PREFEITURA SANEAMENTO

MIGUEL DO ROSÁRIO: Por que o golpe faz água? Juiz Sergio Moro e procuradores da Lava Jato começam a ser desmoralizados por suas próprias trapalhadas. Operação Zelotes dá chance, para o governo, de mudar narrativa midiática sobre a luta contra a corrupção. Terceira razão para esvaziamento do golpe é o bom senso dos agentes econômicos. Os grandes bancos não vão se suicidar apenas para a mídia dar seu golpe baixo contra o governo. Outro motivo é a desmoralização da oposição política. A briga sangrenta entre Demóstenes e Ronaldo Caiado, que respingou em Agripino Maia, revelou a hipocrisia da oposição quando se arvoram em paladinos da ética. O Suiçalão (contas secretas na Suíça) trouxe nomes dos barões da mídia, colunistas e ricaços paneleiros, que não pagam impostos e, portanto, são criminosos

O choro de Villa é o sorriso de Dilma

ScreenHunter_5639 Apr. 07 14.09


 

“Por trás de um homem triste, há sempre uma mulher feliz”, diz a canção de um dos mais ilustres cabos eleitorais de Dilma Rousseff.

A letra de Chico Buarque encaixa-se como luva no desespero de Marco Antonio Villa, historiador ultra-tucano e pau para toda a obra da mídia corporativa.

Desde meados do governo Lula, quando a mídia tentou derrubar o governo transformando o mensalão, um caso vulgar de caixa 2, num escândalo quase metafísico, Villa tornou-se num de seus pitbulls mais constantes. Digamos que ele passou a viver disso. Tornou-se um dos primeiros pistoleiros profissionais na guerra da mídia contra o PT.

O divertido, se é possível falar em diversão numa guerra que põe em risco a estabilidade política de um país com 200 milhões de pessoas, é constatar que os pitbulls levam a sério o trabalho que fazem. Eles vestem a camisa mesmo. Não é a tôa que Merval Pereira, outro pitbull anti-PT, chorou ao vivo, ou chegou bem perto disso, diante das câmeras da Globo, ao anunciar a segunda vitória de Dilma Rousseff, ano passado.

Hoje é o dia de Villa pagar o seu mico federal.

O artigo histérico que publicou no Globo (7/4), exigindo “renúncia” ou “impeachment” (leia abaixo), indica que o golpe começou a fazer água. O nervosismo do historiador reflete essa frustração.

Por que o golpe faz água?

1) Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato começam a ser desmoralizados, e por suas próprias trapalhadas. Moro publicou artigo em que pede mudança constitucional, para validar a execução da prisão antes da sentença em trânsito em julgado. Ou seja, prender o cidadão antes que a Justiça analise completamente o processo e decida se ele é realmente culpado. Os procuradores da Lava Jato também já publicaram textos em que defendem abertamente medidas ilegais ou imorais. Primeiro publicaram texto defendendo o uso da prisão como meio de tortura psicológica para convencer réus a fazerem a delação premiada. Depois publicaram outro texto defendendo uso de prova “ilícita”. E agora posaram para a capa da Folha, comparando-se a trupe de Eliot Ness, numa foto que entrará para os anais do ridículo, e que violou o código de ética do Ministério Público, o qual exige impessoalidade no trato com a imprensa.

O artigo de Sergio Moro, pedindo prisão para inocentes, foi rechaçado radicalmente até mesmo por juristas conservadores, como Celso de Mello.

Ficou evidente, para todo mundo, que Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato não leram Machado de Assis. Não leram, especialmente, o conto O Alienista, em que um doutor resolve mandar a cidade inteira para o hospício.

Entretanto, Moro não está sozinho. As decisões de negar habeas corpus aos réus, por razões de “ordem pública” tem sido chanceladas por desembargadores do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O corporativismo judiciário está fazendo política, e isso é perigoso. O lado bom, porém, é que o judiciário rasgou a sua fantasia democrática. E terá que lidar agora com a crítica dura da sociedade, que não quer ser governada por uma ditadura de juízes, sobretudo juízes que não são melhores que ninguém em termos de ética ou moral.

2) A deflagração da Operação Zelotes dá a chance, para o governo, de mudar completamente a narrativa midiática sobre a luta contra a corrupção no Brasil. O governo federal pode voltar a ser o mocinho da história, se souber lidar com o tema com um mínimo de inteligência em matéria de comunicação.

