BANNER GOVERNO HOJE EU VEJO MARÇO

Leitura equivocada de Lúdio do atual momento político provoca novo racha no PT. Candidatura a governador alimentada por parceiros-opositores do PT, como Valtenir e Bezerra, pode comprometer oportunidade do PT de encabeçar chapa situacionista e reerguer-se junto ao eleitorado, com uma campanha com dois fortes ícones: Julier para governador e Lúdio Cabral para federal. Como um personagem trágico de Shakespeare, Lúdio tenta desconstruir a candidatura de Julier para firmar a sua.

Lúdio Cabral e Julier Sebastião, na disputa pela cabeça de chapa do PT, em sua tentativa de reerguer-se, uma pequena tragédia com tintas shakespereanas

Lúdio Cabral e Julier Sebastião, na disputa pela cabeça de chapa do PT, em sua tentativa de reerguer-se diante do eleitorado de Mato Grosso, uma pequena tragédia com tintas shakespeareanas

Lúdio Cabral foi emprenhado por velhos parceiros-opositores do PT, Valtenir Pereira e Carlos Bezerra. Com essa nova candidatura a governador, alimentada basicamente de fora para dentro, pode ficar comprometida a oportunidade do PT encabeçar a chapa situacionista, nas eleições de 2014, em Mato Grosso, aglutinando em torno de si todos os partidos da base aliada, com Julier governador e Lúdio candidato a deputado federal. Dois ícones a inspirar o voto do povo no PT, numa reconstrução possível.

Lúdio, de repente, só faz o que Valtenir e Bezerra lhe sopram – e vai mutilando a possibilidade concreta dele se eleger e puxar a eleição de mais um deputado federal, a partir da Capital, contribuindo para o fortalecimento da bancada de sustentação da presidente Dilma no Congresso Nacional, em seu segundo mandato.

Claro, esse é o meu entendimento dos fatos. Meu, do Enock. Lúdio, certamente, com o ego inflado por um inesperado apetite por um poder que, por enquanto é só um desejo parado no ar, certamente que tem o entendimento dele, talvez ache que tem melhor condição de contribuir que o Julier. Mas entendo que se equivoca, enredado pelo canto do cisne. Adam Schaff já deixou patente que todas as interpretações “são resultados do condicionamento social” de quem as apresenta (SCHAFF, 1978, p. 269), daí a necessidade de (re)interpretar os “acontecimentos”. O que tento aqui é alertar para um aspecto da realidade que não desejaria que permanecesse nas sombras.

Lúdio falhou ao não defender o juiz Julier Sebastião quando o juiz fora covardemente atacado por uma busca e apreensão que nunca teve justificativa clara, e que só contribui para comprometer a respeitabilidade do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da própria Justiça Federal. Vejam que estranho: diante do ataque externo ao Julier, vendo direitistas como Antero e Adriana Vandoni babando pela mídia todo seu preconceito contra o juiz, Lúdio, embeiçado pela popularidade ocasional conseguida na disputa pela Prefeitura de Cuiabá, ao invés de rebater estes ataques, começou a articular uma opção para a possível queda do candidato até então unânime entre as principais lideranças do PT – e a opção seria ele, o Lúdio. E assim, com Bezerra, Valtenir e até Ságuas a soprarem em seus ouvidos (pois lhes interessa afastar o concorrente na disputa pela Câmara Federal), a gloriosa campanha a deputado federal começou a ser esquecida pelo médico agora de ego inflado.

Sim, a situação é complicada e os egos inflados continuam a ser os adversários mais insanos da boa política, no meu modesto entendimento. “A verdadeira substancia da ambição é a sombra de um sonho“, dizia o príncipe Hamlet. Lúdio não consegue enxergar que o PT deve ter dois e não um só cabeça de chapa, nesta eleição. Julier comandando a disputa contra o direitista e reacionário Pedro Taques. Ele, Lúdio, puxando votos para a chapa proporcional.

Vejam que a coragem do juiz Julier Sebastião da Silva, de abrir mão do seu confortável emprego como juiz federal para colocar sua história e sua militância a serviço do soerguimento do Partido dos Trabalhadores, em Mato Grosso, de repente, é cinicamente desconsiderada por Lúdio Cabral. Cinicamente atacada neste momento. Falta sensibilidade, falta entendimento do salto no escuro a que Julier se dispõe, por uma antiga identidade com o partido. Julier merece respeito. É mais do que justo que o PT corresponda a esta ruptura tão corajosa que Julier assume em sua vida, garantindo-lhe como evidente contrapartida a candidatura de governador, sabendo-se, além do mais, que é um personagem que jamais prevaricou em suas funções públicas, que teve atuação decisiva em episódios como o desbaratamento da organização criminosa de Arcanjo, que submetia e humilhava toda nossa comunidade, e na revelação dos documentos que possibilitaram ao Ministério Público denunciar à Justiça a gestão de Riva e Bosaipo à frente da Assembleia Legislativa.

