MARINALDO CUSTÓDIO – O bobão da roça
Por em Quebra Torto - 12/07/2012 9:55MARINALDO CUSTÓDIO
O Bobão da Roça
Existe por aí, em qualquer meio, um tipo de personagem que já começa a se destacar pelo próprio nome: nome de batismo, pseudônimo adotado por si mesmo ou por terceiros, adquirido após a fama ou trazido lá de longe, da infância. E entre esses, existem ainda aqueles que, a exemplo de Rubens Barrichello ou Pelé, às vezes referem-se a si mesmos não pelo nome mas pelo cognome, pelo apelido, como diriam os mais simples. Assim é que sempre ouvimos Pelé falando “o Pelé” ou “o Edson”, e Barrichello falando “o Rubinho”, assim, de modo tão natural, em terceira pessoa, como se efetivamente falassem de outra pessoa.
Do personagem ora apresentado, o popular Bobão da Roça, não vou lhes fazer o favor de oferecer o nome verdadeiro, deixando que os leitores o façam por dedução óbvia. Pelo menos para os do nosso meio, e ainda mais para o pessoal da área da comunicação da Baixada Cuiabana e, mesmo, de outros pontos do território mato-grossense, esta é uma tarefa das mais fáceis, pelo que suponho. Para os demais leitores do jornal, fica esta tentativa valendo como o resumo de uma crônica, ou o arremedo de uma crônica – já que, em seu natural desdobramento, este texto é pra ser transformado numa crônica pretensamente literária que pretendo publicar em livro nestes próximos anos.
Pois é. Muitas vezes, para viver (e, às vezes, tão somente para sobreviver) um homem tem de lançar mão de estratégias as mais variadas, disfarçar-se, assumir deliberadamente um papel neste grande palco que é o mundo. E é precisamente isto que fez, e faz, o personagem desta crônica, o desde já denominado Bobão da Roça.
Na redação do jornal onde trabalha, e não fica rico (ao menos se formos confiar na versão do próprio), ele certamente poderia ter sido chamado de qualquer coisa, qualquer nome, menos de bobão, nem de boboca ou babaca. Pois é espertíssimo, mineiríssimo, articulado como ele só, manhoso feito aquelas velhas garruchas de dois canos: se um por acaso vier a falhar – coisa das mais improváveis neste mundo –, o outro jamais há de negar o seu fogo e o tiro certeiro e fatal. Por isso, para sermos mais justos e minimamente mais atentos ao valor significativo das palavras, devemos dizer que tratamos aqui do desde já autodenominado Bobão da Roça.
Para a justificativa do seu nome, costuma contar uma historinha: um belo dia, eis que ele chega a uma dessas Sefaz da vida ou Secom da vida, obviamente pra vender o seu peixe (sua revista, um informativo de interesse do governo) e lá vem a indefectível mocinha com as mais indefectíveis, manjadas e insuportáveis perguntas: “O senhor, como é mesmo o seu nome? O senhor deseja falar com quem? Vem de onde ou a mando de quem? É jornalista? De qual jornal? É assessor? De quem?!”. E ele, piscando o único olho bom: “Sou nada não, moça, nem venho a mando de ninguém. Não sou do Governo nem da Assembleia, da Prefeitura nem da Câmara, nem da Universidade, nem de jornal nenhum. Sou nada não. Nada de importante”. Só que a mocinha insiste: “Mas o senhor quer falar com o secretário? Então tenho de avisar quem é o senhor e o que deseja, senão ele não atende o senhor”. Aí ele se enche: “Menina linda, o Senhor está no céu, então, por favor, não me chame de senhor. Sou seu colega de trabalho, então pode me chamar de E., que fico contente. E é o seguinte, preste atenção nisto: eu faço uma revistinha aí, que ninguém lê, coisa pouca que não é comentada nas altas rodas nem nas colunas sociais, mas o secretário, por um acaso, que é também um sujeito simples e da roça que nem eu, pediu pra eu vir até aqui falar com ele. Mas não vá pensando que é por eu ser um jornalista importante, um Fábio Panunzio, um Boris Casoy, porque isto eu não sou, não! Sou um bobão da roça! Um simples bobão da roça!”.
E lá vai nosso personagem seguindo o seu caminho na cidade grande, com todas as artimanhas de um legítimo capiau. Assim se aproxima, muito, dessa imagem tão cara aos neocaipiras de hoje, aquele tipo autodefinido como “nóis é jeca mais é joia”. Vai escrevendo seus textos – muitos dos quais peças de retórica impecável –, vendendo o seu peixe, sempre muito alinhado à direita, reclamando da conta bancária mixa, dos ouvidos moucos dos poderosos aos seus (muitos) reclames, do povo que não lê, do “silêncio sepulcral” que paira sobre toda manifestação de arte e cultura nesta terra de Rondon, e especialmente de muitos jovens da comunicação e das agências de publicidade que não lhe dão o devido valor (nem a menor atenção, às vezes).
Experimentei contar a história do Bobão da Roça a um amigo, professor, não um professor de melancolia como aquele de Machado de Assis mas um professor da rede pública de Várzea Grande, e ele, depois de se certificar que conhecia suficientemente o tal, retrucou, na lata:
- Aquele ali? Não acredito e não pode ser! Bobão da Roça, aquele ali?! Não pode ser! Aquele ali é mais matreiro do que burro estrelo! Quando o sujeito pensa que o domou e o colocou no bridão, eis que ele corcoveia e atira o freguês no chão, sem dó nem piedade!
O Bobão da Roça, no fundo, é mesmo como um bom personagem de ficção: convence bem em cena, mas todo mundo sabe que aquilo ali é de mentirinha, não é pra valer. Conversa pra boi dormir. Ou, como diriam os capiaus, seus irmãos de fé e de fado, é assunto bom pra se contar, em longas sessões de conversa, aos presos, e aos velhos das praças interioranas, sempre sequiosos de alguma prosa.
*MARINALDO CUSTÓDIO é escritor e mestre em Literatura Brasileira
mcmarinaldo@hotmail.com


COMPANHEIROS AMANTES DA VIDA INTERIORANA, NÓS QUE GOSTAMOS DESSE TIPO DE PROSA/ESCRITA SÓ TEMOS DE AGRADECER ESCRITORES COMO O MARINALDO POR DEDICAR SUA SABEDORIA E SEU TEMPO ESCREVENDO COISAS BOAS PRÁ NÓIS LERMOS.
UM ABRAÇO Á TODOS