LUANA SOUTOS: Eu voto nulo. Com grande quantidade de votos nulos, os caras eleitos vão parar e pensar que, sem a legitimidade que esperavam, deverão ter cuidado com o que vão fazer

Por Enock Cavalcanti em Cidadania | Gente que faz | Jogo do Poder | Nação brasileira - 22/10/2012 20:13

Luana Soutos é jornalista em Cuiabá, Mato Grosso

Eu voto nulo
Por Luana Soutos

Eu voto nulo porque a política vai muito além do ato de votar. O voto nulo não anula eleição, mas é uma maneira de demonstrar que estamos insatisfeitos com os candidatos “colocados na prateleira” ou mesmo com o sistema eleitoral, que é bastante restrito e nada democrático. Primeiro, porque, teoricamente, as pessoas são convencidas de que as opções são somente aquelas, e que só através do voto é possível mudar alguma coisa.

Mas os partidos que conseguem eleger alguém, são sempre os mesmos, liderados pelos caras que estão aí há anos, só sugando o dinheiro do trabalho do povo para beneficiar seus negócios. Os pequenos partidos e, em especial, aqueles partidos que apresentam projetos que realmente trazem alguma diferença, são massacrados pelo sistema eleitoral e pela mídia. Nada é igual, nem a quantidade de recursos, nem o espaço na mídia, nem a atenção para as diferenças de projeto.

Eduardo Galeano tem um conto que pode elucidar bem essa questão. Um bondoso e democrático cozinheiro chamou as aves que cozinharia para perguntar a elas com que molho gostariam de ser comidas. Uma delas simplesmente respondeu que não queria ser comida com molho algum. “Mas isso está fora de questão”, disse o cozinheiro.

Acreditar que somente a eleição pode trazer alguma diferença é limitar nossa atuação política, enquanto cidadãos e, portanto, reais detentores do poder. Escolher algum candidato qualquer, principalmente desses que já fazem parte da elite econômica e política da nossa sociedade, é legitimar um sistema que serve para beneficiar alguns. E é essa a intenção do sistema eleitoral como é aqui no Brasil – por isso o voto é obrigatório.

O voto nulo, ao menos, deixa clara a posição de que nós sabemos que existem outras alternativas, e que nós mesmos podemos fazer diferente, independente de quem esteja lá nos “representando”. Com grande quantidade de votos nulos, os caras eleitos vão parar e pensar que, sem a legitimidade que esperavam, deverão ter cuidado com o que vão fazer, pois encontrarão a resistência de um povo que sabe que as decisões políticas não estão nas mãos dele.

Luana Soutos é jornalista em Cuiabá, Diretora de Fiscalização do Sindjor-MT e estudante de Ciências Sociais

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8 comentários

  • Acredito Luana, que votar branco, nulo ou se abster é um direito de qualquer cidadão. O que me deixa mesmo indignado é o eleitor inconsequente, iresponsavel e bandido que vende o voto para os picaretas da politicalha ladrona.

    Eu mesmo, em 12/09/2006 escrevi um artigo intitulado: “O VOTO NULO CONSCIENTE”

    Veja abaixo:

    O voto nulo consciente

    Diante das patifarias que há décadas, para não dizer há séculos, vêm se perpetuando na história do nosso país, o voto útil, se seguido à risca os padrões da moralidade e da ética, é uma das tarefas mais árduas que o eleitor terá que executar no momento de votar. É bom lembrar que “tempo de eleições é tempo de ilusões”, como bem demonstrou um dos mais lúcidos filósofos do existencialismo Jean-Paul Sartre no artigo “Eleições: armadilha para tolos”.

    A primeira falácia eleitoreira é a de que o voto nulo anula o cidadão. Além de ser uma grande bobagem, é de uma cretinice sem dimensão. No sistema onde o voto é obrigatório, o voto nulo é a saída coerente para o eleitor que não compactua com as práticas daqueles que utilizam os seus mandatos para roubarem os cofres públicos. Mas não é só isso, o voto nulo é também um questionamento firme contra a política econômica e social, tanto a de ontem quanto a de hoje, que tem privilegiado os ricos e esmagado a classe trabalhadora.

    Portanto, o voto nulo, mais que um simples protesto contra os politiqueiros que fazem cambalachos nas licitações públicas para receber comissões, propinas e “salários” extras, é a forma corajosa de denunciar, desmascarar e principalmente, a de não legitimar um sistema tão podre.

    Quem se esquiva das suas responsabilidades como eleitor, e se declara covarde, são exatamente aqueles que com o seu voto útil continuam legitimando os que se locupletam nas posições privilegiadas do poder para aumentar seu patrimônio pessoal, às custas de um povo que vive em condições de vida precárias e humilhantes.

    A postura do eleitor consciente deve ser a mesma do consumidor exigente. Se vamos comprar um produto, é lógico que devemos exigir a boa qualidade, validade e garantia daquilo que vamos pagar. Se os fabricantes ou vendedores não nos oferecem nenhuma segurança, é normal que nos reservemos ao direito de não comprar tal mercadoria.

