Menino sírio parecia dormir. Mas não. Estava morto

de camisa vermelha, bermuda azul e tenis o pequeno Aylan Kurdi morreu na praia depois do naufrágio que matou parte de sua familia que tentava fugir da miséria e da violência da guerra na Siria

Opinião

O menino sírio

DAVID COIMBRA, no Zero Hora

Como queria não ter visto a foto daquele  menininho sírio morto numa praia da Turquia.

Era um menininho de uns três anos de idade. Ele estava caído de bruços na areia, com a cabeça de ralos cabelos negros voltada para o mar.

Um menino de três anos de idade, você sabe no que pensa um menino de três anos de idade? Em rir. Nada mais. Um menino de três anos de idade só faz brincar. Ele parece um bicho. Acho que é por isso que as crianças gostam tanto de bichos. Porque eles são parecidos. Walt Disney foi genial entendendo isso e criando uma cidade de patos, Patópolis, e um rato detetive que tem como melhor amigo um cachorrão bobo. As crianças só podiam adorar.

 

De que personagem-bicho será que gostava o menininho sírio? Com essa idade eles gostam dos Backyardigans, que são uns bichinhos meio estranhos, uns insetos, acho. Mas será que ele via os Backyardigans? Será que ele tinha TV em casa? Tomara que sim.

 

O menininho estava até bem trajado, com uma bermuda azul da ONU, sapatinhos e camisa vermelha. Alguém deve ter cuidado dele no momento de vesti-lo. É um consolo.

Sabe, essa semana nós entrevistamos, no Timeline da Gaúcha, a mãe daquele rapaz de 17 anos que foi morto a garrafadas em Charqueadas, mês passado. Ela começou a chorar já na primeira pergunta. Fiquei sem saber como reagir. Gaguejei. Engasguei. Então ela falou:

— Eu cuidei tanto dele, e não adiantou de nada.

Foi aí que descobri o que dizer. Na essência, disse para ela que adiantou, sim. Adiantou. Porque ela zelou pelo filho dela, ela fez tudo para que ele tivesse uma boa vida. Nós não sabemos quanto tempo temos debaixo do sol. Pode ser 17 anos, como o garoto de Charqueadas; pode ser três, como o menininho sírio; pode ser 120, que é o tempo que Deus deu ao homem na Terra depois do Dilúvio, segundo o Gênesis. Ninguém sabe. Mas, se neste tempo a pessoa amou e foi amada, foi um tempo ganho. A mãe do garoto de Charqueadas deu-lhe amor e cuidados. Ela era a certa. Ela não tem mais seu filho, mas, no tempo que lhe coube, ele viveu em amor. E os filhos dos outros pais, os filhos sobreviventes, os que mataram, que tipo de pessoas eles são? O que sentem os pais deles? Que monstros esses pais geraram? Valeu a pena? Decerto que não.

Talvez o menininho sírio tenha tido alguém que zelasse por ele e o acalentasse. Alguém que lhe vestiu a bermuda, a camiseta, os sapatinhos. Alguém que lhe cortou curto o cabelo preto. Tendo vivido apenas três anos, ele não teve tempo de perceber a maldade do mundo. Mesmo que tenha experimentado o horror dos homens maus que estão provocando o êxodo de sírios e africanos, mesmo que tenha experimentado a insensibilidade de europeus que querem rechaçar tristes refugiados, mesmo assim sua cabecinha deve ter sido ocupada mais por bichos que falam e que não falam, por fantasias de criança, por coisas que fazem rir.

Um menininho, o que ele quer é rir.

Um menininho não faz mal a ninguém, ele não tem malícia, ele não conhece o valor do dinheiro, ele não sente gana de sexo, nem de poder, nem de glória, nada. Ele é como um bichinho. Gosto de fazer cócegas em meninos, para vê-los rir. Mais lindo que a risada de um menino, só um menino dormindo. Como é bonito ver um menino dormindo. Aquele menininho sírio parecia estar dormindo naquela praia. Mas, não. Ele estava morto. Morto. Aos três anos de idade. Não, ah, Deus, não. Não queria ter visto a foto daquele menininho.

FONTE ZERO HORA

Os refugiados não são seres humanos?

Por Leonardo Boff, em seu blog:

O grau de civilização e de espírito humanitário de uma sociedade se mede pela forma como ela acolhe e convive com os diferentes. Sob este aspecto a Europa nos oferece um exemplo lastimável que beira à barbárie. O menino sírio de 3-4 anos afogado na praia da Turquia simboliza o naufrágio da própria Europa. Ela sempre teve dificuldades de aceitar e de conviver com os “outros”.