E na briga dos egos, tem gente, agora, incentivando Julier Sebastião a se filiar ou no PC do B ou no PR, para conseguir abortar, desta forma, o projeto oportunista de Lúdio Cabral. E, assim, o que se pode perder é a experiência de revigorar o Partido dos Trabalhadores, a mais exitosa construção partidária já efetivada neste lado do Atlântico, a partir dos de baixo (se bem que, em alguns momentos, manipulada pelos de cima).

De repente, eu me vejo envolvido numa daquelas tragédias inescapáveis de William Shakespeare, com reis e príncipes da Inglaterra trocando facadas no escuro, em meio a choro e muito ranger de dentes. Entender ou não entender as possibilidades do PT, eis a questão. “Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!” Ecoa-me, de repente, a frase que Ricardo III, ao final do texto de Shakespeare, grita desesperadamente quando o personagem tenta, pela última vez, escapar das consequências mortais de seus atos.

A peça Ricardo III, escrita entre 1592 e 1593, trata de uma rica, intricada e complexa rede de temas pertinentes à Teoria política: intrigas; conspirações; comportamentos políticos; conflitos de poder; diálogos embebidos de retórica, persuasão e convencimento político; discursos de guerra; coalizões; violência; astúcia; dissimulação; incertezas; a inevitabilidade do Acaso; as qualidades, virtudes (virtú) e os vícios do príncipe; a potência do agir; audácia; a configuração da tragédia política moderna.

Talvez em toda a literatura dramática não exista personagem tão malvada e simultaneamente tão sedutora quanto Ricardo III. Quantos poderes não assentam neste primado que, como um abismo, atrai as nossas mais íntimas contradições!?

Não sei se Lúdio Cabral já meditou sobre as tragédias que Shakespeare nos legou mas, não sei por que, nesse momento ele, o médico cuiabano, me recorda o Ricardo III shakespereano e o abismo em que este personagem mergulhou. Alguém que constrói seu desespero pensando que trilha a estrada para a glória.

Ricardo, então Duque de Glocester, ambiciona o trono de seu irmão Eduardo. Como é o sétimo na linha sucessória, ele traça e inicia uma escalada golpista sem precedentes que acaba por levá-lo ao trono. Manda matar o seu irmão Clarence, casa-se com Anna de York, de quem havia matado o marido e o sogro, comemora a morte de seu irmão, o Rei Eduardo, manda assassinar seus sobrinhos que por direito herdariam a coroa e todos mais que se interpõem em seu caminho.

Falar em glória. Que coisa gloriosa para mim foi ver, no PT de Mato Grosso, a corrente Construindo um Novo Brasil se render à tese da candidatura própria do PT neste ano de 2014. Eles que, em parceria com Serys, apunhalaram José Afonso Portocarrero em 2008, agora parece que perceberam que não dá mais para o PT continuar existindo como mero apêndice do poder dos sojicultores em Mato Grosso. É como se eles ensaiassem uma autocrítica, apesar do discurso sempre sectário de Carlos Abicalil.

Nesta conjuntura, abraçando a candidatura de Julier, os militantes do CNB visualizaram a possibilidade de inverter o processo, e subordinarem o poder dos sojicultores a uma candidatura hegemônica do PT, das forças populares. Depois de tantas derrapagens, eis que eles me parecem iluminados. Até que nos surge o Lúdio para atravessar a dança.

Uma tessitura muito delicada.

De repente, como um macaco em loja de louças, eis que aparece o médico Lúdio Cabral, de dentro do próprio CNB mas emprenhado pelo ouvido por Valtenir e Bezerra, velhos parceiros-opositores do PT, de difícil convivência, para devolver o PT à sua angústia shakespeareana. O que eles tentarão, sempre, será cortar as asas do PT, impedir que o partido se afirme como efetiva representação classista e se perca nas águas turvas da política dos conchavos.

Meu reino por uma participação digna do PT no processo eleitoral de 2014, neste Estado agônico que é Mato Grosso, de tantas riquezas, de tantas baixezas. É tudo que desejo, mas o que vejo é o partido, novamente, podendo ser arrastado para uma disputa autofágica. Sangrar, sangrar sem parar, ficando paralisado nesse momento em que a conjuntura lhe cobra tantas responsabilidades para com as massas subalternizadas de Mato Grosso e do Brasil.

