“NEM SÓ DE ORQUESTRA VIVE O HOMEM” – Cristina Campos tomou posse na Academia Mato-grossense de Letras questionando rumos da Cultura em nosso Estado

Cristina Campos no lançamento de seu livro "O Falar Cuiabano"

Cristina Campos no lançamento de seu livro “O Falar Cuiabano”

“Nem só de orquestra vive o homem”

Cristina Campos toma posse na Academia Mato-grossense de Letras questionando rumos da Cultura em nosso Estado

BEATRIZ SATURNINO
DIÁRIO DE CUIABÁ

E lá vai ela, Cristina Campos, a consagrar suas obras na Academia Mato-grossense de Letras (AML/MT), como imortal da cadeira de número 16, neste sábado, dia 2 de maio. Ela assume prometendo transformação na cultura mato-grossense, e trabalhar pela materializando de obras inéditas da literatura que ainda se encontram sob a guarda das famílias e que correm o risco de se perderem. Neste caso, estão trabalhos de nomes como Ricardo Guilherme Dicke, Silva Freire, Franklin Cassiano e Ulisses Cuiabano, entre outros.

“Ao assumir a Academia, o que realmente quero é potencializar a possibilidade de publicar textos inéditos de grandes escritores de Mato Grosso. Muitos papéis estão tão velhos que se desmancham nas mãos. No caso de Dicke, só de romances tem mais de 10 inéditos, alguns escritos em 1968. O que eu posso dizer é que as editoras tem muito boa vontade, porém não tem recursos para bancar e materializar essas obras, fazer acontecer”, avalia Cristina.

A literata ainda questiona o modo de fazer política do Governo do Estado, dizendo que Mato Grosso é muito rico pelo fator do agronegócio, que serve apenas para enriquecer uns poucos, já que não vê essa riqueza retornar à sociedade.

“E nem só de orquestra vive o homem”, faz questão de divulgar esta declaração. “Como eu enxergo a Secretaria de Cultura? Eu ainda estou esperando eles abrirem para alguma coisa, uma postura coerente, porque não fizeram nada até agora, na verdade. O Governo do Estado tem que destinar recursos para todos os segmentos da Cultura. porque a Secretaria de Cultura sempre foi a prima pobre da casa. E, infelizmente, a maioria dos artistas dependem deste apoio para mostrar suas produções”, continua Cristina.

A professora, mestre, doutora e escritora ainda defende a ideia de que o papel da Academia também é de conhecer e revelar novos escritores. Dar a conhecer e legitimar esta produção literária, desde o antigo e os novos bons autores de Mato Grosso.

“Para que aconteça um fluxo de troca com as escolas, artistas e o meu papel é colaborar neste processo de abertura. E só por isso que eu me candidatei e vou ingressar na AML querendo prestar um serviço do fomento à Literatura”, deixa claro Cristina Campos, sobre suas intenções na Academia, que é abrigada na Casa Barão de Melgaço, onde carrega a história mato-grossense há mais de 240 anos de existência.

Nascida em Presidente Prudente, em São Paulo, se considera legítima cuiabana, da beira do rio Coxipó do Ouro, onde cresceu Maria Cristina de Aguiar Campos, nome de batismo, com sua mãe mineira e o pai cuiabano. A posse dela representa um verdadeiro espírito de Muxirum, onde vários artistas estarão unidos para o grande dia, que acontece a partir das 19h30, na Casa Barão de Melgaço, em Cuiabá.

O termo “Muxirum” refere-se a ideia de mutirão, colaboração em grupo, no linguajar cuiabano. Desta forma, a posse terá a decoração do ambiente sob a responsabilidade da artista plástica Ruth Albernaz, que convidou vários amigos para fazer flores de papel, confeccionadas lá na “Maloca do Quati”, na Mandioca, nome de seu ateliê.

Tudo terá uma intenção. E para descontrair a formalidade do ambiente e criar um efeito visual interessante para o registro das fotografias serão distribuídos para os convidados, no salão da posse, abanicos poéticos na cor laranja, com poesias de Cristina Campos, confeccionados pela editora Carlini e Caniato.

Lá fora, haverá o show de lançamento do CD “Mar de Xarayés”, do contrabaixista Fidel de Fiori, com mesas decoradas com toalhas poéticas, compondo trabalhos de vários escritores, produzidas por Amauri Lobo. O bar fica por conta do Gran Bazar, de José Julio Tavares

Tranquila e feliz, ela diz que a Academia era algo muito distante. “Eu gosto de brincar que eu sempre sonhei de entrar na imortalidade com uma bela mordida no pescoço, de um vampiro maravilhoso”, diz em riso.

