JORNALISTA MAURO CAMARGO: As obras atrasadas denotam graves problemas de gestão e planejamento, não se pode negar. Mas ficarão prontas, ainda que depois da Copa do Mundo. E elas representam um legado histórico para a mobilidade urbana da nossa Capital, um avanço de 30 ou 40 anos que seria impensável sem a realização do Mundial em Cuiabá

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Elefante Branco

POR MAURO CAMARGO
Impressiona o volume de críticas raivosas por parte de jornalistas da imprensa nacional contra as obras da Copa – e da própria realização de jogos do Mundial em Cuiabá -, em particular contra a Arena Pantanal, considerada por muitos um elefante branco custeado com recursos públicos.

Parte das críticas soa racional diante de argumentos óbvios, como a inexistência de times de grande porte em Mato Grosso. De fato nosso futebol é periférico e está longe de alcançar projeção nacional. O raciocínio lógico é o de que sem times não há torcedores ou público para sustentar um estádio de R$ 560 milhões. Isso pode fazer da Arena Pantanal um enorme desperdício de dinheiro público. Mas nem sempre o que parece óbvio se traduz em verdade.
A construção da Arena Pantanal não pode ser analisada apenas sob a perspectiva fria das estatísticas de público e da ausência de um futebol competitivo, pois estes elementos não consideram o todo da realidade local. Quem avalia a obra somente sobre este prisma desconhece a vida em Cuiabá e exibe forte – e histórico – preconceito contra Mato Grosso.

A visão recorrente de bem informados jornalistas da grande mídia é a de que somos um estado periférico, de parca importância política, uma ‘terra de índios e de onças‘. A desinformação é tamanha que nossa Capital frequentemente é confundida com a de outro estado por próceres da imprensa nacional. No geral não nos conhecem e não fazem questão alguma de conhecer.

Sim, somos uma terra de índios e de onças e eles sobrevivem porque mais da metade do nosso território se mantém intacto. Temos mazelas ambientais (sociais e antropológicas) é verdade, mas ainda temos índios e onças, peixes e rios cristalinos, florestas intocadas, belezas naturais de dar inveja. E temos tudo isso apesar de sermos os maiores produtores de grãos do País, termos o maior rebanho de gado e contribuirmos com 25% da balança comercial brasileira.

De fato somos um estado periférico, de população pequena e com graves problemas sociais. Nossa educação é frágil e a saúde caótica, como de resto é a saúde e a educação em todos os estados brasileiros, mesmo nos mais ricos e desenvolvidos onde se assenta a grande imprensa nacional. Ou São Paulo, Rio, Porto Alegre, Curitiba e em todas as demais cidades-sedes da Copa não existem os mesmíssimos problemas sociais encontrados aqui?

É fato que as obras da Arena Pantanal estão atrasadas, assim como as demais obras em andamento. É frustrante para cada cidadão que vive aqui saber que a maioria das obras de mobilidade urbana sequer ficará pronta para a Copa que começa em menos de 40 dias. Mas esta realidade de atrasos, de falta de planejamento, da qualidade daquilo que está sendo realizado é por acaso muito diferente do que vem ocorrendo no restante do País? Em algum outro lugar existe um volume tão grande de obras relacionadas à Copa como aqui?

A Arena Pantanal pode se transformar num elefante branco, como afirma a mídia nacional, mas pode, do mesmo modo e na mesma medida, se traduzir numa obra capaz de induzir como nenhuma outra o desenvolvimento do futebol profissional. Os resultados de Mixto e Santos e de Luverdense e Vasco – tanto no que diz respeito ao futebol praticado quanto ao público presente mostram isso.

As obras atrasadas denotam graves problemas de gestão e planejamento, não se pode negar. Mas ficarão prontas, ainda que depois da Copa. E elas representam um legado histórico para a mobilidade urbana da nossa Capital, um avanço de 30 ou 40 anos que seria impensável sem a realização do Mundial.

Talvez estejamos gastando e fazendo mais do que deveríamos. Mas este é um problema nosso. É o povo daqui que pagará (e já está pagando) esta conta, sem pedir favor a ninguém. Deixem que de nossos elefantes brancos cuidamos nós. Respeitem nossa história, nossos índios e onças.

 

mauro camargo
* MAURO CAMARGO é jornalista e editor do jornal A GAZETA

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