“Nunca foi tão urgente participar da política no Brasil”, defende sociólogo Edmundo Lima de Arruda Jr

 

Política: nunca foi tão urgente participar!

Por Edmundo Lima de Arruda Jr*

Paira no ar, nos corações e mentes a sensação de um país à deriva da corrupção e sem perspectivas de ideias e lideranças, vale dizer, sem luzes no final do túnel…

O sistema político apodreceu. Curiosamente ao lado dos brasileiros tendentes ao absoluto pessimismo quanto à possibilidade de sairmos do caos, há muitos outros efeitos negativos, mas também positivos, decorrentes do estado de podridão moral.

Muitos eleitores, saturados pela má política, pensam em simplesmente não comparecer às urnas, votar em branco, ou tornar o voto absolutamente nulo. Mas há também parte do eleitorado disposta  a votar em ultraconservadores, caso do candidato Jair Bolsonaro. Não há posição de esquerda mais autônoma à vista, como foi o caso da candidatura de Plínio Sampaio pelo PSOL em 2010.

Há significativa parcela de votos herdada de Lula, embora o constrangimento causado por  sucessivos escândalos provoque  fissuras no seio da militância petista de antigamente, ou próxima dela.

Temer se revelou o que sempre foi, um autêntico político tradicional, parte da ossatura fisiológica do PMDB com seus currais eleitorais tutelados em última instância por reacionários caciques regionais. Penso que o núcleo de caudilhos e corruptos daquele partido se encontra em franco declínio.

Não obstante as alternativas dos descrentes e extremistas, a maioria dos votantes se situa no centro das alternativas. A disputa presidencial do ano que vem pode ser considerada prematura para a emergência do novo. Isso porque o estertor da velha política encontra-se presente no espectro ideológico multicolorido. Alternativas eleitorais claramente inovadoras não estão disponíveis, ao menos até o presente momento

Jamais a política provocou tanta emoção nos brasileiros, embora revelada por sentimentos nocivos à democracia tais quais a indiferença e ódio, a descrença e revanchismo, sentimentos dominantes no cotidiano. Mas paradoxalmente estão dadas novas condições para a mudanças. Afinal, o pessimismo é uma porta de entrada para inúmeras filosofias da renúncia, e/ou posturas práticas típicas de resignação absoluta.

Mudanças pela via eleitoral constituem algo importante, mas viciadas pela cultura política vigente. Somente uma reforma política ampla contribuirá para mudar regras eleitorais capazes de fomentar práticas democráticas mais representativas e menos contaminadas pelas forças arcaicas do passado.

A criticada substituição da ação política das ruas pelas redes sociais comporta problemas mas também gera sementes novas. Tudo depende de como o real e o virtual se articulam, produzindo esclarecimento ou obscurantismo. Também não bastam mudanças jurídicas nas formas de representação, há que se produzir uma transformação de atitudes dos brasileiros nas instituições da sociedade civil.

Da família ao trabalho, da escola às instâncias da vida no dia-a-dia, há que incubar posturas cidadãs. Não é possível uma vida mais gregária sob condutas isoladas, mesmo se pertinentes a grupos étnicos ou por afinidades outras. A condição do outro em situação de sofrimento – em qualquer parte do mundo, por exemplo, torna-se uma questão que a todos concerne.

Participar é muito importante para registrar uma postura capaz de romper com o que mais prejudica a construção institucional da democracia: o conformismo. Não participar é coonestar com o que aí está, reproduzindo um quadro social no qual direita e esquerda, hoje bandeiras desbotadas, mas vivas do que nunca, se igualam mais que se diferenciam, confundindo e alienando a vida concreta das pessoas e suas compreensões do mundo.

Essa participação pode ser construída com alguns cuidados tanto no plano macro como micro social. Os cancros do populismo e do voluntarismo caracterizam o oportunismo mercenário dos políticos de plantão.

