MAURÉLIO MENEZES: “O problema não é ser ou não marxista. Ser ou não capitalista. O problema é querer que a miséria permaneça “

 

Karl Marx, filósofo comunista, autor de "O Capital" e Maurélio Menezes, jornalista e professor universitário, em Cuiabá, Mato Grosso

Karl Marx, filósofo comunista, autor de “O Capital” e Maurélio Menezes, jornalista e professor universitário, em Cuiabá, Mato Grosso

Apesar de ser combativo com persistência e até mesmo com violência, desde que Marx e Engels sistematizaram suas idéias no “Manifesto Comunista”, de 1848, o marxismo continua dando o que falar. Tanto que o Papa Francisco, tido inicialmente como direitista, agora começa a ser chamado de “marxista” por sua insistência em alertar as pessoas contra os males do capitalismo. Nas páginas da Folha do Estado, aqui em Cuiabá, o jornalista e professor universitário Maurélio Menezes discorreu sobre o tema. Só que, ao invés de apontar para a urgente necessidade, cada vez mais anotada, pelo mundo afora, de um retorno ao estudo de Karl Marx, Menezes procura tirar o foco do pai do comunismo. Sua argumentação soa ingenua. “O problema não é ser ou não marxista. Ser ou não capitalista. O problema é querer que a miséria permaneça” – escreve Maurélio Menezes. Ora, qual foi o intelectual que mais se empenhou para que a miséria fosse superada em nosso mundo?! Depois do artigo de Maurélio Menezes, republico, o discurso que o amigo Frederic Engels pronunciou à beira do túmulo de Karl Marx, em Londres, há muitos anos atrás. A partir dessas tocantes palavras, o que me parece é que Marx fez como ninguém, justamente aquilo que Maurélio reclama: questionou a miséria, procurando demonstrar que as pessoas que vivem na miséria quase sempre são vítimas de outros homens que exercitam aquilo que o Papa Francisco hoje identifica como “capitalismo cruel”. Confira o que escreveu Maurélio e o que disse Frederic Engels. Me parece sempre que a figura de Karl Marx deve sempre ser recordada com carinho com tantos quantos lutam por uma vida de maior dignidade neste mundo. (EC)

O Papa Francisco e o Marxismo
Maurelio Menezes

O Papa Francisco respondeu no domingo numa entrevista exclusiva ao jornal La Stampa, de forma educada, aos conservadores americanos que o “acusaram” de ser marxista. De acordo com ele, literalmente, “A teoria marxista está equivocada, mas ao longo da vida conheci muitos marxistas que eram boas pessoas, logo não me sinto ofendido em ser chamado de marxista”.

As “acusações” surgiram quando Sua Santidade em seus pronunciamentos começou a criticar não o capitalismo, mas a forma como ele está funcionando hoje no mundo, a fome que ele faz aumentar, as desigualdades que ele provoca, a distancia entre os que têm muito e os que nada têm que só faz aumentar. Quando esteve no Brasil, o Papa foi claro: “os políticos deveriam ouvir as vozes das ruas”.

Posteriormente, numa analise da economia mundial, Francisco chamou atenção para o fato de o capitalismo estar se transformando numa nova tirania, no que também foi criticado. Ao La Stampa, o Papa disse que estava apenas apresentando um olhar sobre o que está acontecendo no mundo com a solidificação de uma economia de exclusão e desigualdade.

A posição do Papa lembra uma afirmação na década de setenta do Cardeal brasileiro Dom Helder Câmara. Quando foi questionado sobre suas posições políticas disse algo como “Quando dou comida e moradia (foi ele quem construiu, no Leblon, a Cruzada, para os desabrigados da Favela do Pinto, que fora incendiada) para os pobres dizem que eu sou um santo padre. Mas quando pergunto por que essas pessoas são pobres me taxam de comunista”.

