LUIZ HENRIQUE LIMA: Sei que há poucas chances de ser atendido, mas gostaria de apelar aos marqueteiros: não façam das campanhas um torneio de golpes baixos, mas a celebração do pluralismo e do voto consciente

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O marqueteiro, o bicho-papão e o Papai Noel
Luiz Henrique Lima

Inicia-se a campanha eleitoral e, de norte a sul, de leste a oeste, as atenções se voltam para o processo de escolha democrática dos novos presidente, governadores e parlamentares.

Confesso que até hoje me emociono quando me dirijo ao local de votação. Na hora em que deposito/digito meu voto, sempre faço uma prece rápida, nem tanto pela vitória dos candidatos que escolhi, mas principalmente para que aqueles que forem os vitoriosos possam honrar a confiança popular e ter sucesso nas difíceis missões de legislar e de administrar a coisa pública. Como muitos dos leitores/eleitores já votei em candidatos que venceram e em outros que perderam, já votei em candidatos que me representaram e em outros que me decepcionaram, já acertei e já errei e estou sempre tentando aprender.

Conheço pessoas que ficam irritadas quando a eleição se aproxima. Reclamam da poluição sonora de carros de som e comícios, da poluição visual de placas e cartazes, da poluição urbana dos panfletos jogados ao chão, da poluição de mensagens nas redes sociais da internet, da propaganda na tevê que atrasa o horário da programação favorita. São uns chatos, que não percebem a importância do debate público acerca dos temas de interesse geral. São cidadãos ranzinzas, encerrados nas bolhas de seus interesses individuais, que não valorizam a democracia, com sua vitalidade e excessos.

Claro que em toda eleição assistimos um rosário de asneiras perpetradas por candidatos despreparados. Não vivemos numa sociedade de sábios ou de ascetas. Claro que nas campanhas existirão boatos, estratagemas e ardis. A disputa pelo poder político não se assemelha a candidaturas à beatificação ou a gincanas de castidade. Assim, em todos os países democráticos há eleições cujos resultados são mais ou menos influenciados por tropeços ou trapaças nas campanhas.

Todavia,à medida que a democracia se consolida, crescem a consciência e a informação política e tende a melhorar o nível dos debates, a qualidade das propostas e a utilização de propaganda inteligente e respeitosa. Por exemplo, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, há debates muito duros entre os candidatos, mas sem descer a ofensas pessoais ou familiares. Aqui, creio que estamos evoluindo.

Um dos personagens centrais de nossas eleições é o chamado marqueteiro. Em certos casos, parece que sua escolha é mais importante que a do próprio candidato, tamanho é o poder que a ele se atribui de ditar ao candidato o que falar e como se vestir, decidindo desde o slogan da campanha ao penteado que irá aparecer nos panfletos.

Nos últimos tempos, nossos marqueteiros não têm sido muito criativos e sempre têm utilizado outros personagens já desgastados: o bicho-papão e o Papai Noel. O bicho-papão é como procuram caracterizar o candidato adversário, capaz de todas as maldades possíveis e que fará o estado ou o país regredir à idade das trevas. O Papai Noel é a fantasia com que querem apresentar o nome de sua predileção, cuja vitória promete um saco de presentes para todos os eleitores e grupos sociais ao mesmo tempo: aumento de salários e de investimentos, além da contratação de mais funcionários e da ampliação de benefícios sociais, tudo isso combinado com redução de impostos e tarifas públicas, numa equação impossível de fechar no papel, mas que soa maravilhosa nos anúncios da campanha. O bicho-papão e o Papai Noel buscam manipular emoções inconscientes de medo e de ambição.

Sei que há poucas chances de ser atendido, mas gostaria de apelar aos marqueteiros: respeitem a nossa inteligência e este ano nos poupem do bicho-papão e do Papai Noel! Desenvolvam campanhas criativas, alegres, propositivas, equilibradas. Trabalhem com a emoção, sim, mas com sentimentos positivos, como esperança e solidariedade. Não façam das campanhas um torneio de golpes baixos, mas a celebração do pluralismo e do voto consciente. Boa sorte aos brasileiros!

 

luiz henrique lima tcemt


Luiz Henrique Lima, Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT, graduado em Ciências Econômicas, especialização em Finanças Corporativas, mestrado e doutorado em Planejamento Ambiental, Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia.

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