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Filme Z – A Cidade Perdida é nova tentativa de explicar o sumiço de Fawcett, aventureiro ingles, nas matas de MT

Cena de Z – A cidade perdida

 

Filme tenta explicar desaparecimento do aventureiro Fawcett

Z – A Cidade Perdida, lançado timidamente em Cuiabá, é um épico produzido por Brad Pitt e estrelado por Charlie Hunnam (Rei Arthur) e Robert Pattison (Crepúsculo)

GIOVANNI RIZZO
Do Observatório do Cinema

Alguns cineastas parecem ter uma visão panorâmica do cinema, um olhar quase totalizante desse ofício, uma compreensão não só das estruturas narrativas e das composições em movimento, mas sim um conhecimento da arte de fazer filmes como um todo, que passa pela visão estética, pelo entendimento de seu lugar numa história do cinema e das temáticas abordas ao longo de seu trabalho. O americano James Gray, trabalho após trabalho, demonstra que é um dos nomes que podem ser inseridos nessa categoria, que na construção de suas obras demonstra uma coerência muito grande com sua maneira de pensar e, principalmente, de olhar o cinema.

James Gray em seu sexto longa-metragem realiza seu trabalho mais ambicioso, um filme com um grande elenco, um épico ambientado em boa parte na Amazônia, com uma grande duração. Gigantesco em vários os sentidos, até mesmo em cinema. Z: A Cidade Perdida parece ter saído de uma outra época, parece ter sido realizado com a classe primordial dos grandes épicos hollywoodianos dos anos 1940. No filme e na concepção do cineasta reside uma consciência enorme dessa raiz historiográfica do cinema, não sendo um realizador que apenas se utiliza de imagens cristalizadas por um imaginário cinéfilo, mas sim que investiga a fundo os símbolos essenciais do cinema americano. O cinema policial em seus três primeiros filmes (Fuga para Odessa, Caminho Sem Volta e Os Donos da Noite), o melodrama em sua obra subsequente (Amantes, ainda o melhor de Gray), uma obra de transição entre melodrama e o romance histórico (Era Uma Vez em Nova York) e agora a utilização essencial do cinema épico e de sua grandiosidade.

Dessa forma, Gray não pretende modernizar essa forma de cinema através de seus procedimentos técnicos e estéticos, pelo contrário, o cineasta filma da forma que David Lean, ou Michael Powell e Emeric Pressburger, ou King Vidor filmavam seus épicos. Há um cuidado enorme com a composição do quadro, com os acertados movimentos de câmera, com maravilhamento do cenário – principalmente nas tomadas externas, na grandiosidade do plano e na forte representação da natureza. James Gray utiliza-se um padrão visual muito forte, uma estética que remete a outro tempo e por seu deslocamento histórico surge ainda mais bela, sem que isso seja apenas um embrulho de uma caixa vazia. Se em sua aparência Z: A Cidade Perdida retoma uma tradição de um outro tempo, em sua abordagem temática e no aprofundamento de seus personagens o longa segue com uma cabeça extremamente contemporânea, sagaz e inteligente.

O longa conta a história de Percy Fawcett (Charlie Hunnam), um sargento do exército britânico, levado no início do século XX para uma expedição até a Amazônia, entre o Brasil e a Bolívia, com finalidades topográficas e principalmente geopolítica, a fim de manter as fronteiras daqueles países. Lá, acompanhado de seu escudeiro, Henry Costin (Robert Pattinson), Fawcett fica fascinado pelos indícios de uma possível civilização no meio da floresta, algo próximo às antigas lendas de Eldorado e afins, todavia o interesse do protagonista é pela matéria humana e arqueológica presente ali e não pela possível riqueza daquela cidade.

Se existe o típico exotismo presente num filme épico sobre as florestas tropicais, há também uma desconstrução constante desse olhar, como se Gray reconstituísse uma visão da época e aos poucos fosse mostrando um valor humano totalmente diferenciado naquele mundo ainda não mapeado. Essa é a grande jornada do protagonista, revelar um mundo tão civilizado quanto o seu, mostrar uma floresta tão maravilhosa quanto às metrópoles modernas. Z: A Cidade Perdida é muito menos sobre essa exploração em si, mas como Fawcett encara isso como seu destino, como seu objetivo, como sua predestinação.

