JUIZ BENITO CAPARELLI: Os efeitos sociais da modernidade

Caparelli

Os efeitos sociais da modernidade

Por Benito Caparelli

 

O sociólogo polônes, Zygmunt Bauman, no crepúsculo de seus lúcidos oitenta e nove anos, vita contemplativa essa, consubstanciada por longa experiência e intensa observação no campo dos mais distintos comportamentos sociais da humanidade, em face das extraordinárias alterações robóticas, que vem ocorrendo, de forma avassaladora e inesperada,  modificando, para melhor, a existência de todos nós, quer sejam nas mais dispares e notáveis descobertas no campo da tecnologia da informação, como no campo da industrialização automotora, em geral, além dos fabulosos avanços no campo da astronomia, legou-nos a seguinte assertiva:

“As consequências disso, são a austeridade, o aumento do desemprego, e sobretudo, a devastação emocional e mental de muitos jovens que, agora, entram no mercado de trabalho e sentem que são impotentes e não são bem vindos, pois, não podem adicionar nada mais ao bem estar da sociedade.”

E, acrescenta:

“Hoje, existe uma enorme quantidade de pessoas que querem a transformação, que têm ideias de como tornar o mundo melhor, não somente para eles, mas, também, para os outros e um mundo mais hospitaleiro.”

        “Mas, a sociedade contemporânea, na qual somos mais livres do que nunca, ao mesmo tempo, somos, também, mais impotentes do que em qualquer outro momento da história.”

        Segundo ele, a modernidade, que ora notamos, sentimos e utilizando-a, tem-se tornado obsessiva, viciante, compulsiva, significando não aceitar as coisas como elas são, e, sim, torna-las em algo que ainda considera melhor.

Há, quem entenda a modernidade, analisando-a pelo seu aspecto metafísico-religioso, visto pelo ângulo do descrédito da filosofia aristotélica, como afirma o autor, ante o primado das ciências de observação e experimentação, nos variados desenvolvimentos tecnológicos já alcançados pelo homo sapiens, porém, todos se abstiveram em examinar os efeitos que causariam, e já causam, nos diversos relacionamentos, entre os homens da atualidade, e o que poderá vir a ocorrer no futuro.

Nada contra a modernidade. Muito pelo contrário, é bom que se diga, pois, malgrado ela vir, sempre, a despeito de ser a meta que se busca, como melhoria de vida de todos nós, não devemos, jamais, olvidar sua adequação no campo do inter-relacionamento social, uma vez que, quanto mais se tem avanços na substituição da mão-de-obra humana, mais ela vai se tornando uma inevitável ociosidade nos mais variados e diversos estamentos da atividade laboral, numa soberana substituição da máquina pelo homem.

A Constituição da República Federativa do Brasil, editada em 5 de outubro de 1988, há mais de trinta anos, portanto, já previa tal disparidade, tanto que, pelo seu artigo 6º, item XXVII, do Capítulo II – Dos Direitos Sociais, recomenda ao poder legislativo a elaboração de medidas sócios-preventivas de proteção contra a automação, que amortecesse os eventuais efeitos negativos da sua implicação na vertente trabalhista, tornada ociosa em face de tais substituições, porém, nada se tem feito até os dias hodiernos.

Na análise de nosso passado, nem tanto remoto, constatamos, com pesarosa satisfação, ante o incrível paradoxo, a ausência de trabalho das telefonistas, que prestavam seu labor antes da automação deste sistema, em toda orbe; o mesmo ocorrendo com a extinção do trabalho dos cobradores de veículos públicos, hoje substituídos por cartões magnéticos;  da prestação de serviços dos ascensoristas/cabineiros, nos elevadores; dos trabalhadores rurais, uma vez que, uma só máquina, plantadeira/colhedeira faz o trabalho de mais de quarenta pessoas e, em fase de extinção, a profissão de bancários a ser substituídos por caixas eletrônicos; a mão de obra dos carteiros, posto que as missivas, por ora, quase todas, são enviadas por e-mail, e a remessa de pacotes já se fazem, em outros países, entregues via drones, para não dizer, que, até os veículos já começam a ser auto-dirigiveis, dispensando-se motorista, além do que é mais constatável e visível, a automação utilizada na produção desses mesmos veículos automotivos e, mais um sem número de profissões a serem atingidas.

Assistimos, nesta quadra de tempo, de forma estarrecidos, a segunda diáspora de trabalhadores africanos, deixando suas respectivas pátrias, em busca de trabalho nos países europeus, agora, por vontade própria e não sequestrados a laço, como sói ocorreu ao tempo da escravidão, como, também, vem ocorrendo, por um sem número de pessoas, oriundas de países centro-americanos, buscando igual labor nos Estados Unidos, posto que faltam oportunidades em suas respectivas nações.

Ouso prognosticar, sem temor de eventuais incompreensões que, em futuro próximo e não muito distante, a modernidade haverá de influir, até mesmo, nas disposições políticas do mundo em que vivemos, para por fim às eventuais ideologias de esquerda/direita, pois, todas estas correntes de pensamentos deverão convergir, para um só objetivo, que é salvar a humanidade e, repetindo as palavras de Hannah Arendt, “a compreensão, diferente da informação correta e do conhecimento científico, é um processo complexo que nunca gera resultados inequívocos. É uma atividade interminável por meio da qual, em constante mudança e variação, chegamos a um acordo e a uma conciliação com a realidade, isto é, tentamos sentir o mundo como nossa casa.” (citadas por Celso Lafer, em “Hannah Arendt – Pensamento, Persuasão e Poder”, Ed. Paz e Terra/2018).

E é o que penso e espero.

        Benito Caparelli é Juiz do Trabalho da 23ª Região, aposentado.

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