meu estilo, não era romântico. Não precisava gravar. Hoje é até o contrário: as pessoas gravam tudo e aparecem. A minha linha era romântica.

FOLHA – Com a bossa nova, o sr. passou a ser visto como cafona?
CAUBY – Acho que sim. Eu peguei uma fasezinha cafona.

FOLHA – O sr. era cafona ou havia um preconceito?
CAUBY – Eu usei algumas músicas cafonas para fazer sucesso. O público escolhe aquelas músicas de que gosta, não importa que sejam cafonas ou bonitas. Mas é claro que minha preferência sempre foi maior pelas bonitas, senão eu não seria o cantor de prestígio que sou.

FOLHA – Mas esse prestígio só veio depois da gravação com Elis Regina ["Bolero de Satã", em 1979] e do disco "Cauby! Cauby!" [em 1980]?
CAUBY – Foi. Foi um período muito bom.

FOLHA – Que cantoras foram importantes para o sr.?
CAUBY – Elis, Angela [Maria]. Elas me mostraram muita coisa no canto que eu não sabia. Passei a cantar com bossa, a ser um cantor versátil.

FOLHA – "Conceição" é a mulher da sua vida?
CAUBY – Foi a grande mulher da minha vida. Nunca cansei de cantá-la.

FOLHA – Se tivesse que escolher o grande momento da sua carreira, qual seria?
CAUBY – O momento em que tive sucesso em todo o Brasil com o lançamento de "Conceição" em rede nacional.

FOLHA – "Conceição" pode ter sido o maior sucesso, mas qual é a música da sua vida?
CAUBY – "Blue Gardenia", pois foi o primeiro sucesso.

FOLHA – O sr. tem mesmo a impressão, como já disse, de que vai morrer se parar de cantar?
CAUBY – Tenho.

FOLHA – E tem medo da morte?
CAUBY – Não. A morte é um ir e voltar. Ver do outro lado como é. Eu sou espírita. Acho que são uma ida e uma volta maravilhosas.

FOLHA – Como está sendo o envelhecer?
CAUBY – Engraçado, não me sinto envelhecendo. Interessante, não?

FOLHA – Existe um Cauby personagem e um Cauby real, fora do palco?
CAUBY – O Cauby é igual na rua, no palco, sempre respeitando aqueles que me conhecem. Não precisam gostar de mim. Me conheceu, eu já: "Oi".

FOLHA – Tem saudade do assédio das fãs?
CAUBY – Continua aqui [no bar Brahma].

FOLHA – Mas não rasgam mais suas roupas… Tem saudade de ser símbolo sexual?
CAUBY – Não tenho, não. Praticamente vivo fora do palco. Manter um nome assim é muito difícil. Eu fico muito feliz.

FOLHA – E qual foi a importância dos seus irmãos para a sua carreira?
CAUBY – Grande. Moacyr [Peixoto, pianista] me ensinou a cantar melhor. Eu cantava mais quadrado, gritava muito. Ele colocou a minha voz no lugar certo.

FOLHA – Na sua biografia ["Bastidores", de Rodrigo Faour], o sr. conta que apanhava da sua mãe de chinelo na cara. Foi bom?
CAUBY – [Ri] Foi. Era uma pessoa que me conhecia muito, então podia fazer e acontecer que estava tudo bem.

FOLHA – Em seus shows atuais, o sr. canta sentado quase o tempo todo. Está cantando pior por causa disso?
CAUBY – Não, porque tiro o ar do diafragma. Me dá até mais ar. Tem gente que joga o ar na barriga, mas tiro do diafragma.

FOLHA – O que o sr. ainda sonha em fazer?
CAUBY – [Nancy Lara pede licença para intervir e lista projetos possíveis, como um DVD para comemorar em 2009 os cinco anos de temporada no bar Brahma; o cantor sorri] Eu gosto muito de música. Depois, eu gosto muito de música. E, depois, eu gosto muito de música. Nada me fascina
 

 

"Deixa eu ouvir sua voz, meu amor!"
EM SÃO PAULO

Vestindo um paletó cinza e branco sobre calça preta com riscas de giz, Cauby canta durante uma hora em inglês, francês, italiano, espanhol e até português -da valsa tradicional "Deusa da Minha Rua" a "Primavera", do soulman Cassiano.
Só se ergue da cadeira vermelha de escritório para interpretar "Conceição", seu maior sucesso.
Sofrendo com o calor, usa um lenço branco para limpar o suor dos lábios, das têmporas, da orelha direita. Não economiza a voz, é ovacionado em "Bastidores" e sai de cena ao som do "Tema da Vitória", aquele do Ayrton Senna.
Deixa emocionadas fãs como a secretária aposentada Walderez Ivelise, que há 50 de seus 64 anos esperava conhecê-lo.
Na adolescência, quando chegou a juntar 700 fotos do ídolo (rasgadas a mando do ciumento primeiro marido), ela lhe enviou uma carta, e ele respondeu de próprio punho. Pois ela levou essa resposta para o bar Brahma, conseguiu entrar antes do show no camarim improvisado, beijou o cantor e, já chorando, clamou: "Deixa eu ouvir sua voz, meu amor!". Após alguns instantes de hesitação, a voz se fez ouvir: "Conceição, eu me lembro muito bem…".
Histórias assim, já presentes na biografia "Bastidores", lançada em 2001 pelo pesquisador Rodrigo Faour, também poderão estar no documentário que Nelson Hoineff quer fazer. Ainda há muito o que se falar de Cauby. Como todo mito, ele é infinito.

 

Documentário retratará luta contra o tempo
EM SÃO PAULO

Nelson Hoineff, 58, diz que ouve Cauby Peixoto desde criancinha. Já tentou se aproximar antes do cantor pensando num filme, mas foi só agora que o projeto engrenou e o contrato foi assinado.
Neste ano, enquanto lança "Caro Francis" (sobre Paulo Francis, em maio) e "Alô, Alô, Teresinha" (sobre Chacrinha, em novembro), o jornalista e cineasta acompanhará os passos do cantor tendo como enfoque sua luta para ser eterno. Por isso, o documentário já tem nome: "Cauby – Começaria Tudo Outra Vez". (LFV)

 
FOLHA – Por que Cauby?
NELSON HOINEFF – Há uma coisa nele que me encanta, e o filme vai ser construído em cima disso, que é o recomeço permanente. Cauby é um cara que conheci aos cinco anos e sua atitude é absolutamente idêntica hoje. Ele desafia o tempo, a queda. Fui ver noutro dia o show no bar Brahma, e 70% do público tinha 20 anos de idade. É incrível.

FOLHA – O objetivo é investigar o que é real e o que é personagem em Cauby?
HOINEFF – Totalmente. Na verdade, o que me fascina é que ele é um personagem. A luta do personagem do Cauby é a da neutralização do tempo. É a busca por não envelhecer.

FOLHA – O que ele tem de especial como artista?
HOINEFF – O que me interessa em um artista não é se o show é pirotécnico ou se a voz é boa, mas se está dialogando comigo. Eu reconheço isso em três ou quatro artistas brasileiros, como Caetano [Veloso], João Gilberto e Cauby. Em cada música que está interpretando, Cauby não está simplesmente jogando a voz, mas contando uma história. Ele sabe do que está falando.

FOLHA – Quando o filme começará a ser feito?
HOINEFF – Depende dos mecanismos de produção, mas já decidi: vou começar a gravar os shows agora, mesmo que não tenha saído verba de patrocínio.
 

Fonte Folha de S. Paulo

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