Os filmes de Gray sempre colocam em sua frontalidade seres com essa predestinação, que lutam para que isso se concretize ou que tentam fugir de seu destino. Como o filho de policial de Os Donos da Noite que se vê obrigado a seguir os passos do pai, ou como o protagonista de Amantes fadado à desilusão amorosa e aceitação de uma vida comum. Um fator extremamente presente na filmografia de Gray, aqui surge como essa obsessão por encontrar algo que desmistifique todo o curso de uma história, como se cada passo do protagonista o levasse de volta àquele local. Fawcett, como dito nos primeiros minutos do longa, não é um homem com origens e apenas descobrindo uma lenda como Z poderia escrever seu nome na história. Fawcett é ao mesmo tempo obcecado por encontrar o impossível, da mesma forma que estaria fadado ao esquecimento e o infortúnio. A glória e o sacrifício caminham lado a lado, longe de uma Inglaterra em que seu destino não tem origens. É esse pensamento que torna aquela Amazônia tão fascinante e tão assustadora, tornando-se, na mesma medida, inferno e paraíso. É esse pensamento que transforma o protagonista num ser tão profundo.

 

 

O mistério do coronel Fawcett que sumiu na selva brasileira

Antônio Callado, escritor e jornalista brasileiro, foi um dos muitos autores que se dedicaram ao mistério do desaparecimento do aventureiro inglês no Brasil

LUIZ FERNANDO ZANIN ORICCHIO
Da Agência Estado

O que aconteceu ao coronel Fawcett? Essa pergunta vem sendo feita desde 1925, quando o oficial britânico Percy Harrison Fawcett desapareceu na selva brasileira, em companhia do filho, Jack Fawcett, e de um amigo deste, Raleigh Rimmel. A pequena equipe, comandada pelo coronel, embrenhou-se na selva em busca de uma mítica “cidade perdida”, que jamais chegou a ser encontrada. Desde então, as expedições de resgate de Fawcett, e depois de busca de seus restos mortais, se sucederam. A primeira foi organizada em 1928 pelo comandante George M. Dyott. Não deu em nada.

O caso Fawcett repercutiu também no campo literário e deu origem a uma bibliografia de tamanho nada desprezível. Entre as obras disponíveis no Brasil encontram-se A Verdadeira História de Indiana Jones, de Hermes Leal (Geração Editorial, 1996), e Z – a Cidade Perdida, de David Grann (Cia. das Letras, 2009), que será adaptada para o cinema, com Brad Pitt no papel do expedicionário inglês. A elas se junta agora uma pérola dessa estante consagrada a Fawcett – Esqueleto na Lagoa Verde, relato de Antonio Callado sobre sua viagem de 1952 ao Xingu, local onde o inglês teria desaparecido.

Reeditado agora pela Companhia das Letras em sua coleção Jornalismo Literário, o livro foi publicado pela primeira vez em 1953. Mantém interesse até hoje por alguns motivos, alguns óbvios, outros nem tanto. Em primeiro lugar, porque, apesar de as pesquisas sobre Fawcett terem continuado ao longo das quase seis décadas decorridas depois da publicação original, Esqueleto na Lagoa Verde ainda é capaz de expor ao leitor contemporâneo um panorama bastante completo do caso. Isso graças ao estilo objetivo e sintético de Callado, então jornalista do matutino carioca Correio da Manhã. Profissional dedicado, Callado fez direitinho a sua lição de casa para escrever o relato. Esteve in loco, como manda o figurino, e lá conversou com as pessoas envolvidas no caso. Nem por isso deixou de pesquisar e ler tudo o que havia disponível, antes e depois da viagem, com o objetivo de emprestar consistência à narrativa.

Além disso, entre a vasta produção dedicada a Fawcett, Esqueleto na Lagoa Verde destaca-se pela qualidade literária. Callado, já na época autor de ficção (havia escrito a peça O Fígado de Prometeu, em 1951), apurava seu estilo na reportagem, nessa coabitação às vezes tão problemática entre o jornalismo e a literatura (Hemingway dizia que o jornalismo era uma excelente profissão para um jovem escritor, desde que fosse abandonado a tempo).

Como resultado dessa sua experiência no Xingu, Callado tira uma excelente reportagem, na verdade uma das melhores já escritas sobre esse tipo de assunto. Revela-se jornalista de mão cheia. Mas constrói o relato do ponto de vista do escritor. Assim, como assinala o crítico Davi Arrigucci Jr. em um dos posfácios ao livro (o outro é do jornalista Maurício Stycer), Esqueleto na Lagoa Verde é, também, “uma espécie de desconstrução da reportagem tradicional”. De fato, em seu relato, Callado parece menos um detetive investigando em busca da verdade e mais um pesquisador cético, que avança em suas descobertas, mas a cada passo duvida de si mesmo, dos relatos e dos fatos que lhe são oferecidos pelas testemunhas.

