Medíocre até nos pênaltis (errar dois em cinco é feio), o Brasil, não obstante, está nas quartas de final, com uma seleção que não diverte, angustia. Não é possível que Daniel Alves e Hulk e Fred não possam ser substituídos, este último até com mudança de esquema, porque Jô não é solução para nada. Leia as opiniões de Luis Fernando Veríssimo, Juca Kfouri e Clóvis Rossi


JULIO CESAR AGARRA

Clóvis Rossi: Brasil vai indo, medíocre até nos pênaltis

Medíocre até nos pênaltis (errar dois em cinco é feio), o Brasil, não obstante, está nas quartas de final, com uma seleção que não diverte, angustia.

Lembrei-me inevitavelmente da disputa de pênaltis nas quartas de final da Copa da França: vi o jogo em Amsterdã, para uma matéria do tipo “dormindo com o inimigo”. A única coisa que entendi do locutor holandês foi quando ele disse que Taffarel, o goleiro da época, era um “pênalti-killer”, um matador de pênaltis.

Foi. Como Júlio César repetiu neste sábado, pegando os dois primeiros chutes dos chilenos e desviando para a trave, com o olhar, o chute final.

Claro que o que interessa para os torcedores e jogadores é a classificação, mas até o insuportável ufanismo da Rede Globo reconheceu que a seleção foi mal.

Tão mal que não conseguiu vencer o Chile, derrotado com folga em três Copas anteriores.

Teve que ir aos pênaltis e, ainda assim, foi preciso esgotar toda a série de cinco.

No papel, Luiz Felipe Scolari desenhou o Brasil que tinha que desenhar, dada a conhecida carência da seleção no meio-campo: fechou a defesa, proibiu os laterais de avançar (Marcelo, por exemplo, um perigo quando joga perto do ponta-esquerda, jamais chegou à frente) e entregou a bola para os chilenos (52% de posse de bola para os visitantes, o que, em tese, é uma anomalia).

Mas anomalia justificada pela maneira de jogar do Brasil: chutão para a frente, ligação direta com o ataque, como nas partidas anteriores.

Não adiantou nada trocar Paulinho por Fernandinho, do jeito que pediram 11 de cada 10 cronistas esportivos. Não mudou nada, o meio de campo foi do Chile, que nem tem craques da posição. Tampouco resolveu trocar Fernandinho por Ramíres.

O fato é que o Brasil não tem bons jogadores de meio-de-campo. Ponto.

Pior: neste sábado, não teve um Neymar inspirado como em duas das três partidas anteriores.

Para que a tática de Felipão funcionasse, era preciso que os atacantes acertassem ao receber os chutões. Não acertaram, tanto que o goleiro chileno Cláudio Bravo fez apenas três ou quatro grandes defesas, em 120 minutos de jogo, o que é muito pouco perigo criado pela seleção que, afinal de contas, é pentacampeã mundial.

O lado chileno, por sua vez, ficou com a bola, mas não criou perigo, salvo em dois ou três lances. Marcou apenas numa falha grosseira de Hulk que passou a bola para Vargas (que pode ter jogado no futebol brasileiro, mas neste sábado vestia camisa chilena).

Vargas para Alexis Sánchez e daí para o fundo da rede, empatando o jogo – resultado que se manteria até o fim da prorrogação e foi justo.

Embora mantivesse a bola por mais tempo, os chilenos criavam menos, tanto que chutaram menos: apenas cinco vezes na direção do gol, contra 13 do Brasil.

Para manter a agonia, o último chute do jogo foi de um chileno (Pinilla), no travessão de Júlio César.

O futebol do Brasil até agora dá para eliminar os sul-americanos (nem que seja nos pênaltis), mas parece pouco para enfrentar Alemanha ou França, um dos prováveis rivais na semifinal.

Brasil x Chile em dez fotos

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Juca Kfouri: Felipão precisa trocar suas lealdades por melhorias no time
JUCA KFOURI
COLUNISTA DA FOLHA DE S PAULO

Um erro, um simples erro, não deveria poder botar todo um trabalho a perder.

Mas pode. E quase foi o que aconteceu no Mineirão.

Era o melhor e mais tranquilo dos jogos da seleção brasileira, com absoluto domínio e sem tomar nenhum susto até que, uma cobrança de lateral mal devolvida por Hulk, terminou provocando um tal descontrole que só o travessão e Júlio César para evitarem a catástrofe.

Que virá se Felipão não trocar suas lealdades por melhorias no time, porque não é possível que Daniel Alves e Hulk e Fred não possam ser substituídos, este último até com mudança de esquema, porque Jô não é solução para nada.

Ninguém merece sofrer o que se sofreu diante de um Chile de pouca bala na agulha.

Tanto a Colômbia quanto o Uruguai poderão ser rivais muito mais complicados.

A tarde quente no Mineirão valeu mesmo por permitir testemunhar a ressurreição de Júlio César.

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APÓS SOFRER, SELEÇÃO TEM A MISSÃO DE EVOLUIR

Jefferson Bernardes/VIPCOMM: Lance da partida entre Brasil x Chile, válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo 2014, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte. FOTO: Jefferson Bernardes/ Vipcomm 

O capitão da seleção brasileira, Thiago Silva, afirmou que já esperava um jogo duro contra o Chile, mas não imaginava tanto sofrimento. O defensor realçou que a maneira como o Brasil derrotou o Chile mostra que é necessário se fazer ajustes para que a seleção se mantenha viva na competição; “Quem disse que o Brasil se classificou e não jogou bem está teoricamente certo”, disse o zagueiro

 

 

Por Rodrigo Viga Gaier

BELO HORIZONTE (Reuters) – A sofrida classificação do Brasil para as quartas de final da Copa do Mundo com uma vitória nos pênaltis sobre o Chile foi comemorada com moderação pelos jogadores brasileiros, que reconheceram que a equipe precisa evoluir dentro de campo para continuar na luta pelo hexacampeonato.

