JUIZ BENITO CAPARELLI: Sobre discordância e delicadeza, recordando as lágrimas do senhor Pertini

Caparelli

AS LÁGRIMAS DO SENHOR PERTINI – (“I have a dream…”)

POR BENITO CAPARELLI

 

Hoje, ouso repetir tema do artigo que fiz publicar, no final da década de oitenta, próxima transata, em um jornal da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Rádio e Televisão, editado pelo sindicato de sua categoria, a qual, na ocasião, era presidida pelo ex-Ministro do TST, Antônio A. M. Cortizo, onde laborei como advogado-assessor, ocasião em que, assistindo pela TV, e muito emocionado, tive a oportunidade de ver e ouvir as homenagens que eram prestadas no cemitério de Pádua, na Província do Veneto, na Itália, ao recém falecido político italiano, Enrico Berlinguer, ex líder político do Partido Comunista Italiano, momento em que, o ex-Presidente da República Italiana, Alessandro Pertini (Sandro), pertencente ao conservador Partido Socialista Italiano e, consequentemente, seu adversário político, usando da palavra para exprimir seu “requien” de despedida, à beira do túmulo, pronunciou a mais eloquente, enternecedora e comovente homenagem de despedida de seu antagonista, chegando, mesmo, a verter, pela sua face, as mais copiosas lágrimas de sentimento, apreço e admiração por ele, fato observado por todos que participavam da cerimônia e pela mídia televisiva universal.

Impende dizer que, uma multidão, de quase um milhão de pessoas, calculada pela referida reportagem internacional, de admiradores, seguidores, prosélitos e sequazes do ilustre finado e, até mesmo, seus adversários políticos, restaram emocionados e afetados pela comoção coletiva, emanada pelo orador, e causada pela sentida despedida do referido líder.

O moral que se extrai dessa singela narrativa, analisando, assim, do ponto de vista de nosso rincão tupiniquim, assemelha-se às conclusões éticas  das fábulas de Esopo, pois, por aqui, a alteridade de nossa representação política, sempre adversa e beligerante, não constrói a grandeza comportamental, lhana e reverente a respectivos e iterativos relacionamentos.

Se formos perquirir, iguais posicionamentos, advindos de ensinos filosóficos, situando-os pelo sentido crítico estabelecido entre os mais adversos doutrinadores, quando discordam de respectivas teses, vivenciamos, sempre, a respeitosa delicadeza com que proferem suas discordâncias, mas, deixando, sempre claro, sua mais fiel admiração e respeito pelo seu oposto e, dentre estes, apenas exemplificando, cita-se o posicionamento do filósofo Theodor W. Adorno, quando ressalta sua discordância analítica  à “Crítica da Razão Pura”, elaborada pelo seu conterrâneo Immanuel Kant, finalizando por registrar a importância intelectual que lhe outorga, o mesmo o fazendo em relação à “Fenomenologia” de Edmond Husserl, seu outro patrício, o que pode ser conferido no livro de sua autoria, “Primeiros Escritos Filosóficos”, da Editora UNESP, sendo que, para este último, assim se referiu: “Ele tomou da psicologia o conceito da intuição originalmente doadora e, através da formação do método descritivo, recuperou à filosofia uma confiabilidade da análise restrita que ela há muito havia perdido nas ciências particulares. Não se pode ignorar, entretanto, de que Husserl ter expresso isso publicamente é prova de sua grande e profunda honestidade.” (p.434).

Precisa dizer mais?

Há, quem afirma, que a natureza humana, em geral, ela é a mesma, agora, do que era a um milhão de anos atrás, (Teoria do Fixismo), mantendo os mesmos preconceitos, iguais egoísmos, e sua grande reserva moral para renunciar a novos modos de vida e uma orgulhosa teimosia à verdade, que sempre ousou restabelecer.

Na atual época, em que vivemos, após ultrapassar as mais diversas eras sociais, e alcançar o estágio do cognominado homo sapiens sapiens, ou o chamado Homem de Neardental, (expressão inglesa que mais nos aproxima) como se denota, continuam mantidos os indisfarçáveis preconceitos de ordem moral ou econômica e, paradoxalmente, vivenciamos o imenso abismo existente entre os mais pobres e os ricos, jamais deslindado e solucionado em toda cadeia evolutiva da nossa sociedade e, também, por lutar-se pela preservação e conservação do meio ambiente, mas, injustificavelmente, olvidando-se no que pertine ao comovente e repulsivo cenário  humano, a fim de libertá-lo de tantas desigualdade heterogêneas, que culminam por não reduzir a imensa disparidades entre a opulência exarcebada de alguns, e a miséria que campeia e assola aos demais infortunados.

Usam-se os magistrais, porém, místicos e dogmáticos argumentos para manutenção do “status quo” social, primitivamente, diziam-se do apartheid ser vontade divina, ao depois, apelaram-se pela supremacia racial na justificativa escravocrata e, por fim, utilizaram-se dos chavões anti-semita para tentar enganar a humanidade em geral e, especialmente, aos alemães. Agora, utilizam-se de expressões “comunistas” ou “terroristas”, para estigmatizar quem batalha para erradicar, ou mesmo, minorar o sofrimento da ingente avalanche de miseráveis que persistem em sobreviver, ainda que faltando-lhes o indispensável e necessário para tal desiderato.

Concluo, por parafrasear o notável líder da comunidade negra norte-americana, o pastor Martin Luther King Jr., “eu também tenho um sonho”, pois, espero, ansiosamente, por não dizer oníricamente, que, um dia, tudo isto terá que acabar.

 

BENITO CAPARELLI é juiz do Trabalho, aposentado, em Mato Grosso

 

 

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