gonçalves cordeiro

Morre escritor Philip Roth, nos EUA. Mauro Savi, preso em Cuiabá, reclama da comida. É a vida que segue amarga e repetitiva

Savi e Roth

Os jornais de todo mundo falam da morte de Philip Roth, um dos mais céticos e amargos escritores norte-americanos. Ele escreveu, sempre, sobre um mundinho sem lógica, habitado por personagens com perspectivas pouco satisfatórias. Aqui em Mato Grosso, penso eu, que perspectiva nós temos?

Quem é que vai chorar, em Cuiabá, pela morte de Philip Roth? A angústia que o notável escritor procurava debelar, com seus textos, o seu esforço de humanização, não chegaram a muitos corações e mentes dessa cidade abrasadora. Fui à minha estante e não encontrei um livro sequer dele. Os que li passei adiante.

A notícia da morte de Roth me chega junto com a informação, do site O Documento, de que o deputado estadual Mauro Savi (PSB), recolhido atualmente ao Centro de Custódia da Capital, anda reclamando da comida que recebe da prisão. E tem aquela análise corrosiva do jornalista Eduardo Gomes que nos mostra que o padrão de atuação dos parlamentares estaduais mato-grossenses nunca esteve tão comprometido. Basta ver que o Mauro Savi tá preso, o Gilmar Fabris esteve preso e o Eduardo Botelho só não foi preso porque o juiz José Zuquim talvez queira se firmar como um garantista, diante de seus pares do Tribunal de Justiça, ou do governador Zé Pedro Taques, que é parceiro de Botelho.

Em entrevista que concedeu, em janeiro deste ano, ao The New York Times para falar dos Estados Unidos de hoje em dia, o velho escritor Philip Roth, passado dos 80 anos, foi irônico: “Como eu era ingênuo em 1960 ao pensar que eu era um americano vivendo tempos absurdos! Que curioso!”, disse, e caracterizou o presidente Donald Trump como “uma imensa fraude”.

Se havia confusão nos anos 60, lá nos States, nos anos 60, anos de Black Power e Guerra do Vietnã, imagine agora que é Trump quem dá as cartas da política lá deles e na política internacional. Sai de cena Nosferatu e agora sob os holofotes estão Debi e Lóide, todos os idiotas de todos os tempos concentrados em um mesmo presidente da República da grande nação do Norte.

Neste grande Estado de Mato Grosso, terra de tantas potencialidades, o desespero parece que tem a mesma embocadura e lança seus grandes olhos sobre nós. Nossa representação política tá na cadeia ou indo pra cadeira e não parece que exista uma grande chance da gente se livrar dessa mais fiel tradução da nossa ingovernabilidade.

Mauro Savi reclama porque no Centro de Custódia da Capital os carcereiros tem lhe servido, no almoço e no jantar, um grude que mistura arroz, feijão e pedaços de ossos. Para quem, pelo que sugere a denuncia do MP, já foi parceiro de Riva na divisão das delícias que a Assembleia proporciona a seus deputados, esse deve ser um momento de muita, muita dor para Savi. Chegou o tempo das vacas magras, vacas que são só couro e osso.

Philip Roth nunca esteve em Mato Grosso, nunca passeou pelos corredores da nossa Assembleia Legislativa, mas nos seus livros sempre encontrei personagens patéticos e fracassados. Daí porque, olhando para o desespero de Mauro Savi, fico também achando que aquele cenário de Newark, em Nova Jersey, onde Roth situava seus romances e seus personagens , tem muito a ver com esse nosso calorento cenário mato-grossense, que também nos assombra e também nos enche de tédio e ceticismo.

 

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Philip Roth escrevendo sobre a Arte de Entender os Outros:

“Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções intímas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso – estão com sorte. “Philip Roth, in ‘Pastoral Americana’

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