Afinal, agora está claro que a luta contra a corrupção só é real, só é objetiva, se os órgãos de fiscalização, como a Polícia Federal e o Ministério Público, investigam o governo e os partidos governistas. É o que está acontecendo. É o que não acontecia antes.

A PF antes era inútil. Não investigava nada, sobretudo graúdos da política e do empresariado. De vez em quando, só para o povo não esquecer que ela existia, aparecia no Jornal Nacional queimando algumas toneladas de maconha velha, que os traficantes entregavam justamente para que a polícia fingisse trabalhar.

O Ministério Público também investigava muito pouco. E quando investigava não ia adiante. A razão era o velho patrimonialismo. A classe política tinha relações históricas com o Ministério Público. Eram primos, compadres, amigos.

Hoje não.

Hoje os procuradores não tem mais intimidade com a cúpula no poder. Ao contrário, alimentam ódio político contra os boias-frias do PT que ocupam os altos escalões da república.

Esse ódio, se controlado, produz uma energia investigativa rara entre os procuradores, quando se trata de combater a corrupção na política.

Quando exagerado, porém, o ódio pode se transformar em perseguição e leva alguns procuradores a participarem de conspiratas políticas, em conluio com a oposição e a imprensa.

Mas como eu dizia, a operação Zelotes e a CPI do Suiçalão, consolidam outra narrativa, a de que o governo Dilma combate efetivamente a corrupção.

3) A terceira razão para o esvaziamento do golpe é o bom senso dos agentes econômicos. Os grandes bancos brasileiros não vão se suicidar apenas para a mídia dar seu golpe baixo contra o governo. O Bradesco acaba de renovar o crédito da 7 Brasil, uma das fornecedoras mais importantes da Petrobrás, que andou perigando. A China entrou ajudando a Petrobrás, emprestando-lhe mais de R$ 11 bilhões, a juros amigos, permitindo à estatal respirar fundo. As ações da Petrobrás voltaram a se valorizar, de maneira bastante sólida. O preço do petróleo aumentou, apesar da retirada das sanções ao Irã, por causa da decisão de fornecedores árabes de vender mais caro à China.

4) Por fim, o fator tempo ajuda o governo Dilma. A mídia tenta vergá-lo através da estratégia do “choque e terror”, inventando um novo escândalo terrível todo dia, tentando mantê-lo acuado, paralisado. Entretanto, conforme os dias passam, o governo continua lá, os agentes políticos vão se adaptando às novas circunstâncias. O ser humano se adapta a tudo, até mesmo à crise, que vai se tornando uma coisa normal. As pessoas querem trabalhar, e os empresários começam a refletir sobre os riscos de criar uma convulsão política no país, apenas para satisfazer os anseios de uma mídia golpista e de hidrófobos que defendem até mesmo uma intervenção militar.

Cada dia que passa, e Dilma continua lá, ela ganha força, até mesmo porque vai aprendendo com os erros, e foram muitos os erros do governo.

5) O PT continua cometendo inúmeros erros. Os recentes textos chorosos, autopiedosos, falando em perseguição ao partido, foram apenas a última derrapada, mas a legenda tem mergulhado numa reflexão profunda sobre si mesmo, sobre a necessidade de buscar forças na sua base social.

6) Outro motivo para esvaziamento do golpe é a desmoralização da oposição política. A briga sangrenta entre Demóstenes Torres e Ronaldo Caiado, que respingou em Agripino Maia, revelou de maneira cristalina a hipocrisia de setores da oposição quando se arvoram em paladinos da ética. O Suiçalão (contas secretas na Suíça) trouxe nomes dos barões da mídia, colunistas e ricaços paneleiros, que não pagam impostos e, portanto, são criminosos.

O constrangimento da imprensa, que não produz infográficos, não inventa apelidos, não abre seções especiais, na cobertura da Operação Zelotes e da CPI do Suiçalão, também a desmascarou, tanto que a própria Ombudsman da Folha, Vera Magalhães, admitiu que o jornal não deu destaque à Zelotes.

A Zelotes, é bom lembrar, lida com desvios de verba pública dezenas de vezes superior àqueles verificados na operação Lava Jato, e não traz nenhum risco de desemprego em massa no país.

