LÚCIA PALMA É BEM MATO GROSSO: O trabalho mais recente de Lucia Palma foi o espetáculo “Encontro das Artes”, numa parceria com o Grupo Villa Real de Música de Câmara,enriquecido com a performance dessa que é considerada a atriz mais completa de Mato Grosso e que marcou o teatro mato-grossense – não só como atriz mas também como diretora, escritora e gestora, por quase uma década, na UFMT

Lúcia Palma, atriz cuiabana

Lúcia Palma, atriz cuiabana


Lúcia Palma é bem Mato Grosso

A atriz integrou o elenco da mítica peça “Rio Abaixo, Rio Acima” e agora faz rir com “Os Crônicos”

JOÃO BOSQUO
DC Ilustrado – Diário de Cuiabá

Fotos de Lorival Fernandes

O trabalho mais recente de Lucia Palma foi o espetáculo “Encontro das Artes”, numa parceria com o Grupo Villa Real de Música de Câmara, em um show desenhado para a estreia do grupo ,enriquecido com a performance dessa que é considerada a atriz mais completa de Mato Grosso e que marcou o teatro mato-grossense – não só como atriz mas também como diretora, escritora e gestora, por quase uma década, na UFMT.

A primeira vez que Lucia Palma ‘subiu’ ao palco foi com 5 anos idade, quando interna no Asilo Santa Rita, uma chácara que ficava vizinha ao bairro Porto. Só para localizar: ao fundo do Santa Rita, fica o Hospital Geral de Cuiabá. Nascida na 24 de Outubro, mas antes de completar um ano, a família muda para o Porto. “Sou ‘povo’ do Porto, como se dizia antigamente”.

Passa três anos em Poconé, retorna para Cuiabá e aos 12 anos integra a Companhia de Artes S. Luiz, que tinha como sócios Luiz Zair e Maria do Bar. Esse grupo se apresentava no pátio da Igreja São Gonçalo, que mais tarde veio a construir o auditório e se tornar o centro cultural da região do Porto.

Cursa o Normal, na Escola Pedro Celestino e ajuda a fundar o grêmio estudantil em parceria com Marilza Ribeiro e Luizinha Cuiabano, depois vai fazer Pedagogia na UFMT. Ao mesmo tempo começa uma longa – eterna – parceria com Glorinha Albuês que, na década de 70, realiza uma infinidade de cursos Tempo de Teatro.

E veio uma penca de conceituados profissionais do teatro brasileiro dirigirem oficinas, workshops. Nomes como Paulo Coelho, antes de se tornar ícone da literatura esotérica , fazia Teatro Educação; Jesus Chediac – que se apaixonou pelo talento de Lúcia Palma, dizendo que ela seria a sucessora de Cacilda Becker; Amir Haddad, de cuja oficina participam também os integrantes do Gambiarra; Rubens Corrêa e convidados de países vizinhos: Sônia Ringel (Uruguai), Maria Fux (Argentina) e Hufo Herrera (Panamá), entre outros.

Acompanha o marido, o economista Manoel Pinto, que vai estudar em Minas, e em Belo Horizonte, entre 1976 e 1979, participa de oficinas, sendo uma delas com direção de Álvaro Apocalipse, na criação de 18 bonecos e com o grupo Giramundo do Festival de Inverno de Ouro Preto, no qual acontece a primeira audição mundial de “El Retábulo de Maese Pedro“, que foi montada aqui no ano passado, com direção de Sandro Lucose e, não podemos esquecer, participação de Carlão dos Bonecos.

Ainda em BH, na peça “Poesia em Cena”, além de atuar como atriz, foi codiretora com Antônio Augusto Lages. Foi selecionada para o Festiminas/78, com montagem de peça com Hans-Joachim Koellreuttter, Edino Krieger, Fernando Lébeis, Fanny Abramovich e com participação do Conservatório de Música mineiro cria e dirige o teatro-ciência “A criação do universo”.

Ao retornar para Cuiabá, sob a direção de Glorinha Albuês, atua na montagem da peça “Ogiramundá”, e da mítica “Rio Abaixo, Rio Acima, ou Ergue o Mocho e Vamos Palestrar”, que foi selecionada para o Mambembão de 1980. “Rio Abaixo, Rio Acima” foi o primeiro trabalho de arte e cultura de Mato Grosso a ser apresentado em MS, registra-se.

A peça, é bom que se diga, começou a surgir a partir de um pedido de Miguel Biancardini, que encomendou a Glorinha um trabalho para um congresso do Rotary Club.

Abre-se espaço para nota comovente: Lucia Palma vai a Belo Horizonte para realizar a laqueadura. Fica na casa de uma amiga, Margarida, que está viva para testemunhar. No retorno do exílio, pós-ditadura militar, em uma das suas primeiras atividades, o dramaturgo Augusto Boal vai a Minas. Tinha quatro dias de operada, com recomendação enérgica do médico para repouso. Lucia até tenta convencer a amiga irredutível, que fez uma proposta: “Vou e conto depois tudo o que ele disser”. Na volta, a amiga, ajoelha-se junto a cama e pede perdão por não tê-la deixada ir e explica: Boal, em dado momento, diz que, nos últimos anos, tinha visto apenas dois espetáculos de caráter popular. O primeiro era de um grupo de São Paulo e o segundo, com todas as letras, “Rio Abaixo, Rio Acima”.

Agora uma nota triste. Lucia Palma lembra que realizou junto com Glória Albuês, quando esta era diretora do programa “Vitrine”, inúmeras encenações para a TV Centro América que hoje comemora festivo aniversário e não relembra um mísero trecho dos quadros por elas gravados, o que não deixa de ser sabotagem contra a memória regional.

Entre os últimos trabalhos, cita também os trabalhos no cinema, da diretora Marithê Azevedo, o mais recente “Licor de Pequi” (2015), que tem ainda no elenco Luana Costa e a pequena Flor. No último dia 2, integrou o grupo “Crônicos”, criação de Marilia Beatriz, que fez performance durante a posse da Cristina Campos, na AML.

“Os jovens acreditam que somos prisioneiros dessa fase… Ninguém é prisioneiro”, diz Lúcia Palma e ressalta que tudo que acontece hoje na área cênica – incluindo o audiovisual – deve-se a luta daqueles abnegados dos anos 70. Como está a política cultural? Ela torce a cara e diz que em Mato Grosso, hoje, falta uma política de editoração, para resgatar esses trabalhos em texto e preservar a memória.

Ah, o espetáculo “Encontro das Artes”, com o Villa Real, continua à disposição.

E1A - 1 - LUCIA PALMA

1 Comentário

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  1. - IP 189.59.36.92 - Responder

    Lucia Palma sempre teve um enorme talento para as artes cênicas e com o tempo só fez melhorar. Lembro bem dela ainda adolescente, representando peças teatrais no salão paroquial da igreja São Gonçalo do Porto que foi muito ativa culturalmente nos finais dos anos 1950 e em toda a década de 1960. Ela se destacava em papeis humorísticos que fazia primorosamente e eu adorava assistir. Vida longa para a Lucia Palma e muitas realizações!

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