LUIZ GALETTI LANÇA LIVRO “GREVE E SOCIALISMO”: A partir das greves na Sadia Oeste, na Teka e na Cervejaria Cuiabana, em 1990, Luiz Galetti disseca estrutura e ideologia do movimento operário em Mato Grosso

Luiz Galetti, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília

Luiz Galetti, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília. Foto Hegla Oleiniczak/DC

 

A face cuiabana do movimento operário  

 

 

A partir das greves na Sadia Oeste, na Teka e na Cervejaria Cuiabana, em 1990, Luiz Galetti disseca estrutura e ideologia do movimento operário em nossa região

 

JOÃO BOSQUO

DIÁRIO DE CUIABÁ

 

As greves dos operários das empresas Sadia Oeste, em Várzea Grande, Cervejaria Cuiabana e Teka Agro Industrial, em Cuiabá, nos meses de maio a junho de 1990, são ‘destrinchada’ no estudo do professor Luiz Galetti, do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFMT, foco de sua tese de doutorado, defendida na USP, e que resultou no livro “Greve e Socialismo – Movimento Operário e Cuiabá e Várzea Grande”, editado pela Editora UnB.

 

Luiz Galetti, professor da UFMT, provisoriamente emprestado ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), está em Cuiabá para o lançamento desta sua mais recente obra,nesta quinta-feira, 19, no Saguão do ICHS da UFMT e deve reunir educadores, pesquisadores, lideranças sindicais e políticas.

 

Embora o livro seja resultado de um doutorado, defendido em 1999, o professor faz questão de destacar que foi acrescido de mais um capítulo para contar a história do movimento entre a data de defesa até 2009, quando se definiu pela sua publicação. Por que só agora, o livro chega às mãos do leitor? Porque aí entram os detalhes da dificuldade de se publicar qualquer trabalho de cunho acadêmico – de pouco apelo comercial – mesmo por uma editora universitária consagrada de uma das mais conceituadas universidades do Brasil que é a UnB.

 

Por que dessa abordagem, centrada no movimento grevista em Cuiabá e Várzea Grande, pergunta-se. Porque a greve dos operários nessas três grandes empresas foi “um acontecimento marcante na história do movimento grevista operário local”, com repercussão nacional, já que a Sadia já era bastante conhecida e sua unidade aqui em Mato Grosso abatia em média 1.500 cabeças de gado e exportava carne, com destaque para o mercado do  Oriente Médio.

 

Luiz Galetti garante que antes de 1990 nenhuma greve marcou a história do movimento sindical de Mato Grosso. O que só faz crescer a importância das paralisações que sacudiram Cuiabá, no início dos anos 90.

 

A greve geral, é bom lembrar, aconteceu no governo Collor, depois da primeira derrota de Lula, quando as forças de esquerda ainda estavam unidas. Grupamentos como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o Partido Comunista Brasileiro,  o Partido Comunista do Brasil, o PT e movimentos como a Convergência Socialista ( de viés trokstista) e a Pastoral Operária, da Igreja Católica. A investigação produzida por Luiz Galetti trata a manifestação grevista das mais diversas angulações, ao mesmo tempo que contextualiza a luta operária dentro do momento histórico de articulação de forças políticas tidas como progressistas em torno da causa democrática no contexto mato-grossense.

 

Essa greve em Mato Grosso, portanto, é um marco e precisava desse registro. Para fazer o recorte do movimento operário no Estado, o professor traça um rápido retrato da esquerda e de todos os partidos que atuaram nessa luta de forma conjunta.

 

A luta sindical dos trabalhadores na indústria de alimentos e bebidas, de acordo com o que revelam as pesquisas do professor Galetti, se iniciou de forma clandestina, embora a liberdade sindical – em tese –, com a Constituição Cidadã de 1988, já existisse.

 

Os operários primeiro formaram uma associação. Existia um temor verdadeiro de que se os patrões descobrissem a existência de um movimento sindicalista em gestação, seus líderes pudessem ser despedidos das fábricas. “Também faço uma breve história do empresariado em Mato Grosso, procurando documentar no surgimento de plantas industriais importantes como a Sadia Oeste, a Cervejaria Cuiabana e a Teka e os impactos destes investimentos na economia do Estado”.

 

O relato que fala mais diretamente ao coração cuiabano, claro, é o que trata do surgimento da Cervejaria Cuiabana, fruto da luta de empresários locais que queriam uma cerveja cuiabana para contrapor à produzida pela cervejaria de Corumbá. Depois de alguns anos de atividade, a fábrica fundada pelo empresário Arquimedes Pereira Lima, acabou incorporada pela Brahma que, por sua vez, veio a se fundir com a Antártica, resultando na poderosa Ambev – e sabe-se lá mais o que.

 

Luiz Galetti, doutor em Sociologia, iniciou a carreira profissional como Engenheiro, formado pelo ITA, trabalhava em uma indústria, onde ele se identifica como um “capataz” e acaba por envolver com o movimento de resistência à ditadura militar, preso por sua militância no ano de 1970 e recolhido ao DOPS do Rio de Janeiro. Depois desta experiência, se voltou para as ciências sociais e fez o mestrado em Ciência Política na Unicamp. Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, ainda em Campinas. Na década de 80 veio para Mato Grosso para realizar um estudo junto aos pescadores ribeirinhos, depois trabalha em uma pedreira e, finalmente, ingressa na UFMT, em 1986.

 

Pela sua formação na engenharia, o seu novo trabalho de pesquisa é calcado em dados substanciais. Tanto que o livro “Greve e Socialismo”, em seu capítulo 7 – ‘Os números da Greve’ – traz gráficos, tabelas de evolução dos salários, tabelas de produção, enfim, números que dão sustentação às teses levantadas e revelam um critério técnico acurado.

 

O professor Luiz Galetti avalia que as universidades tem prestado sua contribuição positiva quanto à pesquisa e à extensão, enquanto o acesso às essas universidades, continua privilegiando os filhos da da classe média, média alta e a burguesia.

 

Quanto ao movimento sindical que acontece na Grande Cuiabá, nos dias de hoje, o professor diz que existe uma fragmentação, um “racha”, que enfraquece muito a luta, principalmente das categorias menos politizadas e organizadas. Uma das causas dessa divisão ele credita ao “famigerado” imposto sindical e à existência de uma dezena de siglas: CUT, CTB, CGTB, NCS, Força Sindical, entre outras, que se batem pela apropriação deste imposto.

 

Os partidos políticos, por seu turno, também estimulam essa divisão, como as entidades religiosas e empresarias. Com a globalização, a grandes corporações tem investido nessa fragmentação.

greve e socialismo

Serviço

 

Lançamento: “Greve e socialismo – movimento operário em Cuiabá e Várzea Grande – 1990”, de Luiz Carlos Galetti

 

Quando: Quinta-feira, 19 de março

 

Horário: 18h30

Aonde: Saguão do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), na UFMT, campus de Cuiabá.

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