Os responsáveis pela Zelotes, além disso, não estão prendendo empresários indiscriminadamente, à espera que eles “delatem” outros esquemas. Ao contrário da Lava Jato, a operação Zelotes tem sido conduzida com prudência e respeito à lei.

7) Um parecer do ex-ministro do STJ, Gilson Dipp (veja no destaque), no qual desqualifica as delações de Alberto Youssef, traz um forte prejuízo para a operação Lava Jato. Dipp diz o óbvio: Youssef foi beneficiado antes por delação premiada e não respeitou a Justiça, voltando a cometer crimes. Qual o sentido de lhe dar, novamente, esse benefício?

8) O advogado Nelio Machado dá entrevista, ao Espaço Público Brasil, em que critica duramente o juiz Sergio Moro. Machado lembra que Moro louva os juízes da Operação Mãos Limpas, na Itália, esquecendo, porém, que não eram propriamente juízes, mas juízes de instrução, condição similar ao procurador brasileiro. Ou seja, Moro se identifica, qual Joaquim Barbosa, apenas com a acusação. Esses juízes de instrução não julgam ninguém, apenas apuram os fatos. Machado lembra ainda que a Operação Mãos Limpas produziu milhares de prisões arbitrárias, e abusou indecentemente da delação premiada, de vazamentos seletivos, etc. Machado pede o impedimento de Moro dizendo que se trata de um juiz comprometido politicamente, que não respeita as garantias individuais devidas aos réus, é leniente ou mesmo cúmplice com vazamentos seletivos, e se mostrou aliado à mídia de oposição. O advogado usa o mesmo argumento de Dipp, que é essa estranha decisão de Moro de conceder uma segunda delação premiada a um réu que não honrou a primeira. Lembra ainda que as delações dos empresários, em condições carcerárias desumanas, com ameaças inclusive a seus familiares, violam a lei da delação, que exige a voluntariedade do depoimento.

*

Os riscos à democracia permanecem grandes, mas menores do que antes. A mídia agora deve usar todas as suas forças para promover o dia 12 de abril, porque será a sua última chance de criar um clima para o impeachment. Ao fazê-lo, porém, a mídia se expõe ainda mais, e isso também é um risco.

Setores importantes e crescentes da opinião pública estão consolidando uma percepção sobre o papel nocivo que a imprensa passou a desempenhar em nossa democracia.

A aprovação de Dilma caiu, mas uma boa parte desta impopularidade advém do próprio eleitorado dilmista, insatisfeito com a passividade política do governo, que não reage a seus adversários, e não sabe dialogar com sua própria base social.

Se há necessidade de ajuste fiscal, faça-se o maldito ajuste fiscal, mas sem transformar isso na única bandeira de governo!

Que se compense o ajuste fiscal com iniciativas ousadas fora do campo da macro-economia.

Faça-se alguma coisa pelos índios, pela reforma agrária, pela comunicação, pela cultura, pela política externa!

Os alertas do líder do MTST, Guilherme Boulos, são verdadeiros. Os movimentos sociais terão dificulade para defender Dilma do exército de lobotomizados que a direita tem levado às ruas, inclusive com dinheiro internacional, se o governo não oferecer uma plataforma política que a sua base possa defender.

Essa plataforma política tem de ser vista, tem de ir para a TV, para o rádio, para as redes sociais. Tem de estar na ponta da língua da presidenta.

De qualquer forma, a comunicação da presidenta melhorou sensivelmente. Dilma está falando mais. Todo dia aparece nos telejornais, dando entrevistas ou se posicionando.

A entrada de Janine Ribeiro no ministério da Educação oxigenou maravilhosamente a imagem do governo, e o ingresso de Edinho Silva na Secom trouxe esperanças de uma comunicação mais criativa.

O maior perigo vem das conspiratas judiciais, desse conluio entre tortura psicológica de réus, conduzida por um juiz e procuradores, embriagados pelos holofotes da Globo e apupos de uma opinião pública manipulada, e uma imprensa decadente, disposta a correr todos os riscos para garantir a sua sobrevivência.

Se o governo fizer uma marcação inteligente contra os desmandos judiciais por trás da Lava Jato, evitando tanto a sabotagem da economia quanto a construção de mais uma série de factoides midiáticos contra o PT, poderá virar o Cabo das Tormentas e começar, enfim, a governar.

