MARCELO FERRAZ: Alguns seguidores tem por Bolsonaro paixão política quase esquizofrênica

A psicose bolsonarista

Por Marcelo Ferraz

O medo estarrecedor de que um governo de esquerda – do tipo petista e lulista se instale no poder novamente – está roubando o discernimento de boa parte da população e permitindo que um representante da extra direta imponha os seus planos antidemocráticos e autoritários à toda sociedade brasileira, o que coaduna com a visão ideológica totalitária, à qual traçou toda a sua carreira política: revanchismo, perseguição e ataques gratuitos aos adversários políticos.

Para tanto, o mito se aproveitou da revolta da população com a corrupção na política em geral, do medo generalizado por conta da insegurança cotidiana   e, usando o poder das Forças Armadas, se fez “entender” como sendo o único salvador da pátria “capacitado” e escolhido por “deus” para salvar o país “das garras da libertinagem comunista dos companheiros petistas”. Com esse discurso moralista, bélico e revanchista conseguiu chegar ao poder.

Porém, muitos já se arrependeram amargamente de ter escolhido, na visão do eleitor de Bolsonaro, a única opção que não fosse um nome atrelado aos partidos de esquerda(naquele momento da eleição)  para ocupar o cargo mais importante da república, pois o discurso demagógico do atual presidente se tornou ainda mais radical e hipócrita, pois tudo que ele criticava em seus adversários acabou o fazendo na primeira oportunidade do mandato. Este já considerado o mais emblemático após a redemocratização da república.

Quem acompanha o desenvolvimento das Políticas de Estados, independente de partidos ou convecção política, tem a noção que metas planejadas por especialistas e técnicos – na Educação, Cultura, Ciência, Meio Ambiente e demais setores – foram negligentemente interrompidas e distorcidas pelo atual governo. Tudo isso, para enquadrar as decisões políticas ao “novo modelo” de se administrar o Brasil.

Resta saber até quando o Congresso Nacional vai legitimar essa marcha para o Estado de Exceção; aprovando a mutilação e a deturpação da CF/88. Ou seja, resumindo em poucas palavras, a visão dos bolsonaristas é extinguir de vez a social democracia e deixar a sociedade totalmente dependente de um poder econômico vigente no país, à margem do Estado Democrático de Direito.

Contudo, essa psicose coletiva, que a cada dia vem sendo nutrida pelo próprio Bolsonaro, tem feito milhões de brasileiros a agirem exatamente da forma como ele dissemina suas palavras de ódio e rancor. Ou seja, se alguém ousar a pensar de forma diferente que o líder deles, será massacrado, perseguido e humilhando, seja nas redes sociais ou em público, ainda que seja um cientista, um jurista, um professo ou jornalista, “se está contra as ideais do mito, está contra o Brasil”.

Mesmo que, para isso, tenha que colocar em xeque toda a estrutura do ordenamento jurídico, a independência do Legislativo, a liberdade de imprensa e os valores da dignidade humana, enfim, em suma, a própria Constituição Federal em vigor neste país. No entanto, esse exército de gafanhotos bolsonaristas não está levando em conta e sopesando os enormes prejuízos que a escalada dessa visão autoritária pode trazer à democracia brasileira, dadas as manifestações psicológicas negativas dessa doença, que vem minando o que resta de bom senso e humanidade dessas pessoas.

Mesmo que o atual presidente tenha rompido até com o mínimo ético do decoro presidencial, adotando medidas autoritárias que contrariam as mentes mais racionais – seja de intelectuais com vertentes ligadas à esquerda ou da direita civilizada – os seus seguidores infelizmente ainda não desvencilharam completamente das amarras emocionais que advêm do discurso do “Grande Mito”, ou seja, uma paixão política quase esquizofrênica.

O próprio jurista e um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o professor Miguel Reale Júnior, que almejava uma mudança positiva na política do país, assim como toda sociedade, reconheceu essa insanidade ideológica de Bolsonaro. Em sua opinião o presidente Jair Bolsonaro (PSL) vive um “processo alucinatório” e coloca a democracia brasileira em risco.

Para Reale Júnior, o governo Bolsonaro vem atacando “todas as classes que representam uma capacidade crítica”. O jurista chama isto de “fascismo cultural”. “O fascismo cultural corta pela rama toda a capacidade de pensamento, de crítica, de divergência. A diversidade desaparece. O lema é este: é proibido pensar, mas é permitido obedecer”, afirma o jurista, que é professor titular de direito penal da Faculdade de Direito da USP.

Esses sintomas iniciais caóticos, em decorrência dessa psicose coletiva, também foram vivenciados da mesma forma em épocas que precederam o apogeu do totalitarismo pelo mundo afora, como na Alemanha com o nazismo de Adolf Hitler (1889 – 1945); como na Itália com o fascismo de Benito Mussolini, (1883 – 1945; como na Rússia com o comunismo soviético de Josef Stalin (1878 –1953). Assim sendo, quando o populismo se associa ao autoritarismo, a coisa toda desanda para um rumo opressivo, que usurpa as razões democrática de qualquer Nação.

Para concluir, é pertinente ressaltar uma frase dos maiores politólogos do século XX, Norberto Bobbio (1909-2004): “Apenas posso dizer que os preconceitos nascem na cabeça dos homens. Por isso, é preciso combatê-los na cabeça dos homens, isto é, com o desenvolvimento das consciências e, portanto, com a educação, mediante a luta incessante contra toda forma de sectarismo. Existem homens que se matam por uma partida de futebol. Onde nasce esta paixão senão na cabeça deles? Não é uma panaceia, mas creio que a democracia pode servir também para isso: a democracia, vale dizer, uma sociedade em que as opiniões são livres e portanto são forçadas a se chocar e, ao se chocarem, acabam por se depurar. Para se libertarem dos preconceitos, os homens precisam antes de tudo viver numa sociedade livre.”

Como disse um dia George Washington: “Quando a liberdade de expressão nos é tirada, logo poderemos ser levados, como ovelhas, mudos e silenciosos, para o abate.” Contudo, a cura para essa psicose coletiva é a informação, o bom debate dialético e a pesquisa da História Oficial etc. O cidadão bem informado, que faz o bom uso da liberdade de expressão, jamais será escravo dessas correntes fundamentalistas, que por sua vez, tentam a todo momento minar as energias democráticas desta nação.

Marcelo Ferraz é jornalista e escritor.

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