TCE - DEZEMBRO

MIRANDA MUNIZ: Os simbolismos expressos no ato de posse do governador Pedro Taques indicam possibilidades de tempos alvissareiros. O novo governador ao “bater continência” para o cacique índio Raoni, “esnobar” caciques políticos, “nomear” cada cidadão como fiscais de seu governo e ainda “prometer” combate o preconceito e a discriminação contra as mulheres, demonstrou que tem rompante, restando saber se esse rompante será efetivamente transformado em ações concretas

Miranda Muniz gostou  do que ouviu no discurso de posse de Pedro Taques

Miranda Muniz gostou do que ouviu no discurso de posse de Pedro Taques

Esse Pedro é só rompante?

por Miranda Muniz

 

 

 

Impossibilitado de ir à pose da presidenta Dilma, tive que me contentar com a posse do novo governador Pedro Taques. Mesmo tendo apoiado outro candidato, o Lúdio, entendo que prestigiar um ato de posse daquele que vai governar o Estado pelos próximos 4 anos é um ato importante de exercício da cidadania.

Confesso que me surpreendi com alguns simbolismos que pude perceber durante a solenidade, a começar pela “composição do dispositivo” ou seja da “mesa”. Após ter chamado as autoridades de praxe, houve o chamamento de representantes de praticamente todos os órgãos de controle (Ministério Público, CGU, TCE, etc.), talvez para marcar o “simbolismo da austeridade”.

A seguir, para minha surpresa, foi chamado o Cacique Raoni Metuktire que, vestido a caráter, inclusive com seu tradicional e virtuoso botoque nos lábios, parecia uma figura surreal, transitando pelo “corredor polonês” sobre os olhares atentos da “Cuiabania” e do “povo do sul”, ligados ao chamado agronegócio, que compareceu em número considerável no evento, afinal, o novo vice representa esse importante setor da economia do Estado.

Antes do Governador fazer seu pronunciamento, falaram um padre, um pastor e o novo Secretário de Governo, seu primo Paulo Taques, que fazia um esforço hercúleo para aparecer (a começar pela manjada piadinha do “discurso das 18 laudas”), até parecia querer “roubar o brilho” do Governador, estrela principal do evento.

A seguir, para minha surpresa, novamente o cacique Raoni foi chamado, dessa vez para usar da palavra, o que fez em sua própria língua, com autoridade e em alto e bom tom, com um intérprete a tiracolo que até parecia “amainar” as duras palavras do cacique, expressa pela eloqüência e pelos gestos vigorosos que fazia.

Se apenas a figura do Índio no ambiente solene já havia provocado certo constrangimento em algumas das figuras que prestigiaram a posse, o seu “discurso-protesto”, feito ao lado do Governador, que saiu do seu assento e foi ao seu encontro, numa clara “quebra de protocolo” e aparentando deferência, foi como um “soco no estômago” de alguns setores (muitos deles representados na tribuna de honra) que costumam alardear que índio já tem terra demais e que lutam freneticamente para transferir a responsabilidade da demarcação que é conduzida pela FUNAI para o Congresso, através da famigerada PEC 215.

Quando Raoni falou em “proteção ao meio ambiente”, “defesa do ar puro” e pediu para o Governador se empenhar para barrar a PEC 215 que, segundo ele, se aprovada, prejudicaria os índios e os não índios, aí teve “ilustres figuras” que fizeram cara de mau, quase se retirando do evento e, a partir dali, notava-se perfeitamente uma “movimentação de bastidores” para encerrar a fala de Raoni.

Mas uma coisa é certa: o Grande Cacique Raoni Metuktire “roubou a cena”!

Já o discurso do Novo Governador foi incisivo e emblemático. Iniciou demonstrando devoção sem limites pelas coisas de Mato Grosso, talvez dando um recado a alguns “paus rodados aventureiros” que concebem o Estado apenas como um local onde possam auferir lucro fácil e rápido, através da exploração predatória e sem limites. Chegou a comparar seu amor pelo Estado ao amor pela sua família, declarando que para defendê-lo empenharia a própria vida “se assim for preciso”.

