MORA NA ECONOMIA – Crescimento da “classe C” precisa ser comemorado. Mas com a parcimônia de quem sabe que Brasil ainda não pode afirmar que mais da metade da sua população pode sustentar, autonomamente, seu padrão de vida

O Brasil é um país de classe média?

Ely José de Mattos

 

O conceito de classe média aparece no contexto das análises socioeconômicas em vários fóruns de discussão. No entanto, não é possível falar em consenso sobre quem efetivamente compõe essa classe, e o que ela representa em termos de desenvolvimento econômico.

No Brasil, a maior parte dos estudos que atualmente balizam o debate apresenta uma estratificação baseada em renda ou posses, que são entendidos como tradutores das potencialidades de consumo, bem-estar e condições futuras de sustento.

Por exemplo, seguindo a linha conceitual da renda pura, o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a classe média brasileira — também referida como “classe C” — corresponde à aproximadamente 50,5% da população em 2009, sendo que, em 2003, era de 37,6%.

O ponto de corte monetário das classes foi estabelecido a partir de uma concepção relativista, que considera apenas a distribuição da renda domiciliar em termos de desigualdade e polarização. Definidas as classes, a análise passa a ser absoluta ao longo do tempo, para que se possa avaliar o seu movimento.

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) oferece o Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB). Essa classificação, diferentemente daquela da FGV, é feita através de características domiciliares, como presença de itens de conforto e escolaridade dos moradores.

No entanto, a ABEP afirma que esse critério não tem a pretensão de definir classes sociais, mas classes econômicas. Apenas para constar, o CCEB aponta que, em 2010, 49,5% da população das nove principais regiões metropolitanas do País estavam na classe econômica intermediária C (que é subdividida em C1 e C2).

Note-se que as classificações por renda ou posses se configuram, em boa medida, partindo de critérios de relatividade. No caso da FGV, que é o estudo mais discutido atualmente, a classificação foi definida unicamente a partir de um corte relativo. Isso implica uma limitação conceitual e analítica importante: a classe média passa a ser, tecnicamente, um estrato em uma distribuição de renda.

Cabe lembrar, por uma questão de justificativa teórica, que o que está por detrás dessa abordagem é um conceito de bem-estar econômico proporcionado pela renda. No entanto, pode-se argumentar que esse conceito não se presta, efetivamente, a uma análise de classes sociais.

Boa parte da literatura sobre estratificação social define a classe média como elemento mais complexo no entendimento da malha social, de tal modo que a renda ou posses sozinhas não podem dar conta.

Escapando de uma visão estritamente oriunda da Economia do Bem-Estar, sociólogos apontam alguns perfis que ajudam a definir a classe média. Um desses perfis considera indivíduos com acesso a propriedades e com manutenção dos rendimentos de forma independente, o que implica o trabalho de profissionais especializados ou com negócios próprios.

Outro perfil é aquele de posição gerencial, onde o poder é definidor desse status e garantidor de manutenção e ascensão social. Por fim, um terceiro perfil seria aquele formado pela massa científica e intelectual, que, detendo essas características, desfruta de uma situação de menor vulnerabilidade.

Apesar de esses perfis estarem relacionados com a geração de renda, o contrário não necessariamente é verdadeiro. A classe média, sob um olhar mais amplo, é composta por indivíduos que detêm percepções de vida similares, com vontades e perspectivas de evolução.

Mais do que isso, trata-se de uma classe social onde essas perspectivas foram conquistadas e serão mantidas legitimamente pelas próprias pessoas, como é o caso da educação básica e superior, especialização, experiência profissional agregadora, etc. Daí, a conclusão de que a classe média de uma sociedade é realmente importante, pois ela demonstra o potencial e a maturidade do desenvolvimento.

De fato, o Brasil vem mostrando, especialmente na última década, importantes melhorias na qualidade de vida — a renda média experimentou uma considerável elevação, o emprego formal está em alta, a distribuição de renda (apesar de ser ainda muito ruim) melhorou. No entanto, as condições para se falar em crescimento de uma classe média ainda não se apresentam.

O que se está observando é, na realidade, um fenômeno econômico de fortalecimento de uma classe de consumo — o que é bom. Mas essa “classe C” só será classe média, se a estrutura de distribuição de outras dimensões sociais for observada. O cerne da nossa atual “classe C” ainda conta com uma educação básica precária e, por consequência, com dificuldades para ingressar no ensino superior (ou tirar bom proveito dele).

Da mesma forma, ainda se trata de uma classe consideravelmente dependente de uma situação econômica de afluência do consumo, que sustenta a atividade econômica, o que a coloca em situação de considerável vulnerabilidade aos movimentos de mercado.

Os trabalhos da FGV e outros similares, possivelmente, não estão propondo que a “classe C” seja equiparada a um conceito mais amplo e robusto de classe média. A proposta assemelhar-se-ia mais a uma ideia de “classe econômica” — como assume explicitamente a ABEP. No entanto, a discussão, por vezes, toma um caminho onde a confusão fica evidente.

Nesse contexto, é preciso ter cuidado ao relacionar a “classe C” brasileira a esse conceito mais robusto de classe média. Inegavelmente, o crescimento da “classe C” precisa ser comemorado. Mas isso deve ser feito com a parcimônia de quem sabe que o Brasil ainda não pode afirmar que mais da metade da sua população está livre da vulnerabilidade e pronta para sustentar e incrementar, autonomamente, o seu padrão de vida.

 

Artigo do economista Ely José de Mattos, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística/RS.

fonte DIÁRIO GAUCHE

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