Leonardo Boff, pensador católico e um dos idealizadores da Teologia da Libertação, participa do 8º Fórum de Responsabilidade Socioambiental promovido pela Unimed, nesta terça, em Cuiabá

A palestra de Leonardo Boff, em Cuiabá, acontece na terça-feira, a partir das 19 horas, no Buffet Leila Maluf

A palestra de Leonardo Boff, em Cuiabá, acontece na terça-feira, a partir das 19 horas, no Buffet Leila Maluf

Com o tema “Melhorar, mudar e transformar”, a Unimed Cuiabá, por meio do Instituto PróUnim, traz o teólogo e autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Antropologia e Mística, Leonardo Boff, para o VIII Fórum de Responsabilidade Socioambiental PróUnim. O evento será realizado nesta terça (5), a partir das 19h, no Buffet Leila Malouf, na Capital. A palestra será gratuita e aberta ao público.

De acordo com o presidente do Instituto PróUnim, Paulo Brustolin, anualmente o Fórum busca proporcionar à comunidade, colaboradores, cooperados, clientes, prestadores e parceiros da Unimed Cuiabá, palestras com personalidades de renome nacional. O intuito é promover um debate e reflexão acerca das questões relacionadas à responsabilidade socioambiental.

“Acreditamos que não há nada melhor que o conhecimento para que seja possível melhorar as inter-relações, mudar as práticas que não nos são mais úteis e transformar a realidade que nos cerca. A sociedade que ambicionamos está ao alcance de nossas mãos. E o Fórum vem justamente fazer essa proposta: podemos melhorar, mudar e transformar”, frisou Brustolin.

Para o presidente da Unimed Cuiabá, João Bosco de Almeida Duarte, o Fórum auxilia a difundir a prática da responsabilidade social para todos os públicos da Unimed Cuiabá, de forma que os auxiliem em seus relacionamentos.

 Leonardo Boff – Nascido em Concórdia, em Santa Catarina, o teólogo de 75 anos, doutor em Teologia e Filosofia e ex-frade, foi um dos articuladores da Teologia da Libertação – movimento que parte do discurso indignado frente à miséria e à marginalização, por meio da preleção promissora da fé cristã. Boff, também foi um ardoroso defensor da causa dos Direitos Humanos, tendo ajudado a formular uma nova perspectiva dos Direitos Humanos na América Latina por meio de sua luta e obras.

Recentemente o autor voltou a figurar no cenário midiático, graças à aproximação do Papa Francisco com o sacerdote peruano Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação, durante a Jornada Mundial da Juventude Rio2013. A linha de atuação do novo Papa, que promete fazer uma “igreja para os pobres”, também vem ao encontro dos conceitos inerentes à Teologia da Libertação.

 Responsabilidade Socioambiental – Sobre a temática do Fórum, Boff avalia que, de forma articulada e global, se está fazendo muito pouco ou quase nada em nome do bem-estar socioambiental. Para ele, os interesses econômicos de acumulação ilimitada à custa do esgotamento dos bens e serviços naturais prevalecem sobre as preocupações pelo futuro da vida e pela integridade da Terra. Em vista disso, o escritor denomina a forma como o homem se relaciona com a natureza e consigo mesmo de ecocida e geocida, fazendo uma alusão à ideia de autodestruição.

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LEIA AGORA UM ARTIGO DE LEONARDO BOFF

 

Ou mudamos ou morremosPOR LEONARDO BOFFHoje vivemos uma crise dos fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como somos, enquanto humanos também Terra (homem vem de humus=terra fértil), nos sentimos todos, de certa forma, doentes. A percepção que temos é de que não podemos continuar nesse caminho, pois nos levará a um abismo. Fomos tão insensatos nas últimas gerações que construimos o princípio de auto-destruição. Não é fantasia holywoodiana. Temos condições de destruir várias vezes a biosfera e impossibilitar o projeto planetário humano. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve a alguns e deixa perecer os demais. O destino da Terra e da humanidade coincidem: ou nos salvamos juntos ou sucumbimos juntos.

Agora viramos todos filósofos, pois, nos perguntamos entre estarrecidos e perplexos: como chegamos a isso?

Como vamos sair desse impasse global? Que colaboração posso dar como pessoa individual?

Em primeiro lugar, há de se entender o eixo estruturador de nossas sociedades hoje mundializadas, principal responsável por esse curso perigoso. É o tipo de economia que inventamos. A economia é fundamental, pois, ela é responsável pela produção e reprodução de nossa vida. O tipo de economia vigente se monta sobre a troca competitiva. Tudo na sociedade e na economia se concentra na troca. A troca aqui é qualificada, é competitiva. Só o mais forte triunfa. Os outros ou se agregam como sócios subalternos ou desaparecem. O resultado desta lógica da competição de todos com todos é duplo: de um lado uma acumulação fantástica de benefícios em poucos grupos e de outro, uma exclusão fantástica da maioria das pessoas, dos grupos e das nações.

Atualmente, o grande crime da humanidade é o da exclusão social. Por todas as partes reina fome crônica, aumento das doenças antes erradicadas, depredação dos recursos limitados da natureza e um ambiente geral de violência, de opressão e de guerra.

Mas reconheçamos: por séculos essa troca competitiva abrigava a todos, bem ou mal, sob seu teto. Sua lógica agilizou todas as forças produtivas e criou mil facilidades para a existência humana. Mas hoje, as virtualidades deste tipo de economia estão se esgotando. A grande maioria dos países e das pessoas não cabem mais sob seu teto. São excluidos ou sócios menores e subalternos, como é o caso do Brasil. Agora esse tipo de economia da troca competitiva se mostra altamente destrutiva, onde quer que ela penetre e se imponha. Ela nos pode levar ao destino dos dinossauros.

Ou mudamos ou morremos, essa é a alternativa. Onde buscar o princípio articulador de uma outra sociabilidade, de um novo sonho para frente? Em momentos de crise total precisamos consultar a fonte originária de tudo, a natureza. Que ela nos ensina? Ela nos ensina, foi o que a ciência já há um século identificou, que a lei básica do universo, não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui. Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e virus até os seres mais complexos, somos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, pois essa é a lei do universo. Por causa desta teia chegamos até aqui e poderemos ter futuro.

Aqui se encontra a saida para umo novo sonho civilizatório e para um futuro para as nossas sociedades: fazermos desta lei da natureza, conscientemente, um projeto pessoal e coletivo, sermos seres cooperativos. Ao invés de troca competitiva onde só um ganha devemos fortalecer a troca complementar e cooperativa, onde todos ganham. Importa assumir, com absoluta seriedade, o princípio do prêmio de economia John Nesh, cuja mente brilhante foi celebrada por um não menos brilhante filme: o princípio ganha-ganha, onde todos saem beneficiados sem haver perdedores.

Para conviver humanamente inventamos a economia, a política, a cultura, a ética e a religião. Mas nos últimos séculos o fizemos sob a inspiração da competição que gera o individualismo. Esse tempo acabou. Agora temos que inaugurar a inspiração da cooperação que gera a comunidade e a participação de todos em tudo o que interessa a todos.

Tais teses e pensamentos se encontram detalhados nesse brilhante livro de Maurício Abdalla, O princípio da cooperação. Em busca de uma nova racionalidade.

Se não fizermos essa conversão, preparemo-nos para o pior. Urge começar com as revoluções moleculares. Começemos por nós mesmos, sendo seres cooperativos, solidários, com-passivos, simplesmente humanos. Com isso definimos a direção certa. Nela há esperança e vida para nós e para a Terra.

Categorias:Gente que faz

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