Geralmente a estratégia era e continua sendo esta: ou marginaliza o outro, ou o submete ou o incorpora ou o destrói. Assim ocorreu no processo de expansão colonial na Africa, na Asia e principalmnete na América Latina. Chegou a destruir etnias inteiras como aquela do Haiti e no México.

O limite maior da cultura européia ocidental é sua arrogância que se revela na pretensão de ser a mais elevada do mundo, de ter a melhor forma de governo (a democracia), a melhor consciência dos direitos, a criadora da filosofia e da tecnociência e, como se isso não bastasse, ser a portadora da única religião verdadeira: o cristianismo. Resquícios desta soberba aparece ainda no Preâmbulo da Constituição da União Européia. Aí se afirma singelamente:

“O continente europeu é portador de civilização, que seus habitantes a habitaram desde o início da humanidade em suecessivas etapas e que no decorrer dos séculos desenvolveram valores, base para o humanismo: igualdade dos seres humanos, liberdade e o valor da razão…”

Esta visão é somente em parte verdadeira. Ela esquece as frequentes violações destes direitos, as catástrofes que criou com ideologias totalitárias, guerras devastadoras, colonialismo impiedoso e imperialismo feroz que subjudaram e inviabilizaram inteiras culturas na Africa e na América Latina em contraste frontal com os valores que proclama. A situação dramática do mundo atual e as levas de refugiados vindos dos países mediterrâneos se deve, em grande parte, ao tipo de globalização que ela apoia, pois configura, em termos concretos, uma espécie de ocidentalização tardia do mundo, muito mais que uma verdadeira planetização.

Este é o pano de fundo que nos permite entender as ambiguidades e as resistências da maioria dos países europeus em acolher os refugiados e imigrantes que vêm dos países do norte da Africa e do Oriente Médio, fugindo do terror da guerra, em grande parte, provocada pelas intervenções dos ocidentais (NATO) e especialmente pela política imperial norteamericana.

Segundo dados o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) somente neste ano 60 milhões de pessoas se viram forçadas a abandonar seus lares. Só o conflito sírio provocou 4 milhões de desalojados. Os países que mais acolhem estas vítimas são o Líbano com mais de um milhão de pessoas (1,1 milhão) e a Turquia (1,8 milhões).

Agora esses milhares buscam um pouco de paz na Europa. Somente neste ano cruzaram o Mediterrâneo cerca de 300.000 pessoas entre imigrantes e refugiados. E o número cresce dia a dia. A recepção é carregada de má vontade, despertando na população de ideologias fascistóides e xenófobas, manifestações que revelam grande insensibilidade e até inumanidade. Foi somente depois da tragédia da ilha de Lampedusa, ao sul da Itália, quando se afogaram 700 pesoas em abril de 2014 que se colocou em marcha uma operação Mare Nostrum com a missão de rastrear possíveis naufrágios.

A acolhida é cheia de percalços, especialmente, por parte da Espanha e da Inglaterra. A mais mais aberta e hospitaleira, apesar dos ataques que se fazem aos acampamentos dos refugiados, tem sido a Alemanha. O governo filo-fascista de Viktor Orbán da Hungria declarou guerra aos refugiados. Tomou uma medida de grande barbárie: mandou construir uma cerca de arame farpado de quatro metros altura ao longo de toda fronteira com a Sérbia, para impedir a chegada dos que vêm do Oriente Médio. Os governos da Eslováquia e da Polônia declararam que somente aceitariam refugiados cristãos.

Estas são medidas criminosas. Todos estes sofredores não são humanos, não são nossos irmãos e irmãs? Kant foi um dos primeiros a propor uma República Mundial (Weltrepublik) em seu último livro A paz perpétua. Dizia que a primeira virtude desta república deveria ser a hospitalidade como direito de todos e dever para todos, pois todos somos filhos da Terra.

Ora, isso está sendo negado vergonhosamente pelos membros da Comunidade Européia. A tradição judeo-cristã sempre afirmou: quem acolhe o estrangeiro, está hospedando anonimamente Deus. Valham as palavras da física quântica que melhor escreveu sobre a inteligência espiritual – Danah Zohar: ” A verdade é que nós e os outros somos um só, que não há separatividade, que nós e o ‘estranho’ somos aspectos da única e mesma vida”(QS:consciência espiritual, Record 2002, p. 219). Como seria diferente o trágico destino dos refugiados se estas palavras fossem vividas com paixão e compaixão.