Durante os protestos no Brasil, diversos analistas afirmaram que as manifestações não eram especificamente contra o capitalismo, embora em alguns cartazes e palavras de ordem estivessem estampados os protestos contra ele. As manifestações sempre foram contra o funcionamento do sistema, que privilegia uns em detrimento de outros.

Antes das manifestações, numa Seminário Temático, aqui em Cuiabá, o italiano Geovanni Semeraro, professor da Universidade Federal Fluminense, afirmou que em nenhum dos países que ele conhecia (e ele conhece muitos) o capitalismo foi tão perverso quanto no Brasil.

Referindo-se às manifestações brasileiras, em entrevista a O Globo, o francês Pierre Levy afirmou que surgiu uma nova consciência entre os brasileiros e que os resultados não seriam imediatos. E porque alertas como os do Papa não podem despertar esse tipo de consciência também?

Há algumas suspeitas em relação às ações do Papa. A verdade é que na Europa, ao mesmo tempo em que o capital ganhou força, Deus foi aos poucos morrendo. Hoje, as igrejas são muito mais templos de visitação e admiração por turistas, que lugares para reflexão. Já na América Latina, o catolicismo perdeu espaço na mesma proporção que cresceu a pobreza. Desta forma, O Papa estaria atirando no que realmente existe, mas para recuperar o terreno perdido para a teologia da prosperidade.

O que parece fora de qualquer principio de bom senso é que cento e vinte anos após a morte de Marx ainda haja quem pense que o mundo se divide em marxistas e não marxistas. A questão é bem outra: é a falta de interesse dos políticos em investir. O governo federal comemora recorde de arrecadação, quando deveria comemorar recorde de investimento em setores essenciais. Mas o que se vê é o contrário: por ser impedido pela justiça de aumentar o IPTU em São Paulo o prefeito Fernando Haddad decidiu cortar investimento na Educação, logo ele que foi Ministro da Educação. E no Orçamento Federal, o governo cortou 3 bilhões do PAC, um programa criado para diminuir a falta de saneamento básico no pais. O problema não é ser ou não marxista. Ser ou não capitalista. O problema é querer que a miséria permaneça. Por muito tempo. Infelizmente. Esse é o monstro que os Movimentos Sociais têm obrigação de combater.

Maurélio Menezes é jornalista e professor universitário, em Cuiabá.

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DISCURSO DIANTE DO TÚMULO DE MARX

Frederic Engels
(1883)

No dia 14 de março, às três e quarenta e cinco minutos da tarde, o maior pensador de nossos dias, parou de pensar. Nós o deixamos apenas por dois minutos a sós e, quando voltamos, o encontramos dormindo suavemente na sua poltrona, mas para sempre.

É praticamente impossível calcular o que o proletariado militante da Europa e da América e a ciência histórica perdeu com a morte este homem. Imediatamente se perceberá o buraco que foi aberto com a morte desta personalidade gigantesca.

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: um fato tão simples, mas escondido debaixo do lixo ideológico, de que o homem necessita, em primeiro lugar, comer, beber, ter um teto e vestir-se antes de poder fazer política, ciência, arte, religião, etc.; que, então, a produção dos meios imediatos de vida, materiais e, por conseguinte, a correspondente fase de desenvolvimento econômico de um povo ou de uma época é a base a partir da qual tem se desenvolvido as instituições políticas, as concepções jurídicas, as idéias artísticas e, até mesmo, as idéias religiosas dos homens e de acordo com a qual, então, devem ser explicadas, e não ao contrário, como até então se vinha fazendo. Mas, não é só isto. Marx descobriu também a lei específica que move o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa criada por ele. A descoberta da mais-valia, imediatamente, clareou estes problemas, enquanto todas as investigações prévias, tanto dos economistas burgueses quanto dos socialistas críticos, haviam vagado na escuridão.