 

FONTE O CAFEZINHO

————

LEIA AGORA O ESCREVEU O HISTORIADOR DIREITISTA MARCO ANTONIO VILLA

COLUNA
Marco Antonio Villa


Marco Antonio Villa Foto: O Globo

O Brasil nos tempos da cólera

Não há paralelo na história republicana. O governo perdeu a legitimidade e mal completou três meses

Nunca na história recente do Brasil o interesse por política foi tão grande como agora. Fala-se de política em qualquer lugar e a qualquer hora. O chato é, neste momento, o brasileiro que não está nem aí para os rumos do nosso país. Esta sensação perpassa as classes sociais, as faixas etárias e as diversas regiões do país. É um sentimento nacional de ódio aos corruptos, ao seu partido e a suas lideranças, especialmente aquela que se apresentou durante anos como salvadora da pátria e, hoje, não tem coragem de caminhar, sem segurança, por uma simples rua de alguma cidade. Transformou-se em um espantalho. Só assusta — se assusta — algum passarinho desavisado.

Vivemos um impasse. E não há nenhum paralelo com qualquer momento da história republicana. O governo perdeu a legitimidade e mal completou três meses. E ainda faltam — impensáveis — 45 meses. Se as eleições fossem realizadas hoje, Dilma Rousseff sequer chegaria ao segundo turno. E o que fazer? É necessário encontrar uma saída para a greve crise que vivemos. Não cabe dar ouvidos aos covardes de plantão, aqueles que dizem que temos de tomar cuidado com a governabilidade, que não podemos colocar em risco a estabilidade econômica e que o enfrentamento aberto do projeto criminoso de poder é um perigo para a democracia. Devemos silenciar frente a tudo isso? Não, absolutamente não. Esta é a hora daqueles que têm compromisso com o Brasil. Protestar, ocupar as ruas é a tarefa que se coloca. É seguir a lição de Mário de Andrade. Não sejamos “espiões da vida, camuflados em técnicos da vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões.” E no dia 12 as ruas estarão tomadas por aqueles que não querem simplesmente espiar a vida, mas desejam mudar a vida.

O projeto criminoso de poder acabou transformando a corrupção em algo natural. E o volume fabuloso de denúncias que horroriza a nação é visto positivamente, pois as denúncias estariam sendo apuradas. É inacreditável: em uma manobra orwelliana, o petrolão é definido como uma ação saneadora do Estado, e não como o maior desvio de recursos de uma empresa pública na história da humanidade. Seus asseclas — supostos intelectuais — buscaram algum tipo de justificativa. Como se no Brasil houvesse uma cultura da corrupção, um fator de longa duração. Erro crasso: imaginam que os brasileiros são à sua imagem e semelhança. Não são. Eles é que são corruptos — e nem precisam sair do armário. Já assumiram e faz tempo.

Cabe ressaltar que o movimento da História é surpreendente e imprevisível. No início de junho de 1992, quando a CPMI sobre as atividades de Paulo César Farias — denunciadas por Pedro Collor, irmão do presidente — estava iniciando seus trabalhos, o senador Fernando Henrique Cardoso fez questão de declarar que “impeachment é como bomba atômica, existe para não ser usado.” O deputado peemedebista Nélson Jobim foi enfático: “O Congresso não pode fazer uma CPI para investigar o presidente. Se vocês insistirem nisso, eu vou ao Supremo.” Mais cordato, mas não menos conciliador, o senador Marco Maciel (PFL-PE) declarou que a “CPI não vai produzir sequelas, pois as acusações foram feitas sem provas.” Líderes empresariais saíram em defesa do presidente. Emerson Kapaz, candidato a presidente da Fiesp, disse que as denúncias eram “uma grande irresponsabilidade. As pessoas precisam medir seus atos para não causar mais turbulência no Brasil, já tão afetado pela crise econômica.” E até juristas criticaram Pedro. Um deles, Celso Bastos, declarou que o irmão do presidente era de “um egoísmo elevado à última potência” e que ele “nunca pensou nos interesses da nação.” Quatro meses depois, Fernando Collor não era mais presidente do Brasil.