Al Pacino interpretou e dirigiu a adaptação de Ricardo III, de William Shakespeare, para o cinema

Al Pacino interpretou e dirigiu uma adaptação de Ricardo III, de William Shakespeare, para o cinema

 Ian McKellen,muito popular por sua atuação como o mago Gandalf da série "Senhor dos Anéis, também comandou uma adaptação de Ricardo III para as telas, encenando a tragédia em uma Inglaterra que ele leva a adotar o fascismo


Ian McKellen,muito popular por sua atuação como o mago Gandalf da série “Senhor dos Anéis, também comandou uma adaptação de Ricardo III para as telas, encenando a tragédia em uma Inglaterra que o personagem leva a adotar o fascismo

A mais recente montagem, nos palcos brasileiros, teve Jô Soares na direção e Marco Ricca como o personagem central

A mais recente montagem, nos palcos brasileiros, teve Jô Soares na direção e Marco Ricca como o personagem central

10 Comentários

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  1. - Responder

    Esse Julier chegou tarde e quer sentar na janela! Cade a corregedoria desse esse TRF e o CNJ que não vêem esse juiz se reunindo com ex e atuais réus para angariar apoio?

  2. - Responder

    Não tenha essa visão meu prezado amigo. Julier nem está no partido e já quer a lugar mais alto? Não era o seu PT que tinha toda um liturgia para escolher os candidatos… E se de uma hora para outra o juiz decidir permanecer na judicatura, como ficaria o partido? Lúdio tem histórico no PT e por isso deveria merecer mais respeito. O que a turma da boquinha, que entregou o partido para os governos Blairo e Silval está fazendo é um desserviço à política partidária.

  3. - Responder

    QUEM<QUEM<Enock apoia para governador?Futuro chefe da SECOM?

  4. - Responder

    Lhe admiro mto Enock, no entanto, discordo de cabo a rabo… ACREDITO QUE O MELHOR NOME É DO LÚDIO, pois aglutina apoio inclusive de ante – petista como eu. Julier não teria a mínima possibilidade de se eleger, pois me aparenta ser uma pessoa arrogante = Pedro Taques, o qual ajudei ser eleito Senador e me arrependi, por ter feito mto pouco por MT e por não cumprir seu mandato de Senador.

    • - Responder

      Perfeito M. José!

  5. - Responder

    SÓ QUERO SABER UMA COISA, SE O LUDIO AFASTOU DO DOIS EMPREGOS QUE TEM, COMO ELE TÁ PAGANDO AS CONTAS, OU QUEM TA PAGANDO SUAS DESPESAS DE VIAGEM?

  6. - Responder

    Enock, tirando você e alguns poucos da direção do PT estadual o Julier não tem a simpatia de ninguém! Seu único diferencial que era o combate ao crime foi maculado com a operação Ararath, como, ao que tudo indica, acontecera com o Taques ao longo do ano.

  7. - Responder

    desde o episódio da cassação do lutero, na camara de cuiabá, tem gente que não confia um pequi ruído presse lúdio tomar conta

  8. - Responder

    Para mim, são todos filopetralhas.

  9. - Responder

    Enock.
    Você está lendo muito Shakespeare, confundindo simpatias e antipatias, e vendo menos do que se passa no PT. Que pena! Daqui a alguns dias os fatos mostrarão o tamanho dos erros de suas análises. Mas bem que você poderia se somar menos àqueles que atacam despudoradamente o Lúdio dentro do PT ( e que você elogia, como tendo mudado, aderido à candidatura própria, etc.) e se somar mais àqueles que querem o PT longe de Silval, Blairo, Fagundes, Bezerra, Valtenir, etc, com candidatura própria e longe da tal “base aliada”.
    Defender a candidatura do Lúdio, do PT, contra aliança com essa “base aliada”, é defender a luta contra a privatização da SANECAP, contra os aumentos das passagens de ônibus em Cuiabá e pelo passe livre para os estudantes, em defesa da saúde pública, em defesa dos servidores municipais, etc. Portanto, não foi por “popularidade ocasional” que o Lúdio chegou onde chegou nas eleições para a Prefeitura de Cuiabá.
    Chamar Lúdio de “macaco em loja de louças” é demais. Que você tenha simpatias pelo Julier e antipatias pelo Lúdio é uma coisa, mas misturar isso na disputa muito maior que está ocorrendo agora demonstra fraqueza de sua parte. Um abraço companheiro.

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