Essa sua devoção pode ser percebido em diversos momentos do seu discurso e também no tom das apresentações culturais que privilegiaram a execução do belo hino do Estado, e canções ícones do tradicional rasqueado cuiabano, que fora interpretadas pela Orquestra de Mato Grosso, e pelo trio Henrique, Pescuma e Claudinho, além de belas canções da Banda matogrossense Vanguart e interpretações marcantes da ascendente cantora Ana Rafaela.

O “sertanejo” e o “vanerão” não tiveram vez na posse de Taques!

Reafirmando seu discurso em defesa da moralidade e contra a corrupção, jurou levar adiante esse compromisso, prometeu buscar “ser o governo mais transparente da história de Mato Grosso” e conclamou a população para fiscalizar cada ato das autoridades, inclusive ele, e denunciar qualquer irregularidade, além de dar um recado de que irá tentar resgatar tudo o que foi tirado indevidamente do Estado pelas administrações anteriores, o que novamente fez muita gente da mesa sentir calafrios.

Passagem marcante foi o compromisso solene que ele fez em defesa da luta contra o preconceito e a discriminação das mulheres, afirmando que “em meu governo, em nosso governo, não permitiremos o sexismo, a desequiparação baseada no gênero”, ocasião em que anunciou que iria “colocar toda a estrutura do Estado para combater a discriminação e violência contra as mulheres”.

Outro aspecto que me chamou atenção foi o “distanciamento” demonstrado em relação às forças políticas e importantes aliados que foram fundamentais para sua vitória: nenhuma referência aos partidos e aos importantes aliados políticos e financiadores de sua campanha, preferindo inaugurar um estilo “do governo do eu sozinho”, ou melhor, de quem só aparenta ter compromissos com a população que o elegeu.
, o que somente o tempo irá dizer.

Entretanto, os simbolismos expressos no ato de posse indicam possibilidades de tempos alvissareiros!

 

 

miranda-muniz

Miranda Muniz, agrônomo, bacharel em direito, oficial de justiça-avaliador federal, é diretor de comunicação da CTB/MT – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil e secretário sindical do PCdoB-MT

5 Comentários

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  1. - Responder

    Me engana ki eu gosto

  2. - Responder

    Duendes e fadinhas dançavam nos jardins do Palácio. Para muitos basta tão pouco para alcançar a felicidade.

  3. - Responder

    Mais uma vez o que vemos são medidas de impacto. Porém, alguém se ateve ao fato de que Blairo Maggi também foi eleito com o mesmo discurso? O novo em contraposição a velha política. Na verdade, temos que acreditar em mudança, mas não confiar cegamente. A mudança foi escolhida pela população, mas em campanha pouco foi explicado sobre medidas que garantam uma real mudança de postura. É lógico que, depois de um governo desastroso como o de Silval Barbosa, qualquer mudança trará uma drástica mudança de rumo no governo de Mato Grosso. A principal delas é a gestão dos recursos públicos, quanto a cobrança de impostos e aumento da receita pública. Haja vista que nos últimos mandatos houve uma evasão fiscal assustadora. Recursos estes que hoje fazem falta aos setores de educação e saúde pública, se tornando os serviços mais precários da gestão estadual. Outra coisa é a ineficiência da administração pública, contratação de comissionados e contratados em demasia, em setores não estratégicos e se tornando, portanto, ineficientes os serviços prestados. Também, o que se nota em relação a gestão de pessoas, aumentos desarrazoados, privilégios sem contraprestação, aumentos de subsídios e encarreiramento sem critérios de meritocracia, produtividade baixa e absenteísmo acima da normalidade. É necessário uma política de cargos e salários negociados de forma geral. Sem negociações isoladas e separando aquelas carreiras estratégicas das que são de simples execução. Estabelecer políticas de encarreiramento que sejam incentivadoras e motivadoras do profissionalismo e do mérito, adequadas a nova realidade da gestão pública voltada para resultados. Em 100 dias vamos saber se o novo governo está comprometido com mudanças ou se estão somente atirando balas de festim. Medidas de impacto só serão efetivas se tiverem acompanhamento e comprometimento, tanto das equipes da área estratégica, quanto da área operacional e de execução.

  4. - Responder

    O povo está torcendo por Pedro Taques, já é um ótimo começo!!!

    • - Responder

      Uma parte torcendo contra; outra, a favor. Eu torço para que caia a máscara logo…

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