Hoje vivemos uma situação muito distinta em relação a 1992. Entre outros fatores, um é essencial: as ruas. Desta vez, são elas que estão impulsionando o Parlamento, e não o inverso, como naquele ano. O que ocorreu pelo Brasil, no dia 15 de março, é fato único na nossa história. Eu testemunhei dezenas de milhares de pessoas se manifestando em absoluta ordem na Avenida Paulista. Com indignação — e justa indignação — mas também com bom humor. Foi um reencontro com o Brasil. A auto-organização da sociedade civil é o novo, só não reconhece quem está comprometido com o projeto criminoso de poder — e são tantos que venderam suas consciências.

Esta será uma semana de muita tensão. E isto é bom para a democracia. Ruim é o silêncio ou o medo. As ruas voltaram a ser do povo, e não mais monopólio daqueles que têm ódio à democracia. Nós temos tudo para construir um grande país mas antes temos uma tarefa histórica: nos livrar dos corruptos. E sempre dentro da democracia, da lei e da ordem. São eles — e existem sim o nós e eles — que sempre desprezaram o Estado Democrático de Direito. Nunca é demais lembrar que o PT votou contra o texto final da Constituição.

Vivemos uma quadra histórica ímpar. Não é exagero que nós teremos muito a contar aos nossos filhos e netos. É aquele momento de decisão, de encruzilhada do destino nacional. Para onde vamos? Continuaremos a aceitar passivamente a destruição dos valores republicanos ou tomaremos uma atitude cívica, de acordo com bons momentos da nossa história?

Eles não passarão. E não passarão porque — paradoxalmente — uniram o Brasil contra eles. Ninguém aguenta mais. É hora de dar um passo adiante, de encurralar aqueles que transformaram o exercício de administração da coisa pública em negociata, em mercadoria. E deixar duas saídas: a renúncia ou o impeachment.

Marco Antonio Villa é historiador

—–

Parecer de Gilson Dipp sobre validade da delação premiada de Alberto Youssef by Enock Cavalcanti

——

 

Lincoln Secco, historiador

Lincoln Secco, historiador, USP

OUTRA OPINIÃO,  à esquerda

Na superfície, partidos vagam como um corpo sem alma

por Lincoln Secco, no Blog da Boitempo

Em julho de 1919 Filip Mironov ousou escrever uma carta aberta a Lenin onde reportava que os camponeses da região do Dom gritavam “Queremos sovietes, fora os comunistas”. Claro que se referiam aos “comunistas” que oportunamente aderiram depois de 1917. Mironov tinha sido o responsável pela resistência ao avanço das tropas brancas do General Krasnov. Em 1920 foi preso e assassinado pelo governo bolchevique. Em 1960 o Exército Soviético o reabilitou.

O dilema daquele cossaco pobre que se fizera chefe militar foi o da esquerda histórica desde a Revolução Francesa. Jacobinos sob Napoleão, comunistas sob Stalin e anarquistas na Rússia ou na Espanha tinham que escolher entre o déspota progressivo ou a derrota para inimigos muito piores.

Longe estamos de situação parecida no Brasil. Nenhum grupo de esquerda tem aquelas qualidades que só o momento histórico e as escolhas humanas podem forjar. Ainda assim, vivemos uma situação política muito grave. Desde 1964 a Direita não saía às ruas. O governo caminhou tanto à direita que perdeu parte do apoio que tinha nos movimentos sociais e não recebeu nenhum alívio de seus opositores do mundo oficial da política.

O que deveriam fazer os novíssimos movimentos populares diante de uma ameaça de impeachment da presidenta eleita?

TRABALHO DE BASE

Antes de mais nada cabe dizer que, individualmente, ninguém deveria permanecer indiferente à cassação de um mandato legítimo. O atual governo tem o direito de cumprir seu mandato, ainda que o atual governo seja conciliador e não tenha percebido que o pacto social rentista que outrora o sustentava se quebrou.

Mas a pergunta não se refere a indivíduos e sim a coletivos.

Os novíssimos movimentos fazem aquilo que o PT abandonou faz muito tempo: trabalho de base. Por isso, a ascensão do Movimento Passe Livre no período de junho de 2013 a janeiro de 2015 só surpreendeu quem estava preso ao país oficial. Desde 2005 ele operava longe dos gabinetes da esquerda bem empregada.

