PREFEITURA SANEAMENTO

Nikelen Witter: Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte

Nikelen Witter

Histórias, elucubrações e o que der na veneta

Lembrando Antígona

Antígona surpreendida pela guarda enquanto prestava culto e sepultura ao irmão Polínice.

Eu tenho um caso de amor com Antígona. Longos e longos anos redescobrindo-a vez por outra, sempre grandiosa, sempre extraordinária. Mil coisas podem ser ditas sobre ela e ainda restará o que pensar. As camadas que revestem a personagem parecem infinitas, pois se renovam a cada leitura e, em essência, está lá a narrativa de um amor que não hesita, que não se diminui. A dignidade de Antígona é esteticamente bela e metaforicamente feroz. Mesmo sendo princesa, ela é mulher, sua linhagem é amaldiçoada, seu sexo está a serviço do outro. Não há nada que ela possa. Ninguém quer ouvir suas razões. Seu dever para com o mundo é calar e obedecer. No entanto, Antígona se posta em pé, não se verga, não se dobra, reivindica o direito de ter consciência, de ter deveres para consigo mesma, de ser fiel ao que acredita, ao que entende do mundo.

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Antígona é um libelo contra a tirania. É essa eterna dúvida entre o que me é exigido e o que eu quero, entre quem sou e como o mundo deseja que eu me comporte. Os deveres que ela clama são, claro, auto impostos e sua decisão, já tomada desde as primeiras linhas da peça de Sófocles, não isenta de perceber sob ela as lacerações dolorosas da escolha. Esse é, para mim, um ponto fundamental do mito e da peça: nenhum dos caminhos que se apresentam para Antígona são isentos de dor, qualquer um deles irá levá-la a um tipo de morte, e ela escolhe o que lhe parece mais suportável, continuar fiel a si mesma.

Filha de Édipo e Jocasta, Antígona sobreviveu ao horror do incesto que levou o pai a cegar-se e a mãe/avó ao suicídio. Confrontada com a morte dos dois irmãos numa mesmo dia, ela se vê obrigada a acolher a ordem de seu tio Creonte, agora no papel de rei de Tebas. Um dos irmãos, Etéocles, que morrera defendendo Tebas do ataque de exércitos estrangeiros deveria ser enterrado com honras. Já Polínice, que se valera de estrangeiros para fazer valer seu direito ao trono, deveria ter o corpo abandonado ao tempo e às feras. Para os gregos antigos não poderia haver pior sentença. O corpo insepulto era a desgraça da alma que jamais encontraria descanso ou adentraria ao mundo dos mortos. Uma sentença de horror pela eternidade.

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As duas irmãs sobreviventes dão voz às possibilidades. Ismena resolve calar, pois teme a sentença de morte que virá à sua desobediência. Antígona sabe da morte, mas esta a apavora menos que conviver com a memória ultrajada do irmão. A apavora menos do que conviver consigo mesma e a certeza de não ter agido com sua consciência. O dilema de Antígona não se perdeu nos milênios que avançam entre a peça e os dias de hoje. Sua decisão, contudo, ainda soa revolucionária.

 FON TE: SUL21
Categorias:Quebra Torto

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