Tanto que chegou de criar junto com amigos, entre poetas e jornalistas, como Lorenzo Falcão, Aclyse de Mattos, Marta Cocco, Amauri Lobo, o médico Danilo Zanirato e outros, a “Academia dos Mortais”.

Isto aconteceu quando Sodrezinho, Antônio Sodré, ainda estava vivo e atuante neste processo, no final dos anos 90, lá na UFMT. Nesta época era constante ver acontecer alguma coisa no campo da poesia. E entre eles havia um fluxo permanente de provocação e brincadeira com a poesia.

Uma das coisas que eles não queriam era ser imortal, mas, sim, assumir esta condição de mortal e desaparecer com o tempo, como acontece com muitos cuja obra não sobrevive à identidade.

“A cadeira não teve nenhuma razão especial. Se eu tivesse de escolher seria a de Silva Freire, que já está ocupada. Eu apenas não quis concorrer com os amigos”, fala a professora sobre sua candidatura á cadeira na AML.

A que ela concorreu estava desocupada desde o dia 3 de fevereiro de 2008, quando Varjão faleceu, aos 84 anos, em Cuiabá, de falência múltipla dos órgãos. Ele lançou 28 livros e foi um político da velha guarda da região do Araguaia, ex-deputado federal, ex-senador e ex-prefeito por dois mandatos de Barra do Garças, e autor do projeto folclórico do Discoporto naquela cidade.

“No meu caso, muitas pessoas pediram para eu me candidatar. Os cuiabanos acham que tem que ter pessoas da terra que nos represente na Academia”, diz Cristina.

Esta essência de cuiabania vem da preocupação de lutar pela literatura e cultura que corre o risco de ser assimilada por um processo muito maior dos imigrantes que sobrepujam a população local. Mudando desde a paisagem e costumes, que é o que acontece com muitos povos indígenas.

Pensamento este de uma ribeirinha que ainda bebê veio de Presidente Prudente para viver numa chácara na beira do rio Coxipó do Ouro. “Tempo em que não precisava trancar a casa e se dormia com a janela aberta”, lembra.

Hoje Cristina Campos é professora aposentada do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), campus Cuiabá, graduada em 1984, em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), especialista em Língua Portuguesa (UFMT, 1989), Semiótica (1995) e Semiótica da Cultura (1996); mestra em Educação, (UFMT, 1999); e doutora em Educação (USP, 2007).

É autora de O Semantismo das Águas Profundas (Entrelinhas, 2004); Conferência no Cerrado (Tanta Tinta, 2008); Manoel de Barros: O Demiurgo das Terras Encharcadas (Carlini & Caniato, 2010); e O Falar Cuiabano (Carlini & Caniato, 2014). É organizadora e revisora de várias publicações.

Lê e escreve poesia desde criança. Aos sete anos de idade já escrevia em cadernos de colégio e no quintal de casa era onde divagava para a escrita, olhando para a natureza, de onde vinha a inspiração, escrevia e entregava para a mãe.

“O processo de criação era, como diz Manoel de Barros: esse gosto por nadeiras. De coisas que não tem nenhuma utilidade poética. A poesia é isso: a utilidade do inútil”, parafraseia Cristina, que é fã do saudoso escritor que cita.

Não foi na escola que aprendeu a ler. A mãe foi a responsável em sua formação, bem como grande incentivadora de Cristina na arte, pois sempre lia poesias e contava histórias para ela, que conviveu com sarau no quintal de casa e dos vizinhos. Onde cantavam, tocavam violão e declamavam poesias nas varandas e calçadas.

Eduardo Mahon, presidente da AML e Cristina Campos na posse na Casa Barão

Eduardo Mahon, presidente da AML e Cristina Campos na posse na Casa Barão

 

 

 

PEQUENO PERFIL CULTURAL DE CRISTINA CAMPOS

Da Reportagem

UM LIVRO: “Livro sobre Nada”, de Manoel de Barros. Eu gosto das obras de Carlos Castañeda, que marcou minha adolescência, do filósofo Gaston Bachelard, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, o poeta Guimarães Rosa e Wladimir Dias Pino. Eu não consigo pensar em termos de livro, mas sim de obra.

UMA MÚSICA: A turma do “Clube de Esquina”, de Minas Gerais.

UM LUGAR: Chapada dos Guimarães.

UMA COMIDA CUIABANA: Pacu assado na brasa.

UM ATOR: Eu gosto muito de Anthony Hopkins

O QUE MAIS GOSTA EM CUIABÁ: A sombra das mangueiras

LUGAR QUE FREQUENTA EM CUIABÁ: Sesc Arsenal. Penso que toda a cidade deve ter espaços assim.

 

 

Cristina Campos nova imortal da academia na pagina do enock

1 Comentário

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  1. - Responder

    O que faz um membro da academia mato grossense de letras?

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