Como ele, muitos coletivos e movimentos fazem seu trabalho silencioso nas periferias. Se despontarem aqui ou ali na cena política não será por obra das redes sociais. Na maioria dos casos não atuam com pautas amplas, concentram-se numa única de grande capacidade de mobilização local ou até nacional. Sua organização horizontal e sua utopia não acorrentam seus membros. Eles e elas formam ali esculturas sociais fora do circuito dos partidos de esquerda. A política oficial está numa frequência, eles e elas em outra.

COBRANÇAS

Constantemente tais movimentos são cobrados à direita e à esquerda. E os black blocs? Irão à marcha antifascista? São contra a Copa do Mundo? Ao atacar a prefeitura deste partido não colaboram com o governador daquele outro? Por que não se engajam na campanha pela água? Por que abriram a porta do inferno em junho de 2013? O que pensam do programa Mais Médicos? Por que não dão mais entrevistas?

A mais nova pergunta, caso a luta política venha a se acirrar será: são a favor do governo federal ou ficarão passiva e objetivamente ao lado dos fascistas?

A resposta mais óbvia é manter a autonomia. É que esses movimentos, diferentemente daqueles tradicionais da esquerda (sindicalismo, MST, MTST etc) não têm nenhuma relação orgânica com os governos petistas. Os movimentos sociais citados são parte importante de nossa história e têm todo o direito (talvez, o dever) de lutar pelo governo que ajudaram a construir.

Mas os novíssimos movimentos podem dizer tranquilamente que quem criou a crise política atual e tem que enfrentá-la é o próprio PT. Portanto, é incabível que eles se associem a um partido e a um governo cuja maioria condenou as manifestações populares dos últimos anos e, em alguns casos, apoiou a repressão a elas.

Muitos neopetistas defendem abertamente a prisão de “vândalos”. Não deixa de ser sugestivo que o único aspecto positivo que a grande imprensa destacou ao mesmo tempo nos dois protestos de 13 e 15 de março foi o caráter “pacífico”. Embora as selfies com a tropa de choque e a apologia da Ditadura Militar não deixem de causar dúvidas… Apenas no dia 15 foram presos em São Paulo alguns “carecas” fascistas, logo soltos. Nenhuma palavra sobre Rafael Braga, o preso símbolo de junho de 2013.

RECUO ESTRATÉGICO

Apesar disso, os novos movimentos não deveriam ficar indiferentes à conjuntura. O ciclo recessivo de uma economia estruturalmente semi-estagnada, a nova estratificação social e as tensões políticas nas ruas também atingem o trabalho de base.

O lutador de rua é preso como criminoso comum, vândalo, associação criminosa e, possivelmente no futuro por terrorismo. Se até dirigentes petistas são selecionados entre a totalidade dos políticos corruptos do país para serem exemplarmente julgados, o que esperar para quem não possui a rede de apoio jurídico e parlamentar dos partidos estabelecidos?

A combinação de economias exportadoras de matérias-primas, demanda mundial crescente por elas e governos de centro-esquerda entrou em crise no Brasil, Argentina, Equador, Venezuela e talvez até na Bolívia. Em Honduras e Paraguai, extremamente periféricos, nem chegou a funcionar. A demanda dos países ricos pelas commodities esbarra, todavia, no fato de que aqueles governos latinoamericanos eram permeáveis também à mobilização popular por maiores compromissos do Estado com saúde, educação, transporte, agricultura familiar e livre de transgênicos e contra grandes obras destinadas à geração de energia para a economia primária exportadora e à construção de corredores de escoamento dos produtos exportáveis. Ainda que tais governos mantivessem intacto o grande capital.

Diante disso, o trabalho de base enfrentará maior hostilidade policial quando levar a protestos públicos, ocupações e manifestações nas ruas. O que fazer? A resposta não pode estar neste texto e sim na própria dinâmica dos novíssimos movimentos sociais. Eles continuarão seu trabalho silencioso na infraestrutura da sociedade civil. A aposta é que depois de junho vivemos um novo ciclo político no Brasil. A luta dos partidos continuará e alguns deles, se souberem fazer um aggiornamento à esquerda, continuarão importantes na superfície, mas como um corpo sem alma.

Mas no subterrâneo da política, há um espírito vibrante, ainda sem um corpo social. Como um espectro que nos ronda.

2 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 201.86.176.119 - Responder

    Não dialogo com LOUCO DE PEDRA!

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

cinco × um =