MARCELO RUBENS PAIVA: Sou de esquerda, qual é o problema?

Sou de esquerda, qual o problema?

 

Eu sou de esquerda. É um defeito meu. Sempre fui. E qual o problema?

Se você é de direita, de centro, eu sou de esquerda.

Se você defende uma sociedade de Estado mínimo, que não interfere nas regras do mercado livre, eu defendo um Estado de bem-estar social, saúde e educação públicas.

Tudo bem. Podemos ter opiniões diferentes sobre o mesmo assunto. Afinal, somos democratas antes de tudo.

Aceito a alternância no poder.

Apoio Cuba? Não. Estive lá nos anos 1980 e não gostei de ver um país militarizado com tanta restrição à liberdade de ir e vir, imprensa e de expressão. Ora, nós aqui tínhamos acabado de sair da ditadura…

Sou comunista? Não. Estive na URSS e vi um Estado se sobrepor ao cidadão. Deveriam caminhar em paralelo. Estive na Estônia ocupada e Alemanha Oriental e vi nações dominadas por outra, invadidas, tomadas, saqueadas.

Sou a favor da reforma da Previdência, como Tabata. É um buraco que sangra as divisas, cria injustiças e precisa ser modernizado.

Não sou petista. Seria expulso do PT, como foram aqueles que votaram em Tancredo em 1984, na Constituinte em 1988 e no Plano Real em 1994. Seria expulso se criticasse o Mensalão, o Petrolão e as alianças com verrugas malignas da política nacional, como Maluf, Delfim, Jader, Sarney, Temer, Kassab, Renan, Collor… A lista é grande.

Já fiz boca de urna para Quércia, FHC, Lula (fiz campanha no LulaLá), sou eleitor de Eduardo Suplicy, votei já em Serra e, veja bem, Zé Dirceu e Aécio. Quem nunca?

Acho que Haddad foi o melhor prefeito que já vi. Sim, votei em Ciro. Que incoerente… Quem não é? Sou como a política brasileira. PSDB já foi de esquerda, lembra?

Não boicoto pensadores de direita. Ao contrário, até fico mais curioso. Sou fã de algum deles, como Nelson Rodrigues, Jorge Luiz Borges, Elia Kazan. Admiro Churchill.

Não gostaria de ser boicotado em feiras de livro, eventos, ir para uma lista negra.

Já estive numa lista negra. Em algumas. Devo estar ainda. Fazer o quê?

Perdi trabalhos e empregos por ser de esquerda? Sim, provavelmente.

Já pediram as minha cabeça? Com certeza.

Mas confio nos democratas que me aceitam ser do jeito que sou.

Por um tempo, uma grande emissora de TV deixou de me convidar e entrevistar, porque eu teria dito que ela é golpista.

Disse? Quem sou eu para dizer isso?

Tenho carteirinha de fundação do chamado PIG (Partido da Imprensa Golpista), parte da teoria da conspiração e complô em que muitos da esquerda e até da direita, como Olavo de Carvalho, acreditam.

Meu primeiro emprego, veja só, foi na #VejaLixo. Depois, trabalhei na #TVCulturaLixo, #FolhadeSPauloLixo. #GloboLixo, #BandLixo, #RedeTVLixo, #VogueLixo, Fundação Roberto Marinho, GNT, SporTV. Trabalhei no Fantástico!

E estou aqui, no Estadão, já há 15 anos, e Otavio Frias Filho foi dos meus melhores amigos.

Sou um conspirador histórico.

Já dei entrevistas para o Jornal Nacional, para William Waak do Jornal da Globo, inúmeras vezes para o Jornal Hoje, VideoShow, Jô, Bial, Faustão, adoro a GloboNews e sou amigo de décadas de muitos deles, como Bonner, Sandrinha e Lo Prete, bróder de Sergio Groisman e de muitos da dramaturgia e humorismo.

Fiz peças de teatro no #SesiGolpista, mamei dinheiro de palestras do Sesc e CCBB. Tive filmes e peças patrocinadas por leis de incentivo. Fiz livros de encomenda para grandes corporações, como Itaú, Smile, Boticário, Lindt Kopenhagen.

E cobrei caro.

Mas como assim, se sou de esquerda?

Sou de esquerda, mas tenho iPhone, gosto de um bom vinho, adoro Nova York, Londres, e não sinto a menor vontade de ir pra Venezuela, cujo regime, aliás, considero podre, uma ditadura militar disfarçada de socialismo.

Tenho apenas quatro sapatos, mando fazer minhas calças, uso camisetas Hering, prefiro metrô e busão a dirigir. Mas, se der, só viajo de executiva. Se é a trabalho, exijo.

Acho stalinismo abominável. Sei que Trotsky tinha livros sobre cultura, mas seu regime de terror era um horror.

E mesmo assim, sou de esquerda.

Desculpe aí, já disse, é um defeito.

Não consigo não ser. Tudo bem pra você?

 

MARCELO RUBENS PAIVA, jornalista, dramaturgo e escritor, é colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Autor de Feliz Ano Velho, Blecaute, O Orangotango Marxista, O Homem Ridículo e outros livros. Artigo publicado originalmente no Estadão, edição de 18.7.19

1 Comentário

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  1. - IP 201.22.168.72 - Responder

    Ser de esquerda é não ter tido oportunidade de ter acesso à informação ou na infância ou na adolescência.Por razões sociais ou por ignorância mesmo.

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