O Brasil saiu na frente no placar da partida deste sábado com um gol de David Luiz, mas cedeu o empate ainda na primeira etapa após um erro defensivo e ainda viu o Chile acertar o travessão nos minutos finais do segundo tempo da prorrogação.

Com Neymar bem marcado, a seleção brasileira não fez um bom segundo tempo e teve apenas momentos de lampejo com o meia-atacante Hulk, que teve um gol anulado pela arbitragem de forma polêmica.

O capitão da seleção brasileira, Thiago Silva, afirmou que já esperava um jogo duro contra o Chile, mas não imaginava tanto sofrimento. O defensor realçou que a maneira como o Brasil derrotou o Chile mostra que é necessário se fazer ajustes para que a seleção se mantenha viva na competição.

“Quem disse que o Brasil se classificou e não jogou bem está teoricamente certo”, disse o zagueiro do Paris St. Germain. “Tenho consciência que não jogamos bem… e realmente ainda falta um pouco para voltarmos a ser o time da Copa das Confederações”, acrescentou, referindo-se ao time que conquistou o torneio preparatório para o Mundial em 2013.

O meia Oscar, que teve uma atuação apagada, também salientou a necessidade de ajustes.

“Foi mais sofrido do que a gente tinha imaginava. Não era para ser desse jeito não, mas saímos com a vitória, com os pés no chão e sabendo que precisamos evoluir”, afirmou.

A seleção brasileira vai ficar de folga até segunda-feira de manhã, quando se reapresenta no Rio de Janeiro antes de seguir para a Granja Comary, em Teresópolis.

A programação de treinos para o jogo das quartas de final contra a Colômbia, na sexta-feira, em Fortaleza, pode ser ajustada dependendo do desgaste físico dos jogadores.

“Foi um desespero total, em alguns momentos eles foram superiores a nós”, disse o atacante Fred, que mais uma vez não rendeu o esperado e foi substituído por Jô na segunda etapa.

“Temos na cabeça que precisamos de evolução, temos que voltar a jogar bem e sem levar sufoco”, acrescentou.

O zagueiro David Luiz também reconheceu que o time precisa crescer na sequência da Copa do Mundo. “Sem dúvida precisamos melhorar. Na vida, para vencer, tem que sempre evoluir. Só não vou te dizer no que precisamos melhorar”.

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Bola de cristal
Luís Fernando Veríssimo, no Estadão

É conhecida a história daquele editor de jornal que se lembrou, em cima da hora, que, no dia seguinte, era Páscoa e o jornal precisava se referir à data. Entrou na redação e pediu a um repórter: “Escreve aí cinco linhas sobre o martírio de Jesus Cristo”. E o repórter: “A favor ou contra?”.
Também faz parte do folclore jornalístico a matéria feita antes do fato, que vale para qualquer eventualidade. Considerações sobre o nada, à prova de desmentido.
Outro recurso do jornalista na sua eterna luta com os prazos de fechamento do jornal é fazer duas matérias, uma prevendo uma coisa e outra prevendo o seu oposto. Este é perigoso, pois há sempre o risco de haver confusão e sair a matéria errada. No caso do futebol, a matéria dupla feita antes de se conhecer o resultado do jogo – por que ganhamos, por que perdemos – requer uma dose ainda maior de sangue-frio.
O essencial. A verdade é que entre todos os avanços tecnológicos disponíveis, hoje, para jornalistas e palpiteiros ainda não inventaram o que realmente precisamos.
Lembro a sensação que foi, entre nós, subdesenvolvidos, a aparição de jornalistas europeus com computadores portáteis, ainda primitivos mas já anos na frente dos nossos humildes blocos de notas e canetas, na Copa do México, em 1986.
Transcrevíamos nossas notas com máquinas de escrever pré-históricas e, depois, picotávamos nossas matérias em fitas de Telex, para transmiti-las à redação.
Hoje temos tudo na palma da mão e na ponta dos dedos – celulares, smartphones, tablets, satélites e etcéteras eletrônicos – para transmissões instantâneas, mas ainda não temos bolas de cristal.
Nada mais antigo, do tempo de magos e feiticeiras, do que bolas onde se enxerga o futuro. Mas falta a versão para jornalistas.
Assim não dá.
Tortura. Confissão: o texto acima foi escrito antes do jogo entre Brasil e Chile, no Mineirão. Agora eu sei qual foi o resultado da partida. E cada vez me convenço mais que decisão nos pênaltis deveria ser proibida pela Convenção de Genebra.
Quanto ao jogo propriamente dito, minha análise abalizada é a seguinte: UFA!

1 Comentário

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  1. - IP 201.57.233.61 - Responder

    Vou falar num coisa que ninguém tem coragem de fazer referência:

    O jogo da seleção foi tão ruim e poderia ser bem pior se o juiz tivesse tido coragem de mandar voltar o primeiro pênalti que o Júlio Cesar defendeu, pois ele se adiantou quase dois metros antes do chute….

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