No nível macro social temos a dimensão do imediato nos próximos anos,  das escolhas para presidente, governadores, senadores, deputados, vereadores, seguindo três passos nada heróicos e/ou retóricos, pois são modestos: 1) não votando em candidatos com a ficha suja ou mesmo sobre os quais pesem reiteradas suspeitas de corrupção; 2) não emprestando apoio a nenhum candidato reconhecido por posturas de intolerância e defesa de preconceitos; 3) não apoiando postulantes a cargos políticos que defendem ideologias totalitárias, sejam elas fundadas no nazismo seja no comunismo.

Na esfera micro das ações sociais temos o imediato das ações políticas para a próxima década. Elas devem ser intensificadas como maneira de fazer política começando com os mais próximos e segundo as suas necessidades mais prementes. Essa tendência permitirá ampliar o leque de identidades e atitudes, unindo pessoas cada vez na direção da crítica social com capacidade concreta de ampliar os horizontes sobre o drama humano, contribuindo para mudar a vida de pessoas.

Atenção redobrada com a abstração de pautas genericamente construídas em nome de uma classe social redentora. Ela reverbera uma retórica descolada do social cujo efeito deletério é o conhecido autoritarismo de certas vanguardas entorpecidas pela teologia das Luzes.

Os abstratos são importantes mas necessitam do mergulho social que é a verificação histórica tão aconselhada por Bertrand Russel. Quando não alicerçados nas vivências e aventuras (das sociedades de mercado e dos socialismos reais) mas servem como mercadoria a ser capitalizadas como teses nas paróquias acadêmicas ou como doutrinas de baixa densidade conceitual em certos marxismos da marmita positivista. Ambas acabam desembocando no terreno conservador por incapacidade de atualização de conceitos na realidade.

As práticas micro sociais perfazem múltiplas ações e atitudes fixadoras da diferença no exercício da democracia direta e apontam para mudanças de baixo para cima. A participação deve ser prática continuada e múltipla, nas assembleias e eleição de síndicos, de dirigentes de categorias de trabalhadores, diretorias de conselhos comunitários, gestão de escolas em todos os níveis, ONGs com caráter protetivo do ambiente, dos consumidores, dos vulneráveis (menores e idosos, deficientes), etc.

A discussão de projetos de desenvolvimento passa por reflexões complexas mas que deverão ser enfrentadas nos coletivos micro e macro sociais, com duas indagações aparentemente simplórias: 1) como concebermos uma regulação social envolvendo representantes e representados de maneira mais direta e intensa,  permitindo o incremento de compromissos solidários com causas públicas, integrando interesses diferenciados em pautas  comuns de convivência para esta e outras gerações; 2) como exercitarmos um pensamento no qual o problema local possa ser contextualizado em face dos problemas globais de nosso tempo; tais quais o meio ambiente, as políticas neoliberais, as ideologias e teorias disponíveis para compreender os impasses e possibilidades que nos situam hoje em face do futuro, vale dizer, com capacidade de semear alternativas de liberdade e amor, diminuindo o sofrimento humano e fomentando a emancipação efetiva dos cidadãos.

Romantismo? Não, pois se trata de algo mais importante e necessário que a própria vida: a luta por liberdade, sem a qual nenhuma outra vale a pena e sem a qual continuaremos a procrastinar uma convivência, aqui ou seja aonde for, que se possa considerar verdadeiramente humana.

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Edmundo Lima Jr

*Edmundo Arruda Jr, cuiabano radicado em Santa Catarina é doutor em sociologia do desenvolvimento pela Université Catholique de Louvain, Bégica; pós doutorado pelas Université Paris VIII Saint Denis (1995/1996) e Université Paris X Nanterre (2008/2009). Professor titular aposentado da UFSC. Autor entre outros dos seguintes livros “Direito Moderno e Mudança Social”, “Direito Alternativo e Contingência histórica”, “Direito e Século XXI”, “Direito, Neoliberalismo e Pós-Modernidade”, “Adeus Direito Alternativo (?) (!).

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