—–

Quando a imagem da morte é necessária para nos lembrar dos vivos

Leonardo Sakamoto, em seu blogue

Li reclamações de leitores de jornais e sites indignados com a veiculação de uma imagem do corpo morto de um pequeno menino sírio, afogado e estirado em uma praia da Turquia após uma tentativa fracassada de sua família de atravessar o mar para fugir da guerra.

Publicadas com cuidado que o tema merece, por mais que doam aos olhos e mexam com o estômago e atrapalhem o jantar ou o café da manhã, imagens têm o poder de trazer a realidade para perto.

É fácil ficar indiferente diante de números de violência, mas com rostos a situação muda de figura. Dizer que milhares de pessoas morrem afogadas na tentativa de fugir do conflito na Síria ou de fome na África é uma coisa. Mas mostrar a morte de uma criança, usando as mesmas roupas e, quiçá, o mesmo corte de cabelo que o filho de qualquer um de nós é outra.

Ou trazer o corpo frio de um rapaz moreno, de olhos bonitos, que era marceneiro, e de sua noiva, professora, que gostava de cantar de manhã.

Ou ainda os cadáveres de três adolescentes de uma mesma família, que sempre esperavam até a noite acordadas a chegada do pai que trazia comida para dentro de casa.

Ou de um motorista de uma ambulância, que tinha orgulho do seu trabalho.

O outro deixa de ser estatística, e passa a ser um semelhante, pois é feito de carne e osso e não de números. Nesse momento, há uma aproximação, uma identificação, fundamental para empurrar os espectadores de um conflito para ações, de protesto, de boicote. Seja em uma crise humanitária no Mediterrâneo, em um massacre no Oriente Médio, em uma guerra entre grupos rivais na África, na luta pela independência do Sudeste Asiático ou por conta da violência armada em favelas das grandes cidades do Brasil.

Vivemos em um mundo cuja informação se espalha em tempo real. Mas, mesmo com essa facilidade, muitos se furtam de ter acesso ao mundo.

Ao mesmo tempo, a tecnologia bélica transformou certos conflitos em cenas de videogame, filtrando sangue, suor e vísceras pelas lentes de drones e câmeras de aviões e helicópteros. O que chega, não raro, à tela de uma TV, de um computador ou de um smartphone é algo asséptico, palatável, consumível em doses homeopáticas. Pois não parece humano e sim ficção.

Quando a comunicação é globalizada, cresce a força e a importância de ações globalizadas pela paz. Acertam os veículos de comunicação que divulgaram as imagens, como o UOL, que não configuram sensacionalismo como os programas espreme-que-sai-sangue da TV, que repetem aquilo que já se sabe pelo tesão da audiência. Mas são uma declaração pública contra a barbárie.

Diante disso, a ignorância do que acontece à nossa volta deixa de ser uma benção e passa a se configurar delinqüência social.

2set2015---soldado-turco-carrega-corpo-de-crianca-que-se-afogou-em-uma-tentativa-fracassada-de-chegar-ate-a-ilha-grega-de-kos-em-bodrum-na-truquia-1441206455190_615x470

3 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 191.33.164.194 - Responder

    Boff e Sakamoto, dois Leonardo’s admiradores de ditatuduras assassinas e sanguinárias.

    O Sakamoto ainda tem a agravante de ser o líder da seita dos adoradores da Vaca Sagrada.

    Será que essa dupla não pensa nem por um segundo que a sua grande líder desmiolada defende o diálogo com o Estado Islâmico, um dos fatores que levam os Sírios a fugir em massa e acabam se afogando no mediterrâneo.

    Mas eles sempre ficarão do lado dos “cumpanherus cortadores de cabeça” porque eles são contra uzamericanus”.

  2. - IP 191.222.15.215 - Responder

    É duro emitir opinião politica nesta hora , com uma imagem tão triste como essa; mas o fato é que hoje a guerra mais selvagem em curso neste infausto mundo é a da Síria, e o mundo dos ricos quer apenas criar barreiras para se protegerem. Será possível que todas as forças boasdo mundo,os países ocidentais, não podem parar essa matança? Essa imagem é, sim, chocante mas, em 1994, durante cem dias a pequena e pobre Ruanda viu milhares de crianças serem mortas a fação e porrete em apenas cem dias, cem dias e nada foi feito. Não tenho razoes mais para crer neste mundo, que se degenera cada vez mais.

  3. - IP 177.73.247.218 - Responder

    que dia aconteceu??

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

dois × 4 =