    Assim também deve proceder o eleitor consciente. Se nenhum dos candidatos satisfaz as minhas exigências, não sou obrigado a votar em qualquer um. Essa conversa fiada de que temos que votar, nem que seja no menos pior, foi o que levou o país ao fundo do poço.

    Seguindo esse raciocínio, fica claro que nada pode me obrigar a continuar legitimando, com o meu “voto útil”, um sistema corrupto e injusto com o qual não concordo. Com isso quero dizer que votar nulo significa afirmar que sou contra toda a podridão, e não apenas contra este ou aquele político podre.

    Ao negar o atual modelo político, econômico e social, o voto nulo irá passo a passo preparando o terreno onde florescerá uma nova sociedade, um outro Brasil. Ao contrário de anular o “cidadão”, como pregam os “guardiões” da democracia dos ricos, o voto nulo consciente é uma via pacífica para a construção da democracia direta e participativa, o espaço saudável de consolidação da verdadeira cidadania.

    A segunda falácia eleitoreira, tão boba ou cínica quanto a primeira, é a de que “quem anula o seu voto não tem o direito de cobrar dos eleitos”. Ora, se votar nulo não desobriga o eleitor de pagar os arrojados impostos, como também não o exclui da lista dos contribuintes, nem tampouco de cumprir as leis feitas pelos eleitos, fica claro que esta “pregação” é totalmente falsa, para não dizer idiota. Isso é lógico.

    O fato é que o voto nulo é um direito legítimo previsto na legislação. Isso quer dizer que quem vota nulo continuará gozando plenamente dos seus direitos políticos, podendo fiscalizar, cobrar e exigir a boa aplicação do dinheiro público que é de todos nós.

    Finalizando, o voto nulo é voto consciente. È um grito profundo contra a corrupção, a impunidade e as injustiças. O voto nulo consciente é muito mais, é uma das variedades das “sementes de transformação”. Estamos todos na mesma corrente, como diz o nosso hino: “Esse é o nosso país, essa é a nossa bandeira. É por amor a essa pátria Brasil que a gente segue em fileira“.

    * ANTONIO CAVALCANTE FILHO

  • Luana Soutos, e Antonio Cavalcante: em primeiro lugar, a justiça eleitoral brasileira considera igualmente os dois votos ‘nulos’ e ‘brancos’ sendo que a tese do branco ser para ‘qualquer um dos candidatos’ e o nulo (de protesto) para ‘nenhum dos candidatos’ não funciona por aqui. Se funcionasse o cálculo eleitoral seria diferente, no primeiro turno os votos nulos engrossariam os votos dos minoritários dificultando mais os 50% + 1 para alcançar a vitória. Com uma votação expressiva no ‘nulo’ poderia até anular a eleição no 2º turno caso somada ao candidato derrotado superasse os 50%!
    Mas não é assim.
    Em segundo, Luana, você é nova, mas profissional do jornalismo, uma pesquisa sempre é aconselhada nestes casos.
    Na ditadura tínhamos 2 partidos, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e a ARENA (Aliança Renovadora Nacional). Costumávamos chamá-los de partido do SIM e o do SIM SENHOR tamanha a subserviência e o próprio medo vigente.
    Em uma das primeiras eleições da década de 70 pregou-se o voto nulo, como forma de protesto, muitos acreditando que com aquela ‘resposta das urnas’ afetaria inclusive a credibilidade e a validade das eleições.
    Ledo engano, a partir daquela votação onde a oposição à ditadura votou nulo a ARENA tornou-se ‘o maior partido do ocidente’* – segundo as propagandas oficiais – deixando de fora do legislativo inúmeros combatentes que por mais pouco fizessem, pelo menos estavam nas trincheiras defendendo-nos contra o arbítrio daqueles dias.
    Em terceiro: vamos mais recentemente, em um país aqui vizinho.
    A oposição toda retirou suas candidaturas…
    Foi uma festa…kkkkkk

    Por isso digo: vote em alguém, faça-o saber antes de seu voto e o avise: estarei de olho em seu mandato! Nas suas ações! Na sua conduta!
    Que ele saiba que irás cobrá-lo e denunciá-lo caso necessário, afinal você é sua eleitora!
    Tenho certeza que irás ajudar muito mais nossa democracia e também nossa cidade.

    * Foi tamanho o estrago no MDB que na eleição seguinte onde o voto de protesto foi canalizado ao mesmo que se viram obrigados a fazerem eleições suplementares onde o MDB teria eleito mais proporcionais que os candidatos apresentados.
    Com este mar de votos (estes sim VÁLIDOS) que iniciou-se a queda daquela ditadura!