Ambiente. Por fim, O Esqueleto da Lagoa Verde mostra o futuro grande romancista Antonio Callado em contato com o ambiente que lhe forneceria material para aquele que, para muitos, é sua maior obra (ou pelo menos a mais conhecida), o romance Quarup, publicado em 1967. No livro, uma reflexão sobre o Brasil da ditadura e da luta armada, reencontra-se a magia do Xingu e também personagens reais que Callado conhecera em sua expedição em busca dos restos de Fawcett. É o caso de Anta, exemplo, para ele, da maneira “estranha” como os índios exprimem suas ideias aos ouvidos “civilizados”. No romance, Anta seduz uma das personagens femininas, Sônia, que com ele foge, para pasmo dos companheiros brancos. Em mais de um aspecto, portanto, a viagem de Callado ao Xingu lhe forneceu elementos não apenas para a estrutura do romance, mas para sua visão de mundo. Lembre-se que, em Quarup, o centro mítico do Brasil, numa passagem de alto simbolismo, é o gigantesco formigueiro situado exatamente no meio do Xingu.

 

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Fawcett

Enfim, a história de Fawcett tinha tudo para interessar ao ficcionista iniciante e jornalista experiente que era Antonio Callado naquele início dos anos 1950. Nascido em Devon em 1867, Fawcett era um aventureiro conhecido pelo destemor e pela resistência física. Operou no Ceilão, como agente do serviço secreto britânico, e foi lá que aprendeu as técnicas de sobrevivência na selva que lhe valeriam em suas andanças brasileiras. Foi amigo de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes e era um típico expedicionário do Império Britânico, aquele sobre o qual o sol nunca se punha. Fawcett esteve no Brasil pela primeira vez em 1906, numa viagem da Royal Geographical Society organizada com a finalidade de mapear a Amazônia. Depois desta, realizou mais sete expedições pelo Brasil, até desaparecer, em 1925. O que o movia era a obsessão em encontrar a tal cidade perdida, que ele chamava de Z, e segundo os relatos, poderia se encontrar tanto em Mato Grosso como na Bahia.

Nas décadas seguintes ao desaparecimento foram formadas várias expedições de resgate, sem qualquer sucesso. A verdade sobre o fim de Fawcett, Jack e Rimmel perdia-se no cipoal de versões contadas pelos índios. Fawcett tornara-se lenda, objeto de relatos míticos que se complementavam ou se contradiziam entre si. Havia quem sustentasse, muito anos depois de sumir sem deixar traço, que Fawcett estaria ainda vivo, morando com os indígenas depois de ter se desiludido com a civilização ocidental da qual provinha. Outras, que teria sido assassinado por índios depois de algum desentendimento. Em versões diferentes, teria sido devorado por canibais.

Em 1952, Assis Chateaubriand, capo dos Diários Associados, resolveu promover a sua própria expedição. Na verdade, Chatô já acompanhava o caso Fawcett com interesse desde a desaparição do aventureiro. Em 1943, uma missionária relatou ter encontrado um índio de pele clara e olhos azuis que seria filho de Jack Fawcett com uma índia. Chatô destacou seu repórter Edmar Morel, que foi ao Xingu e lá encontrou o índio Dulipé, apresentado aos leitores do Diário da Noite como “o deus branco do Xingu”. Dulipé foi levado à civilização, onde se comprovou não passar de um pobre índio albino. Morreu anos depois em Cuiabá, consumido pelo álcool.

O motivo da expedição de 1952 foi a notícia de que o sertanista Orlando Villas Boas tinha obtido dos índios calapalos a confissão de que haviam de fato assassinado Fawcett e seus companheiros em 1925. Admitiam o crime, depois de se certificarem que “os brancos não estavam mais brabos” com o sumiço de Fawcett. Indicaram também o local onde o corpo fora enterrado e lá uma ossada foi encontrada em cova rasa. Brian, o outro filho de Fawcett, veio da Inglaterra para acompanhar o desenvolver dos fatos. Chatô farejou uma grande história e destacou um time de repórteres da revista O Cruzeiro para a cobertura. Callado, que trabalhava no jornal Correio da Manhã, foi convidado para a missão. Levar um repórter do concorrente a tiracolo em uma cobertura sensacional – eis aí um fato inédito na história da imprensa brasileira, talvez mundial, e que só poderia passar pela cabeça heterodoxa de Chatô.

A história terminou em fiasco. Submetidos a exames antropométricos, os ossos não puderam ser identificados como sendo de Fawcett. A arcada dentária não corresponde e a altura não bate com os registros físicos que se tinham do expedicionário. Mesmo assim, Villas Boas manteve, até o fim da vida, a convicção de que aqueles ossos pertenciam ao aventureiro inglês. O sertanista conservou o esqueleto em sua casa, debaixo da cama, por 18 anos, até que, pressionado por sua mulher, enviou-o ao Instituto Médico Legal da USP, onde espera por um teste de DNA que os remanescentes da família Fawcett se recusam a realizar. Permanece o mistério. E, portanto, continua o estímulo para boas histórias em torno do caso. Tudo é mito.

 

 

FONTE DIÁRIO DE CUIABA MT

 

 

Categorias:Cidadania Destaque

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