PREFEITURA SANEAMENTO

JUIZ BENITO CAPARELLI:  O ser humano é um estranho paradoxo antropológico

Caparelli

40 ACRES & MULE  (Quarenta acres e uma mula), o paradoxo

por Benito Caparelli/Especial para a PAGINA DO ENOCK

 

    O ex-congressista norte-americano John Conyers, atualmente com 89 anos, sempre propôs, a cada legislatura, continuada e ininterrupta, de sua atividade como legislador dos EE.UU, que se prolongou por três décadas a sua representatividade política, um projeto de lei, no sentido de que seu país pudesse reconhecer a crueldade, a brutalidade e a falta de humanidade da escravidão, outrora ocorrida na sua pátria, por quase dois séculos, assim como a  resultante discriminação econômica e a impiedosa segregação racial, infringida aos afros-americanos, e o impacto causado aos seus descendentes, após a extinção desse cancro social.

Todavia, a proposição do insigne parlamentar sequer restou debatida em plenário.

A ideia de realizar “reparações pela escravidão”, sempre esteve presente na sociedade americana, explica a escritora Yolanda Monge, em artigo de sua autoria, desde a Guerra Civil, finda em 1865, sugerida como indenizatória pelo General William T. Shermam, como a Lei dos Quarenta Acres e uma Mula, (40 ACRES & MULE, no original da língua inglesa), equivalendo o acre, segundo o Google, a 4.046,86, metros quadrados.

Hibernando-se, em determinadas épocas, tal iniciativa de resgatar uma página tenebrosa da sua história, volta e meia o assunto tem retornado em debates espontâneos e isolados, no Congresso norte-americano, porém, sugestivos e altruísticos, mas sem conseguir instituir-se em legislação reparadora.

Segundo confirmação da referida articulista, neste ano, enquanto cresce o número de congressistas do Partido Democrata, vários de seus pré-candidatos ao pleito eleitoral, que se avizinha, voltaram a mencionar o assunto, dentre os quais, tem-se destacado a senadora Kamara Harris, pelo Estado da Califórnia, a veterana Elizabeth Warren e, até mesmo, o prefeito da cidade de San Antônio, Julian Castro, todos pretendendo indicações de seu partido, ao sufrágio presidencial.

Tal sistema, de imposição abusiva e injusta, da exploração do labor humano, notadamente, padecido por negros, originários da África, foi sucedido por nada menos 250 anos de leis que institucionalizaram a total discriminação das desditosas e infortunadas criaturas, antes, durante e após suas respectivas alforrias, inclusive, alcançando a totalidade de seus familiares, explica a corajosa autora, acima referida, isto porque, restou suficientemente comprovado, que a escravidão não acabou, nem com a intervenção de Abraham Lincoln e nem com a 13ª Emenda Constitucional americana, que  a abolia.     Boa parte da intelectualidade norte-americana, assim como várias organizações de natureza ecumênica, assentadas em seus diversos ecletismos religiosos ou estamentos sociais, sugerem a autora a leitura dos ensaios reveladores de Ta-Nehise Coates, publicados sob o título “Um Argumento em Favor das Reparações”, ou no seu original inglês, “The Case For Reparations”, para se entender as razões pelas quais alguns destacados próceres do Partido Democrático, lutam por esses desagravos.

Sob o título “INVASÃO ROBÓTICA NO MERCADO DE TRABALHO”, por outro lado, a mídia escrita publicou, na quarta-feira, 26 de junho próximo passado, um estudo realizado pela Oxford Economics, ou seja, uma empresa britânica privada de investigação e consultoria, vaticinando que, em 2030, os robôs vão ocupar mais de 20 milhões de empregos industriais, em todo o mundo, agravando as desigualdades sociais e geográficas, mas impulsionando a produção econômica em geral.

O alerta destaca as crescentes preocupações sobre a automatização e os robôs que, apesar de oferecer benefícios econômicos, estão eliminando, de forma desproporcional, empregos de baixa qualificação, agravando a situação social, sempre desprezada pelas legislações tuitívas.

Segundo, ainda, as estimativas, o deslocamento de empregos ocasionado pelo aumento dos robôs não se distribuirá, uniformemente, no mundo e nem dentro dos países. De toda forma, a Oxford Economics conclui que, em regiões com menos qualificações, a perda dobrará em relação às que têm maiores capacidades profissionais, inclusive em um mesmo país. “Os trabalhos que requerem funções repetitivas são os mais afetados”, escrevem os autores.

Paradoxalmente, a ambivalência é inerente ao ser humano. Um quer, o outro nega. Ora é diáfano, outro é indevassável. Outro lúcido, outro nebuloso. Um é lógico, outro é ilógico. Um é diálogo profundo, outro é monólogo estéril. Assim caminha a humanidade pois, como se vê, uns são altruístas, outros são egoístas.

Na mitologia grega, um era Eros, representante do amor e solidariedade, como expressão de vida, porém, outro era Tânatos, cultor do ódio, feroz e insensível. O primeiro, busca a paz, o segundo faz a guerra. Inegavelmente, o ser humano é, pois, um estranho paradoxo antropológico.

Nos inter-relacionamentos humanitários, Tânatos oferece a pedagogia do homicídio, pois propaga a mentalidade assassina, faz armas e ensina a matar, como solução dos dissídios.

No livro, Crepúsculo dos Idolos, Nietzsche cria o personagem Zaratrusta, que incentiva o fim das verdades velhas, como prenúncio da atual fase pós-moderna.

    Assim, pois, sentimos o alvorecer da era da informática, revelando sua aceleração histórica, instalando o neocapitalismo, como expressão de vida em sociedade, preferindo intuições de racionalidades, como experiência subjetiva a sistemas metafísicos e cultivando o emocional, o sincretismo e o prazer desmedido, vexatório e preconceituoso, de um lado, porém toleram uma economia desumana, que deteriora populações inteiras, disseminando a fome, a miséria e a desarmonia social.

Completando, diz o lúcido filósofo: “O homem é ser incompletamente determinado, potencialmente bom, e potencialmente mal. Este o paradoxo.”

 

Benito Caparelli é juiz do Trabalho, aposentado, da 23ª Região, em Mato Grosso

 

 

 

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