  • João disse:

    Olha aí, Ceará, às vezes até os Joões concordam com os Carcarás. Concordo quando você reconhece o direito do cidadão não ser obrigado a votar. Mas, discordo, é claro, da tese da democracia de “classes”. Democracia participativa, vá lá, pois participar é direito de todos e é bom. Ruim é certos representantes da “nomenclatura”, como fazem os Carcarás, aqui neste mesmo espaço, declarar a necessidade de calar as vozes discordantes. Quanto à suposta democracia direta, isso não existe nem existirá, pois é dá essência do sistema democrático, a eleição, pelo povo, de representates, para em seu nome exercer o poder. Logo, a democracia será sempre representativa, podendo ser participativa, com mais participação do povo no governo, mas nunca dispensará os representantes.
    Com o SAROBA, concordo que o mar de votos iniciou a queda da ditatudura militar. Aquele mar de votos obtido pelo velho MDB na eleição do 1974 foi conquistado por políticos que acreditavam sinceramente na Democracia, enquanto que os falsos democratas, que se arvoram em responsáveis pelo fim da ditadura, eram na verdade a favor de outra ditadura. Eles, com sua luta para implantar no Brasil uma ditadura nos moldes cubano/soviética, apenas legitimavam o regime militar. Ou seja, davam aos milicos o pretexto de que implantaram aquela ditadura para evitar uma outra ditadura, que, com certeza, viria, caso os admiradores do Che Guevara triunfassem. Felizmente, os comunistas perderam. Hoje, podem exercer os seus direitos, inclusive os políticos, graças aos verdadeiros democratas que verdeiramente eram contra a ditadura. Não fosse a luta dos democratas verdadeiros, os falsos nem teriam sido beneficiados pela anistia conquistada pela ação política de resistência democrática levada a efeito por quem, de fato, acredita na democracia como um valor maior e não como uma falsa bandeira.

  • LUIZ SETTINERI, quando se fala aqui, do voto nulo, não se trata de pretender com isso anular a eleição. Sabemos que não anula. Trata-se apenas de dizer aos partidos e aos seus “donos”, que não acreditamos neles…Motivos para tanto não nos faltam, não é mesmo?

    No proximo ano vamos nos mobilizar para entregar ao Congreso a REFORMA POLITICA POPULAR, com ela pretendemos extipar os engodos e desmascarar as farças do atual sistema politico brasileiro. Somente assim conquiataremos o otimismo e a confiança no nosso processo eleitoral, já tão desacreditado por uma grande parcela dos cidadãos consciete do nosso País.

  • João, com todo o respeito, não quero mais trocar insultos com você. nem com ninguém. gostaria sim de poder dialogar. Não me interessam monólogos paralelos….

    Vejo João, que, no Brasil da corrupção todo o poder emana dos corruptos, embora eles insistam em fazer de conta que exercem o poder em nome de um povo que a seculo vem sendo lesado.

    • João disse:

      O nosso sistema, baseado no CAPITALISMO, no qual cada um renuncia a uma parte de sua autonomia, em benefício do ESTADO, resulta numa DEMOCRACIA IMPERFEITA, tanto que a corrupção existe, além de outros males, mas que podem ser combatidos pelo ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, como vem acontecendo no SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL com o caso do MENSALÃO, apesar da incompreensão dos petistas com o voto dos Ministros por eles mesmos indicados, e de não ter havido a denúncia de nenhum movimento de combate à corrupção eleitoral.

      O sistema que os esquedistas admiram, queriam e querem implantar no Brasil é baseado no SOCIALISMO, no qual cada um renuncia a toda a sua sua autonomia, em benefício dO PARTIDO, resulta numa DITADURA PERFEITA, como acontece em Cuba, onde a liberdade de imprensa, entre outros direitos básicos, é perseguida e é impensável a atuação de qualquer movimento de combate à corrupção eleitoral.

  • Em primeiro lugar não é necessário ter diploma para ser jornalista! E, em segundo lugar ser aluna do UFMT e dar uma de marxoide com uma citação do Eduardo Galeano é pura falta de imaginação para escrever um texto, ou é burrice mesmo. Se tratando de ser jornalista e aluna da UFMT acredito que ela é sem imaginação e ao mesmo tempo burra.

  • Eu protesto, tu protesta, vocês protestariam?

    Até o glorioso Psol esta recebendo dinheiro das empresas “capitalistas”. Nestas eleições o Psol recebeu 100 mil reais da rede Zaffari.

    Sem essa hipocresia de que o culpado são sempre os políticos, e que o povo é o coitadinho, e os estudantes de mitologia-jornalistas gostam e se lambusam com a filosofia da miséria!

    Assim como existe índio, gay, travesti e pobre que vota no maluf, existe estes pseudointelectuaias, ou aqueles escolarizados de maneira capenga que ficam vomitando insatisfação, enquanto que aqueles os “oprimidos” reconhecem o voto como amplamente democrático.

    Antes de se expor com uma reportagem medíocre e de péssima qualidade estude mais um pouco para não virar uma grande piada.



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