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LUIS FERNANDO VERÍSSIMO: O futebol brasileiro não está tão medíocre assim

Garrincha e Pelé, nos anos 60

Algum craque de hoje se destacaria no futebol do passado, tendo que competir não no fôlego e no tranco, mas no puro brilho? É o que pergunta o escritor e cronista Luis Fernando Verissimo, em sua coluna deste domingo, 12.8.17, em O Globo. E ele mesmo responde:
 
 
 
Não há o que criticar na seleção do Tite, embora, para muita gente, a cada nova convocação mais transparece a mediocridade reinante no futebol brasileiro. Uma opinião injusta, porque nosso futebol não está tão medíocre assim e porque cada nova geração de jogadores é comparada com as gerações dos anos de glória, e fatalmente perde no confronto.
Mas comparar eras só serve para destruir fantasias do tipo “seleção brasileira de todos os tempos”, em que Zizinho troca passes com Falcão e Garrincha cruza para Leônidas cabecear. Não dá para comparar. Grandes estilistas do meio-campo não jogariam hoje da mesma maneira que jogam na nossa memória com um adversário super treinado chutando seu calcanhar e bufando no seu ouvido. Mas tem o outro lado: algum craque de hoje se destacaria no futebol do passado, tendo que competir não no fôlego e no tranco, mas no puro brilho? Talvez sim, mas ninguém se lembraria deles hoje.
Eras e estilos não são comparáveis em nenhum tipo de arte. Quem foi o maior pintor de todos os tempos? Não vejo como o título poderia fugir da Espanha. Velázquez, Goya ou Picasso — este atuando em várias posições — mereceriam a escolha mais do que, por exemplo, Michelangelo Buonarroti. Mas o time italiano é forte: Rafael e Tiziano na zaga, Botticelli e Tintoretto no meio, Leonardo na lateral e os holandeses Rembrandt e Hals (comprados pelo Milan) na frente, além de Michelangelo. E onde colocar o Giotto? Na história da arte, os murais de Giotto significam mais do que o teto da Capela Sistina. Giotto foi uma ruptura radical com o passado; Michelangelo não.
Picasso merece entrar na disputa? Teve a vantagem sobre Velázquez, Michelangelo e os outros de viver numa era em que a canibalização cultural, o pastiche e a irreverência se tornaram artisticamente respeitáveis e pôde usar todos os estilos e materiais, do clássico ao primitivo, do plástico ao miolo de pão — e a obra de Velázquez e de Michelangelo também — na sua arte. Foi, talvez, o último pintor a dominar tanto o rigorismo formal que lhe permitiria sobreviver, e brilhar, com a inventividade e a audácia que o mantiveram atual até a morte. Picasso foi como Pelé, um craque para qualquer era.
Luís Fernando Veríssimo é jornalista e escritor brasileiro
FONTE O GLOBO

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