Duas descobertas como estas deveriam ser bastante para uma vida. Quem tem a sorte de fazer apenas uma destas descoberta, já pode se considerar feliz. Porém, não houve um só campo que Marx não investigasse – e estes campos foram muitos e, em nenhum deles, se limitou a fazer apenas superficialmente – inclusive na matemática, na qual não fizesse descobertas originais. Tal era o homem de ciência. Porém, isto não era, nem com muito, a metade do homem. Para Marx, a ciência era uma força histórica motriz, uma força revolucionária. Por pura que fosse a alegria provocada por uma nova descoberta que realizasse em qualquer ciência teórica e cuja aplicação prática talvez não pudesse ser prevista de modo algum, era muito outro o prazer que experimentava quando se tratava de uma descoberta que exercia imediatamente uma influência revolucionária na indústria e no desenvolvimento histórico em geral. Por isso, seguia, detalhadamente, a marcha das descobertas realizadas no
campo da eletricidade, até os de Marcel Deprez nos últimos tempos.

Porque Marx era, acima de tudo, um revolucionário. Cooperar, deste ou do outro modo, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições políticas criadas por ela, contribuir para a emancipação do proletariado moderno, a quem ele tinha infundido pela primeira vez a consciência da própria situação e das suas necessidades, a consciência das suas condições de emancipação: tal era a verdadeira missão da sua vida. A luta era seu elemento. E lutou com uma paixão, uma tenacidade e um sucesso como poucos. Primeira Gazeta do Reno, 1842; Vorwärts de Paris, 1844; Gazeta alemã de Bruxelas, 1847; Gazeta nova do Reno, 1848-1849;
Tribuna de Nova Iorque, 1852 a 1861, para tudo aquilo que é necessário somar um montão de folhetos de luta e trabalho nas organizações de Paris, Bruxelas e Londres, até que, ultimamente, nasceu como remate de tudo, a grande Associação Internacional de Trabalhadores que era, na verdade, um trabalho do qual o seu autor poderia se orgulhar, ainda que não tivesse criado nenhuma outra coisa.

Por isso, Marx era o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Os governos, a mesma coisa os absolutistas e o republicanos, o expulsavam. Os burgueses, a mesma coisa que os conservadores e os ultrademocratas, competiam para lançar calúnias contra ele. Marx separava tudo isso de um lado como se fossem teias de aranha, não prestava atenção a elas; só respondia quando a necessidade imperiosa exigia isto. E morreu venerado, querido, chorado por milhões de trabalhadores da causa revolucionária, como ele, espalhados por toda a Europa e América, desde as minas da Sibéria até a Califórnia. E eu posso ousar dizer que se teve muito
opositores, teve apenas um único pessoal. Seu nome viverá através dos séculos e, com ele, sua obra.

Discurso realizado em inglês, por F. Engels, no cemitério de Highgate, em 17 de março de 1883. Publicado em alemão no Sozialdemokrat em 22 março de 1883.

1 Comentário

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  1. - IP 177.193.148.35 - Responder

    Todos os países que seguiram/seguem as teorias de KARL MARX entraram em caos econômico, pois suas teorias promovem a guerra entre classes, o ESTADISMO contra o LIVRE MERCADO de propriedade privada, quando na verdade é a propriedade privada que gera empregos e riqueza a uma nação, basta ver a ex URSS / LESTE EUROPEU, e as últimas notícias da VENEZUELA, marxista em um profundo CAOS ECONÔMICO, prendeu seus empresários, chamado-os de burgueses… consequências?? Fuga em masas de investidores, quebra da economia e industria sucateada.

    Já os países capitalistas de livre mercado como SINGAPURA, COREIA DO SUL vive em total prosperidade econômica, até a China percebeu isso e neste ano aprovou mais de 60 medidas em PRÓ DO MERCADO, milhões de chineses saíram da pobreza graças ao capitalismo/empresas privadas.

    Socialismo/Comunismo fracassam pois prometem o “almoço grátis” estatal, na contramão, uns dos mais destacados economistas do século XX, Milton Friedman estava certo ao dizer que “NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS”.

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