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KEKA WERNECK – Até quando a mulher vai responder sozinha pelo aborto e outras responsabilidades sexuais?


Artigo – Quem é ele?
Por Keka Werneck*

Fulana de tal, 19 anos, negra e pobre, entrou, na última segunda-feira, dia 9 de abril, como uma paciente qualquer em um hospital de Várzea Grande sentindo fortes dores abdominais. Estava acompanhada pela mãe.

Mãe nessas horas é boa companhia, é a melhor companhia. Mãe cuida.

A moça estava na verdade grávida! Foi ao banheiro, pariu sozinha e jogou o bebê no lixo, conforme a versão policial.

O bebê morreu de asfixia.

Mas como assim? Mãe cuida ou não cuida?

A paciente que entrou no hospital como gente comum saiu de lá para o indiciamento policial por homicídio simples e para a fama. Ventilou-se até infanticídio, que tem uma carga ainda maior. Na TV, apareceu de toalha no rosto, cena típica de bandidos, geralmente de baixa renda. É o jeito que encontram para proteger a própria imagem.

Esse caso da mãe que jogou o bebê no lixo não é fácil de compreender, moralismos invadem a gente.

Mas antes de julgar, é preciso querer saber por que isso aconteceu.

Afinal, nada se sabe sobre os motivos dessa tal criminosa, que chegou ao extremo de matar o próprio filho recém-nascido. Legião Urbana canta na música “Era um Lobisomem Juvenil” que “todos têm suas próprias razões”. Ouça.

Pensando em razões que levam qualquer pessoa a atitudes estranhas, inesperadas, medonhas, quem vai julgar a moça?

Todo mundo não tem um dia de insanidade em maior ou menor grau?
Não seria hipocrisia julgá-la usando apenas moralismos e preconceitos?
O jornalismo, por exemplo, não pode se limitar a isso.

No lixo, o bebê era menina. Feto de sete meses. Quase nem ficou por aqui, sumiu para outro lugar não se sabe qual. Se vingasse, ficaria exposta às maldades desse mundo por mais tempo. O mundo é duro com as mulhreres.

Agora a mãe da criança é que está exposta à execração pública. A avó chora, soluça, não sabia de nada, nem percebeu a barriga, seria possível? A própria parturiente diz que não sabia da condição. Ave Maria, mas como assim? Já engravidou? Se sim, sabe como é: incha tudo, um sono medonho, outros sinais claros, é uma barriga grande que cresce, mesmo as barrigas pequenas são grandes, ocorrem muitas mudanças mesmo, físicas e psicológicas. Para não perceber tudo isso…meu Deus! É preciso cegueira geral.

Depois da cadeia – a moça foi solta – talvez venha forte depressão, a angústia de ter sido sinistra ao extremo, como pode mãe matar filho? Gente assim é sinal dos tempos, se apressam religiosos ortodoxos.

Daqui a pouco dirão até que é coisa do capeta.

Como essa moça vai conviver com essa culpa? Como ela viveu esses sete meses? E antes disso?
Depois da tragédia, talvez repense o que fez, talvez repense a vida, o amor, o sexo, talvez esteja em choque e nem pense em nada nesse momento…

Que crime, meu Deus, eu cometi! Que vergonha! Que medo! Que culpa! Que erro! Era isso mesmo? E agora?

Quais os sentimentos?

Antes de julgá-la, queira saber.

Inflama-se a sociedade em ser “juiz supremo”, ainda citando Legião.

O nome da mulher homicida está por todo canto, não precisa repetir. Que procure quem quiser saber…é fácil de achar na internet, nos jornais, nas rádios, na TV. Ao vento…

Mas espera aí…

Não estão esquecendo de ninguém não?
Há sete meses havia um homem, sem o qual essa história não chegaria ao fúnebre desfecho, não haveria cópula. Não haveria feto. Há sete meses havia o pai. O fio dessa meada talvez leve a uma paixão insana, daquelas que não dão tempo de preservativo, nem de pensar em coisa alguma, um perigo não só quanto à gestação indesejada, mas doenças graves.

Um perigo consentido, a paixão, quem sabe o amor, quem sabe só sexo mesmo. Vai saber…

E agora onde está esse homem, isso é homem?

Seria apenas um moleque? Saco de batatas? Quem sabe nem tomou conhecimento que fecundou…

Onde estaria ele para responder junto com essa mulher pelo pior crime que é mãe matar filho?

A sociedade não vai querer saber quem é ele? Se soubesse o nome, execraria também o pai?

Seria ele casado? É, seria casado? É preciso perguntar. Se não é casado, porque sumiu e deixou a barriga crescer sem amparo?

Até quando a mulher vai responder sozinha pelo aborto e outras responsabilidades sexuais?

 

Keka Werneck é jornalista em Cuiabá.

2 Comentários

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  1. - Responder

    Finalmente uma mulher que escreve contra os discursos que impedem a descriminalização do aborto. Ela colocou o pai no meio. Dessa forma a Keka Weenek destroi aquele discurso desastroso que diz, em favor da discriminalização do aborto, que as mulheres são donas do próprio corpo e que só a elas cabe a decisão de abortar. Esse discurso já é velho, mas falso, porque seria um absurdo permitir que a mulher abortasse sem ouvir o pai. É isso aí Keka destrua o discurso feminista que só atrapalha as mulheres nessa discusão tão importante e chame os homens à responsabilidade.

  2. - Responder

    Como sempre Ridicula , essa KeKa é ridicula

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