TCE - DEZEMBRO

MARIGHELLA, O FILME – Não há um único filme que aborde a ditadura militar como um todo. Mas há vários filmes que revelam trechos da época, como se pouco a pouco o cinema brasileiro fosse montando um quebra-cabeças sobre o assunto.”Marighella” é uma destas peças.


Marighela, o filme

A história da ditadura implantada com o golpe de 1964 no Brasil, com suas conseqüências na vida das pessoas e do país, ainda está sendo contada. No período de uma geração em que se estendeu, afetou milhares de famílias e mudou o curso de existências, cujos detalhes vêm, aos poucos, à tona, através de livros, filmes, e, espera-se agora, com o trabalho da Comissão da Verdade.

O filme Marighella, de Isa Grispun Ferraz, se soma a este esforço com uma característica singular. Sua diretora é sobrinha do ex-inimigo número um da ditadura, e a história que leva à tela tem como ponto de vista original a admiração e a curiosidade de uma menina sobre um tio querido e misterioso, que aparecia e desaparecia de tempos em tempos, mas sempre de uma maneira marcante e afetuosa.

Marighella, o filme de Isa, não é sobre o guerrilheiro e, sim, sobre o homem, o tio Carlos, casado com a tia Clara (Clara Charf, companheira de Marighella e uma das depoentes do filme). O mérito de Isa é humanizar uma figura, publicamente exposta como terrorista pela ditadura, executado em 1969, numa emboscada armada pelo aparato repressivo, e essencialmente conhecido como o líder da ALN, que rompeu com o Partido Comunista e optou pela luta armada.

Isa fala de um tio carinhoso, que punha as crianças para dormir quando não estava em casa, que contava histórias fantásticas de viagens a lugares como a África para justificar os longos tempos de ausência e escrevia poemas. Ao mesmo tempo, o homem disciplinado, que acordava muito cedo e que se exercitava com afinco no jardim, o que a sobrinha descobriu, posteriormente, se tratar de uma maneira de se recuperar do tiro que levou de agentes do Dops que o caçaram em um cinema na Tijuca.

Isa vai saber pelo pai, num dia em que era levada para a escola, que o tio Carlos era o Carlos Marighella. Um segredo de família, que precisava ser mantido em sigilo absoluto. O filme atual é uma maneira de Isa compartilhar esse segredo 40 anos depois, revelando seu envolvimento com a história de um dos protagonistas da resistência à ditadura e apresentando a própria história de um humanista, mulato, filho de imigrante italiano com negra descendente dos haussás, povo famoso por levantes contra a escravidão. Um brasileiro típico, fruto das misturas que nos formaram como povo, amante do Carnaval e indignado com as injustiças de um país em que as crianças tinham que trabalhar para sobreviver.

Extremamente capaz e inteligente – a prova de física do ginásio em formato de poesia que pontua o filme é um primor –, Marighella poderia ter se tornado um brilhante engenheiro, mas abandonou a faculdade para lutar pela transformação do país. Sua trajetória política, prática e teórica, vai dos anos 30 á sua execução na alameda Casa Branca, em São Paulo. Um percurso de acertos e erros. Mas como observa um dos depoentes do filme, muitos erros foram cometidos em revoltas importantes, como a dos Alfaiates, na Bahia, e em Canudos, mas elas fizeram história e foram por um motivo justo.

PS; Quem for ver o filme, não saia antes dos créditos finais para não perder o petardo de Mano Brown armado sobre o manifesto gravado de Marighella e divulgado em 1969 na rádio Nacional por meio de uma ação da ALN.

FONTE DIRETO DA REDAÇÃO

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CRITICA

Marighella – Mais uma peça do quebra-cabeças
De Francisco Russo

Devido à ditadura militar, muito sobre os bastidores da época foi mantido em sigilo ou, no máximo, pouco divulgado. Natural, afinal de contas o país vivia um período onde a censura atuava com rigor, impedindo a publicação livre de notícias e opiniões. Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem recuperado um pouco desta história, seja devido à vivência dos diretores mais antigos ou pelo próprio interesse da nova geração. Não há, por enquanto, um único filme que aborde a ditadura militar como um todo, ao menos não com a abrangência do ainda impactante Pra Frente, Brasil (1981). Mas há vários filmes que revelam trechos da época, como se pouco a pouco o cinema brasileiro fosse montando um quebra-cabeças sobre o assunto. Marighella é uma destas peças.

Dirigido pela socióloga Isa Grinspum Ferraz, o documentário é ao mesmo tempo uma pesquisa sobre a vida de Carlos Marighella e também um filme pessoal. Afinal de contas, Isa é sobrinha do personagem principal da história, muitas vezes chamado de “tio Carlos” no próprio filme. Esta dualidade entre o aspecto familiar e o histórico pontua todo o documentário, provocando um nítido desnível. Por mais que seja claro o interesse em humanizar Marighella, evitando transformá-lo em mito e mostrá-lo como homem comum, a insistência em associá-lo como tio deixa de ser uma mera curiosidade inicial e, aos poucos, se torna um exagero desnecessário, que desvia o foco do que realmente interessa.

O forte do documentário é o material de pesquisa obtido. Seja através dos discursos de Marighella, que refletem a força de suas palavras mesclada ao engajamento por ele proposto, até a bela e surpreendente apresentação da prova em versos. As imagens históricas e os depoimentos registrados também ajudam a contar a história de como Marighella se interessou por política e acabou se tornando o inimigo número um da ditadura militar, ao criar o Manual do Guerrilheiro Urbano. Entretanto, o filme peca por certos exageros, como a repetição da explosão de uma estátua de São Jorge em câmera lenta e o rap feito por Mano Brown, tocado nos créditos finais, que destoa do tom do filme apresentado até então.

Como um todo, Marighella tem qualidades no sentido de fornecer mais material para revelar um dos diversos enfoques existentes sobre a ditadura militar brasileira, mas seu aspecto pessoal e o excesso de didatismo por vezes cansam. Sua função acaba sendo cobrir uma lacuna deixada por outros filmes sobre o mesmo tema, como Batismo de Sangue, O Que É Isso, Companheiro?, Hércules 56 e Cidadão Boilesen. Todos trazem histórias citadas em Marighella, mas não aprofundadas por este filme – assim como Carlos Marighella foi citado neles, sem ser também aprofundado. Ou seja, trata-se de mais uma peça neste quebra-cabeças que o cinema brasileiro vai, ano após ano, montando sobre um dos períodos mais negros da história brasileira. Mediano.

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