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LETÍCIA YAMASAKI: Uma descendente de japonês nas ruas de Alto Araguaia, Mato Grosso, Brazil

 

 

Letícia

 

 

Crônica

Uma descendente de japonês nas ruas de Alto Araguaia

Por Letícia Yamasaki

 

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Kasato-Maru, o navio que, em 1908, trouxe os primeiros japoneses para o Brasil

 

 

 

Existem datas que são mais importantes para umas pessoas do que para outras. Uma delas é 18 de junho, dia em que se comemora a imigração japonesa no Brasil, que em 2018 completa 110 anos. Em Maringá (PR), cidade com grande contingente de japoneses, vai ter uma festa para celebrar este fato.

18 de junho de 1908 foi a chegada do primeiro navio com imigrantes para o Brasil, o Kasato Maru, também visto como “Navio da Esperança”. Esta viagem que durou 52 dias, trouxe para o porto de Santos (SP) 793 pessoas. A partir de então muitos atravessaram o planeta em busca de condições melhores de vida, inclusive depois da Segunda Guerra Mundial. Durante as guerras (Primeira, 1914-1918, e Segunda, 1940-1945) foi proibida a entrada deles no Brasil, pelo fato do governo Vargas apoiar países que estavam contra o Japão.

Mesmo completando 110 anos de imigração japonesa no Brasil, a população de Alto Araguaia (MT), com aproximadamente 18 mil habitantes, ainda não se acostumou a encontrar na rua descendentes desta etnia. E isto chama mais a atenção dos moradores desta cidade por quase não haver pessoas de olhos puxados por aqui.

 

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Já faz dois anos que eu me mudei para Alto Araguaia, para cursar jornalismo na Universidade do Estado de Mato Grosso, e a reação das pessoas ao me verem na rua ainda é a mesma. Me encaram sem disfarçar. Algumas me cumprimentam. Outras só me olham até desaparecer de vista. Tem umas que me veem passando e viram o pescoço na minha direção, acompanhando meus passos. E é sempre assim. Dá pra saber que alguns olhares são só de curiosidade. Já outros são mais de estranheza, como se eu não pertencesse a este local.

Isto acaba sendo desconfortável. Hoje em dia pode-se dizer que eu me “acostumei” com isso. Me incomodava muito mais no começo, logo quando me mudei. As pessoas que andam comigo nas ruas também comentam que sentem os olhares em nossa direção e eu digo: “Ah, isso sempre acontece comigo, é pelos meus olhos puxados”.

E isto chama mais a atenção dos moradores desta cidade por quase não haver pessoas de olhos puxados por aqui

Quando eu vou ao mercado, na feira do produtor ou em lojas do comércio os vendedores me observam e alguns tomam a iniciativa de me fazer a óbvia pergunta: “Você é japonesa?”. E para não prolongar esses diálogos eu costumo apenas assentir com a cabeça sem dar mais explicações. Já que eles logo sabem que eu não sou de Alto Araguaia, uns só falam “De onde você é?”, sem ser direto e se referir a nacionalidade.
Quanto mais gente estiver no local em que estou, mais eu tendo a me sentir inquieta com os olhares e olhar com mais frequência para baixo. Por que… imagina se eu tropeçar com várias pessoas me encarando?! Será um mico e tanto!

As pessoas que andam comigo nas ruas também comentam que sentem os olhares em nossa direção e eu digo: “Ah, isso sempre acontece comigo, é pelos meus olhos puxados”

Uma vez quando eu estava a caminho do banco, virando uma esquina, vi uma mulher falando ao telefone e um menino do seu lado, que aparentava ter uns quatro anos. Ao passar por eles, a criança teve uma reação que me chamou a atenção e por isso nunca esqueci. Abraçou as pernas da senhora e escondeu a cabeça. Pareceu que estava com medo de mim. Nunca deve ter visto um descendente de japonês na vida e acho que imaginou que eu pudesse causar perigo para ele. Como o medo de fantasmas e monstros que temos na infância.

Eu acho que isso também deve acontecer em várias outras cidades pequenas espalhadas pelo Brasil. E isso vai continuar por muitos anos. Por exemplo, mesmo se eu morar por uns 20 anos em Alto Araguaia, a reação das pessoas vai ser a mesma. E a imigração japonesa no Brasil já vai fazer 110 anos…

 

 

 

Letícia Yamasaki, estudante do 5º semestre de Jornalismo da Unemat/Alto Araguaia

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